22 de junho de 2018

Agronegócio, uma máquina de geração de renda no Brasil

por Marco Fava Neves

Nas duas últimas décadas, em que boa parte do Brasil teve dificuldade no nosso principal objetivo, que é a geração de renda, o agronegócio mostrou-se ser uma máquina azeitada de criação de recursos à nossa sociedade. Fechados os números de 2017, vale refletir sobre eles.

As exportações do agronegócio foram de US$ 96 bilhões, 13% acima de 2016, e, retirando-se as importações de US$ 14,1 bilhões, o agro deixou um superávit 14,8% maior, de US$ 81,8 bilhões. Representou 44,1% de todas as exportações brasileiras. Um setor exporta quase metade do total do Brasil, e sem o agro teríamos um déficit de US$ 15 bilhões na balança comercial.

Nos últimos 20 anos, as exportações acumuladas do agro brasileiro atingiram incríveis US$ 1,23 trilhão, ou em valores de hoje, podemos estimar entre 5 a 10 trilhões de reais o montante que entrou pelos nossos portos e subiu até as fronteiras com os países andinos, movimentando a economia e permitindo distribuição de renda e inclusão.

Entre os nossos compradores de 2017, destaca-se a China, que representou 27,7%, seguida pela União Europeia com 17,7%, pelos EUA com 7%, e Japão e Hong Kong, com aproximadamente 2,5% cada. Os cinco maiores compradores representam quase 60% do total, e os cinco maiores produtos (soja, carnes, cana, florestais e café) trazem quase 80% do total.

Uma análise do desempenho dos principais produtos mostra que tivemos salto de 24,8% no complexo soja, que trouxe ao Brasil US$ 31,7 bilhões, puxado pelas exportações recordes de soja em grãos (subindo 33%, para US$ 25,7 bilhões), e o milho não ficou atrás, subindo 25% e alcançando US$ 4,5 bilhões.

As carnes tiveram performance impressionante, quando se considera o pesadelo criado internamente pela desastrada operação Carne Fraca, e cresceram praticamente 9%, nos trazendo US$ 15,4 bilhões. Entre estas, o frango cresceu 5,5% (US$ 7,1 bilhões), a carne bovina 13,7% (US$ 6 bilhões) e suínos 9,7% (US$ 1,6 bilhão, recorde do setor). A cadeia da cana também teve crescimento de 7,8%, para US$ 12,2 bilhões e bom desempenho nos produtos florestais e café, entre outros.

Esta máquina de geração de renda não se dá somente pelas exportações, pois parte importante da produção fica no mercado interno, também gerando renda com a transformação de sementes, fertilizantes, defensivos e trabalho em produtos finais. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o valor bruto da produção (VBP) agropecuária em 2017 deve fechar com quase R$ 540 bilhões, 1,87% maior do que o valor de 2016.

As quase 240 milhões de toneladas de grãos produzidos (28% acima do ano anterior), somados às carnes, às frutas, aos sucos, ao café, aos biocombustíveis, à bioeletricidade, entre outros, contribuíram fortemente para o impressionante recuo da inflação no Brasil e consequentemente para a queda na taxa de juros, beneficiando nossa população e sendo um dos principais responsáveis por trazer o crescimento de volta ao Brasil.

A análise do ano de 2017 é positiva para o valor das commodities alimentares (índice da FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) que cresceram 8,2% no ano, sendo o maior valor desde 2014. As carnes subiram 9%, os lácteos 31,5%, os óleos vegetais 3% e os cereais 3,2%. Além do açúcar, que tombou 11,2%, em 2017, o ano não foi muito bom em preços para o café (queda de 13%) e para o suco de laranja (queda de 25%), mas ambos tiveram grandes crescimentos em 2016 e permanecem hoje em bom patamar. O algodão teve mais de 6% de aumento, a soja termina o ano com preços 4,5% menores e o milho 0,56% abaixo. No geral, foram preços razoáveis para a grande produção desta máquina brasileira.

Essa geração de renda é fruto de um grande conjunto de fatores e mensurável. Analisando dados das duas últimas décadas, o Prof. José Roberto Mendonça de Barros (FGV) mostra que a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,9% ao ano. O setor de serviços (73,2% do PIB) teve produtividade crescendo somente 0,3% ao ano, a indústria (21,2% do PIB) teve sua produtividade caindo 0,8% ao ano e a agricultura/pecuária (5,5% do PIB) teve crescimento de produtividade de 5,4% ao ano. Duas décadas crescendo mais de 5% ao ano, vencendo com produtividade os problemas que a máquina geradora de caixa enfrenta fora da porteira, que só cresceram no período, desperdiçando parte desta renda.

E o que esperar do futuro? Olhamos primeiro para o curto prazo e na sequência para as oportunidades de longo prazo. No Brasil o Relatório Focus do Banco Central estima o PIB de 2018 crescendo 2,70%, e em 2019, outros 2,80%. A inflação fica em 3,95% em 2018 e 4,25% em 2019, a taxa de juros seria de 6,75% em dezembro de 2018 e de 8,00% em 2019, e, finalmente, o câmbio de R$/US$ 3,35 (dez./2018) e R$/US$ 3,40 (dez./2019).

Esse crescimento do nosso PIB após um período sombrio, deve favorecer o agronegócio pela volta do consumo no mercado interno, puxando vendas de carnes e lácteos, principalmente, e, com isso, os grãos para fazer as rações usadas nessas produções. Outros produtos também devem ter mercados crescentes, gerando oportunidades.

Vale um exemplo empresarial: em recente entrevista, o CEO da Cacau Show, um caso de sucesso de fabricante e varejista de chocolates que já tem 2.121 lojas no Brasil, abriu 69 lojas em 2017 e pretende abrir 200 lojas em 2018, além de ampliar a rede de revendedores de 30 mil para 45 mil pessoas no ano, abrindo 15 mil oportunidades, com a volta do consumo de chocolates e confeitos.

No lado mundial são boas também as perspectivas, pois teremos pelo menos dois anos de economia mais aquecida e consumidora. Espera-se com os recentes estímulos que os EUA cresçam 3%, contra a expectativa anterior de 2,3%.

Também acredita-se em estímulo fiscal e maior crescimento na Europa, o índice de confiança atingiu o maior valor em 17 anos e o desemprego já é o menor desde 2008. O Japão vem crescendo mais, a China deve manter em 6,5% o crescimento, da mesma forma que a Índia segue bem, assim como outros países da Ásia.

Isso tudo se traduz num crescimento mundial esperado de 4% em 2018, com impactos positivos ao agro e ao Brasil, pois cresce a demanda mundial de alimentos, e, se a produção não responder a esse crescimento, teremos alguma reação de preços das commodities em 2018, como a FAO já trouxe em 2017.

Devem entrar no nosso planejamento os riscos para este cenário mais favorável, que seriam, entre outros, o problema da Coreia do Norte e algum fato comercial entre EUA e China, que nesse caso beneficiaria o agro brasileiro, lembrando que os EUA são nossos competidores nesse grande mercado chinês, caso haja retaliações.

Se esse crescimento mundial trouxer mais inflação, é de se esperar aumento de juros no mundo, e o impacto aí é negativo ao Brasil pela fuga de capitais, mas favorável ao agro pela desvalorização do real, apesar do custo mais elevado do dinheiro às nossas cadeias produtivas. Este crescimento também dá força ao preço do petróleo, que beneficia o etanol e, por consequência, o açúcar, o biodiesel e outros, apesar do aumento dos custos de fretes. Portanto, teremos bons momentos no curto prazo na economia brasileira e mundial e a máquina geradora de renda do agro terá boas oportunidades para continuar seu desempenho.

E para o longo prazo do agro? Somos produtores de comida, e o mundo segue crescendo e precisando deste produto. O Outlook Fiesp – Projeções para o Agronegócio Brasileiro 2027 trouxe importantes projeções, a saber: na soja, em 10 anos, teremos aumentos de 17% na área (39,7 milhões de hectares), 8% na produtividade (3,6 toneladas por hectare) e 27% no total produzido (144,4 milhões de toneladas), levando as exportações para quase 90 milhões de toneladas (43% acima). Em relação ao milho, teremos aumentos de 10% na área (19,3 milhões de hectares), 10% na produtividade (6,1 toneladas por hectare) e 20% no total produzido (117,7 milhões de toneladas), levando as exportações para 53 milhões de toneladas (75% acima).

Nas proteínas animais também são boas as projeções, e a carne bovina deve crescer 21% no total produzido (11,2 milhões de toneladas), 53% nas exportações (2 milhões de toneladas) e 14% no consumo interno, atingindo 8,7 milhões de toneladas. A carne de frango cresce 23% no total produzido (15,8 milhões de toneladas), 31% nas exportações (5,7 milhões de toneladas) e 19% no consumo interno, atingindo 10,7 milhões de toneladas. Na carne suína, os saltos projetados são ainda maiores – o da demanda doméstica chega a 27%, indo para 3,6 milhões de toneladas.

Concluindo, a agromáquina geradora de renda teve um desempenho notável em 2017, contribuindo muito com nossa sociedade, e tem tudo para ir muito bem nos próximos anos, pelos cenários colocados. Importantes reformas foram aprovadas em 2017 que permitirão melhorar o desempenho desta máquina, destacando as de limitação do tamanho do Estado (gasto público), das terceirizações, trabalhista, entre outras.

Para esta máquina, entretanto, avançar mais fortemente na geração de renda, o foco do setor privado é adotar os pacotes tecnológicos e melhorar sempre a gestão e o aparelho gestor público deve ter foco em reduzir cada vez mais seu peso e aprovar mais reformas que permitam reduzir os crescentes custos totais da produção, ligados à infraestrutura (projetos de concessões e privatizações), redução do problema previdenciário, agilidade e eficiência do judiciário, simplificação fiscal/tributária, aumento do crédito, seguro, financiamento, facilitar os processos de expansão da atividade agrícola (licenças, outorgas, autorizações) e redução da assustadora criminalidade no campo, entre outros.

Com isto o Governo, ao remover entraves, facilitará a competitividade nos próximos anos e criará mais combustível para essa máquina geradora de renda. Bons governos estimulam a geração de renda, pois com isso seus orçamentos permitem criar, ampliar e melhorar programas de distribuição de renda. A sociedade brasileira viu nos últimos anos que o caminho contrário não funciona e vem pagando alto preço por isso, com desemprego, exclusão e menos distribuição de renda. Máquina do agronegócio, siga firme gerando renda no Brasil, precisamos desta para melhorar nossa sociedade gerando mais oportunidades às pessoas.

Para quem tiver mais interesse no assunto, meu livro Gestão de Sistemas de Agronegócios trata do assunto com mais profundidade. Vale a leitura!

 

Fonte: Linkedin Marco Fava Neves

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  • Marco Fava Neves

    Marcos Fava Neves, nascido em Lins (SP), é professor titular da FEA/USP em Ribeirão Preto. Engenheiro Agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 1991, mestre em Administração (Estratégias de Arrendamento Industrial na Citricultura, FEA/USP, 1995), doutor em Administração (Planejamento de Canais de Distribuição de Alimentos, FEA/USP, 1999), livre-docente em Planejamento e Gestão Estratégica (2004) e professor titular (2009). É também pós-graduado em Agribusiness & Marketing de Alimentos na França (1995) e em Canais (Networks) de Distribuição de Alimentos na Holanda (1998/1999). Foi coordenador do Pensa – Programa de Agronegócios da USP –, de 2005 a 2007, criador do Markestrat (Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia) em 2004 e também foi chefe do Departamento de Administração em duas gestões (2000-2002 e 2010-2012). É autor e organizador de 60 livros publicados no Brasil, Argentina, Estados Unidos, África do Sul, Uruguai, Inglaterra, Cingapura, Holanda e China. Orientou 37 teses de doutorado e mestrado na USP, participou de 150 bancas, tendo publicado mais de 130 artigos científicos internacionais, 340 artigos em congressos no Brasil e no exterior, 470 artigos na grande imprensa, sendo o professor mais citado da FEA/USP Ribeirão Preto. Já ofereceu 22 cursos de Mestrado e Doutorado e 127 disciplinas de graduação na USP, tendo ajudado a formar mais de 1.200 administradores de empresas, economistas e contadores. É especializado em planejamento e gestão estratégica. Foi articulista do jornal China Daily de Pequim e da Folha de S. Paulo, além de escrever artigos para O Estado de S. Paulo e Valor Econômico. Escreveu também dois casos para a Universidade de Harvard em 2009 e 2010 e um para a Purdue University em 2013. Além da atividade de professor, realizou 150 projetos públicos e privados em cinco países diferentes para diversas organizações, tendo apoiado estratégias públicas e privadas transformadoras. Trabalhou ou foi membro de Conselhos das seguintes organizações: Botucatu Citrus, Vallée, Lagoa da Serra (CRV); Renk Zanini, Inova, Embrapa, Serviço de Informação da Carne, Associação Mundial de Agronegócios, Cooperativa Coplana, Cooperativa Holambra, Ouro Fino, Canaoeste e Orplana (Organização dos Plantadores de Cana), onde foi o responsável pelo plano estratégico de 2014 que reestruturou a associação. Realizou 1015 palestras em 22 países, sendo um dos brasileiros mais conhecidos no exterior no mundo dos agronegócios.