8 de agosto de 2018

Agronegócio: mais Quirinópolis e menos Brasília

por Marco Fava Neves

Nos últimos 25 anos, tive a grata oportunidade de visitar diversas cidades do interior do Brasil e observar o crescimento de cada uma delas. Quirinópolis, em Goiás, é um dos grandes exemplos da transformação econômica e social pelo agronegócio.

Em 2012, fui convidado por uma das usinas que se instalaram na região (são duas que começaram suas operações por volta de 2005), a SJC, fruto de uma joint venture entre a Usina São João (Família Ometto) e a Cargill, para lá permanecer alguns dias. A SJC sofria aborrecimentos por parte de entes do Judiciário, portanto fiz um mergulho nos dados de desenvolvimento do município, antes e depois da chegada das usinas, entrevistando desde o simpático prefeito, passando por gerentes de bancos, representantes de entidades civis, sindicatos, associações, movimentos sociais, entre outros, e não foi difícil ajudar a elaborar a vitoriosa peça de defesa sob a ótica econômica e estratégica para esse grupo na demanda do Judiciário.

Comprovamos todos os benefícios da instalação dessas unidades, do desenvolvimento de produtores integrados de cana, e quebramos os argumentos carregados de visão antiquada de mundo e algumas ideologias. Esse material se transformou em artigos e foi publicado internacionalmente, chamando a atenção do mundo pela transformação de uma região pobre por meio da agroindustrialização. Destaco apenas um dos 15 ou 20 indicadores que levantamos: antes da chegada das usinas, Quirinópolis tinha 800 empresas; pouco tempo depois, 3.300 empresas, desde hotéis, academias, pastelarias, empresas de material de construção e outros.

Sorte de quem comprou terrenos urbanos na cidade e áreas rurais na região antes da chegada desse desenvolvimento. Um hectare valia R$ 6 mil em 2005 e hoje vale R$ 25 mil, quatro vezes mais em valores nominais. Um pequeno terreno urbano pulou de R$ 20 mil para mais de 120 mil reais.

Voltando a esse mesmo grupo mais de 5 anos depois, com o privilégio de fazer a palestra de início de safra para mais de 150 produtores integrados e suas famílias, pude ver como cumpriram os planos de crescimento num momento tão difícil que o Brasil passou, pois foram de 4 para 9 milhões de toneladas equivalentes de cana, produzidas na safra, que resultou em 167 milhões de etanol, 375 mil toneladas de açúcar e 273 MWH de eletricidade onde antes eram pastos. Há 3.600 empregados (2.800 na agrícola), com uma massa salarial mensal de R$ 21 milhões, que são gastos na região. Também recolhem R$ 23 milhões de impostos nas três esferas mensalmente, possibilitando obras públicas, educação, saúde e outros gastos de nossos governos, fora tudo o que compram das empresas locais.

Conheci o mais novo investimento (feito em 2016), de cerca de US$ 50 milhões, instalado em uma de suas usinas, unidade anexa para obter etanol pelo processamento de milho. Uma tonelada de milho, quando processada, gera cerca de 400 litros de etanol, 300 kg de DDG (composto proteico úmido, como se fosse um bagaço), 70 kg de um proteinado seco e 15 litros de óleo, que são excelentes para alimentação animal.

A vantagem dessas usinas flex (milho e cana) é a de usar o mesmo espaço, a mesma equipe gerencial, reduzir ociosidade (o processamento de milho pode funcionar 340 dias por ano e a cana 260 dias) e compartilhar parte da unidade industrial para as duas entradas de matéria-prima (a partir da fermentação, os processos se juntam). Apenas essa unidade moeu 300 mil toneladas de milho em 2017 e tem condições de chegar a 500 mil, gerando oportunidades ao plantio de 60 a 100 mil hectares na região, tirando o peso do transporte.

Entretanto, o mais interessante dentro dos modernos conceitos da economia circular é a presença desse grande volume de material proteico (subprodutos do processamento) servindo de ração animal e estimulando a presença da pecuária de corte (confinamento) e de leite ao seu redor, usando como alimentação do gado algo localmente produzido. Depois, todo o esterco gerado pode ser tratado e voltar à cana e ao milho como fertilizante. Exemplo puro de economia circular e de sustentabilidade.

Finda a palestra, no jantar com os produtores e suas famílias, em que só lanço perguntas e ouço as respostas, percebi o ânimo das pessoas da agricultura em seguir em frente e curiosos para as novas chances de investimento em confinamento e produção de leite na região, para criar, capturar e compartilhar renda, gerando mais oportunidades às pessoas.

Chego ao hotel extremamente animado com o que aprendi, a tempo de ver os jornais da noite. Saí de Quirinópolis e caí no mundo de Brasília, recebendo uma ducha de água gelada com o resumo do vergonhoso dia do Supremo Tribunal Federal, que dispensa comentários. Contudo, para desespero desses “cidadãos da toga”, além de outros tantos que nos drenam os impostos de Quirinópolis, ilhados da realidade econômica e social do Brasil, parece que a sociedade está acordando e percebendo que no Brasil do futuro precisamos de… mais Quirinópolis e menos Brasília. Como costumo dizer, parece que a turma que “paga o condomínio” cansou da turma que “não paga o condomínio” e dos que “gastam e roubam o condomínio”. Pode ser o início da grande mudança.

Para quem tiver interesse, meu livro Gestão de Sistemas de Agronegócios também trata do assunto.

LEIA TAMBÉM

No blog GEN Jurídico, você confere assuntos relativos ao direito do agronegócio, como: Crédito RuralEmpresa Agrária e Empresário Rural. Não deixe de conferir!

Tags: , , ,
  • Marco Fava Neves

    Marcos Fava Neves, nascido em Lins (SP), é professor titular da FEA/USP em Ribeirão Preto. Engenheiro Agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 1991, mestre em Administração (Estratégias de Arrendamento Industrial na Citricultura, FEA/USP, 1995), doutor em Administração (Planejamento de Canais de Distribuição de Alimentos, FEA/USP, 1999), livre-docente em Planejamento e Gestão Estratégica (2004) e professor titular (2009). É também pós-graduado em Agribusiness & Marketing de Alimentos na França (1995) e em Canais (Networks) de Distribuição de Alimentos na Holanda (1998/1999). Foi coordenador do Pensa – Programa de Agronegócios da USP –, de 2005 a 2007, criador do Markestrat (Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia) em 2004 e também foi chefe do Departamento de Administração em duas gestões (2000-2002 e 2010-2012). É autor e organizador de 60 livros publicados no Brasil, Argentina, Estados Unidos, África do Sul, Uruguai, Inglaterra, Cingapura, Holanda e China. Orientou 37 teses de doutorado e mestrado na USP, participou de 150 bancas, tendo publicado mais de 130 artigos científicos internacionais, 340 artigos em congressos no Brasil e no exterior, 470 artigos na grande imprensa, sendo o professor mais citado da FEA/USP Ribeirão Preto. Já ofereceu 22 cursos de Mestrado e Doutorado e 127 disciplinas de graduação na USP, tendo ajudado a formar mais de 1.200 administradores de empresas, economistas e contadores. É especializado em planejamento e gestão estratégica. Foi articulista do jornal China Daily de Pequim e da Folha de S. Paulo, além de escrever artigos para O Estado de S. Paulo e Valor Econômico. Escreveu também dois casos para a Universidade de Harvard em 2009 e 2010 e um para a Purdue University em 2013. Além da atividade de professor, realizou 150 projetos públicos e privados em cinco países diferentes para diversas organizações, tendo apoiado estratégias públicas e privadas transformadoras. Trabalhou ou foi membro de Conselhos das seguintes organizações: Botucatu Citrus, Vallée, Lagoa da Serra (CRV); Renk Zanini, Inova, Embrapa, Serviço de Informação da Carne, Associação Mundial de Agronegócios, Cooperativa Coplana, Cooperativa Holambra, Ouro Fino, Canaoeste e Orplana (Organização dos Plantadores de Cana), onde foi o responsável pelo plano estratégico de 2014 que reestruturou a associação. Realizou 1015 palestras em 22 países, sendo um dos brasileiros mais conhecidos no exterior no mundo dos agronegócios.