26 de junho de 2018

Banco Central intervém e segura o dólar

por José Luis Oreiro

No dia 13 de junho concedi uma entrevista ao jornal Correio Braziliense, de Brasília (DF), sobre o comportamento do Banco Central do Brasil (BCB) na economia brasileira. Segue abaixo a matéria: 

O Banco Central do Brasil (BCB) teve que repetir mais uma forte atuação no câmbio ontem (13/06/2018) para conter a alta do dólar. A autoridade monetária precisou fazer duas ofertas de contratos de swap ao longo do dia para segurar a divisa norte-americana, que fechou o pregão com recuo de 0,3%, cotado em R$ 3,713.

Após cinco quedas seguidas, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) teve um leve respiro e subiu 0,62% aos 72.754 pontos. Na primeira intervenção, às 10h20, o BC ofertou 30 mil contratos. Como a medida foi insuficiente para reverter a escalada do dólar, a autoridade monetária colocou mais 30 mil no mercado por volta do meio-dia. Os dois leilões somaram US$ 3 bilhões, volume maior do que os 50 mil contratos ofertados na véspera.

Para André Perfeito, economista-chefe da Spinelli Corretora, a intervenção do BC está saindo cara demais. “Apesar dos esforços, o dólar chegou a subir a R$ 3,715 antes do fechamento. As ações do BC tendem a ser infrutíferas a médio prazo porque tentam resolver de forma quantitativa um problema qualitativo”, avaliou.

Segundo ele, o estoque de swap, em 5 de junho, era de US$ 34 bilhões e chegou a US$ 47 bilhões. “Subiu 38% em dias, o que mostra a firme determinação do BC”, disse. O motivo que leva o dólar a se valorizar, no entanto, persiste. Segundo Perfeito, o quadro eleitoral, a falta das reformas e de um candidato comprometido com o mercado são as principais razões para a volatilidade. “Até agora, ninguém perdeu nada, mas se o dólar continuar subindo, o que parece ser o caso, vai gerar prejuízo para o governo”, alertou.

O economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, explicou que o movimento de alta também é impulsionado pelo cenário internacional, menos amigável, com a expectativa da reunião de política monetária do Fed (Federal Reserve, o Banco Central norte-americano), marcada para hoje. “Há uma perspectiva de alta dos juros dos Estados Unidos. O mercado está 100% certo de que o Fed vai aplicar nova alta de 0,25 ponto percentual, o que leva os investidores para lá”, disse. O Banco Central europeu também deve mudar sua política monetária esta semana, conforme Rosa.

No entendimento de Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da corretora Treviso, o mercado forçou a intervenção do BC para mudar o patamar do dólar, que estava em R$ 3,30. “Precisou a moeda bater R$ 4 para o BC tomar a decisão e agir. Agora, o mercado está se aproveitando”, avaliou.

O especialista aposta que o BC vai exaurir o mercado de swap cambial e os leilões de linha para conter o dólar. “Quando Ilan (Goldfajn, presidente do BC) assumiu, o estoque de swaps era de US$ 128 bilhões. Caiu para US$ 23 bilhões em dois anos. Agora, ele vai usar o que precisar para intervir e pode, sim, bater o recorde em um mês. Ilan tem um arsenal contra a alta especulativa do dólar e vai usar tudo”, opinou.

 

Cinco perguntas para José Luis Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) 

O Banco Central (BC) deve manter as ações para conter a alta do dólar, oferecendo proteção para empresas endividadas, mas não deve atuar diretamente na venda da moeda, defende o economista José Luiz Oreiro. Ele concedeu entrevista, ontem, ao programa “CB.Poder”, parceria entre a TV Brasília e o Correio. A seguir, alguns trechos:

O senhor falou da necessidade de equilibrar as contas públicas. Ao fazer isso, o próximo governo adotará medidas impopulares. Haverá tensão social caso se tente resolver os problemas do País?

É fundamental, na campanha eleitoral, os candidatos falarem a verdade para a população. O filme “The Darkest Hour” mostra que Winston Churchill, primeiro-ministro da Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial, fez o seguinte discurso: “Nada tenho a oferecer senão meu trabalho, sangue, suor e lágrimas”.

E os brasileiros estão preparados para ouvir isso?

Têm que saber a verdade. O que nos espera é difícil, temos muitos ajustes para fazer, não vamos voltar do dia para a noite para uma situação de bem-estar. Mas os candidatos a presidente têm que dizer isso. É o que vão fazer. O que não pode acontecer é o que a Dilma fez: um discurso na campanha eleitoral e, logo que eleita, algo completamente diferente.

O BC tem capacidade de proteger, neste momento, as empresas que estão endividadas em dólar?

Sim. O swap que está sendo oferecido é um contrato em que o BC troca a desvalorização do câmbio pelo pagamento de juros. Quando o câmbio se desvaloriza além dos juros domésticos, o BC paga para o possuidor do contrato essa diferença.

É necessário usar as reservas cambiais para atuar diretamente no mercado, vendendo dólares?

Pode-se fazer, mas não é a melhor forma de intervir. A melhor forma é por intermédio de swap cambial. Há um arsenal enorme de instrumentos para reduzir a pressão especulativa sem mexer na taxa de juros.

O BC pode ter de elevar juros?

Mexer na taxa de juros neste momento é suicídio.

 

Para quem tiver mais interesse no assunto, o meu livro Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva Keynesiana aborda temas interessantes da economia atual. Vale a leitura!

 

Fonte: Blog Jose Luis Oreiro

 

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  • José Luis Oreiro
    José Luis Oreiro

    Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1992), Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio, 1996) e Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2000). Atualmente, é professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), Pesquisador Nível IB do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e líder do grupo de pesquisa “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. Foi presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) no período 2013-2015. Tem cerca de 100 artigos publicados em revistas científicas no Brasil e no exterior, como no Journal of Post Keynesian Economics, Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, Investigación Económica, Revista de la Cepal, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos.