3 de julho de 2018

Taxa Selic, Banco Central e a inflação na economia brasileira

por José Luis Oreiro

Na última reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária), a taxa Selic, que é a taxa básica de juros, foi mantida, por unanimidade, em 6,5% a.a. A decisão foi uma surpresa para a maior parte dos analistas, que esperava uma queda de 0,25 p.p.

Qual foi a justificativa para a decisão da taxa Selic?

 
A justificativa para manter a taxa Selic dada no comunicado do Copom é que “a normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas (leia-se Estados Unidos)” estaria tornando o ambiente externo (sic) mais desafiador, o que justificaria uma pausa na flexibilização da política monetária doméstica.

Traduzindo: o BCB (Banco Central do Brasil) teme que uma redução muito expressiva do diferencial entre a taxa de juros doméstica e a taxa de juros americana acabe por induzir uma fuga de capitais do país, resultando, assim, numa grande desvalorização da taxa de câmbio e, consequentemente, elevação da inflação. Esse cenário seria reforçado pela incerteza eleitoral, contribuindo, desse modo, para o risco de um descontrole cambial e a aceleração da inflação.

Esse receio do Banco Central me parece infundado. Em primeiro lugar, a variação acumulada do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) nos últimos 12 meses se encontra abaixo do piso do regime de metas de inflação (3% a.a.), registrando 2,76% em abril de 2018. Já se trata do décimo mês consecutivo no qual a inflação se situa abaixo do piso do regime de metas. Mesmo quando olhamos para os núcleos de inflação, observamos que estes continuaram a trajetória de desaceleração em 2018, encontrando-se atualmente em torno de 2% a.a., muito abaixo do piso da meta.

Em segundo lugar, as estimativas existentes sobre o hiato do produto mostram que a economia brasileira apresentou, na média do ano de 2017, um nível de produção cerca de 6 p.p. abaixo do potencial, indicando, assim, a continuidade das pressões desinflacionárias ao longo do ano de 2018. Além disso, os indicadores a respeito da evolução do nível de atividade econômica estão apresentando performance muito pior do que a esperada.

Com efeito, o IBC-Br, índice de atividade econômica, calculado pelo BCB, apresentou uma queda de 0,13% no primeiro trimestre de 2018 na comparação com o primeiro trimestre do ano passado. Deve-se destacar, também, a queda de 0,1% da produção industrial em março em relação a fevereiro de 2018, após o ajuste sazonal; quando alguns analistas esperavam um aumento de 1%.

A performance abaixo do esperado de uma série de indicadores de nível de atividade faz que as expectativas de crescimento da economia brasileira venham sendo revistas para baixo a cada semana. O Bank of America Merrill Lynch, por exemplo, reviu sua projeção de crescimento para 2018 de 3% para 2,1%.

Por fim, os indicadores de vulnerabilidade externa da economia brasileira (reservas internacionais, déficit em conta-corrente como proporção do PIB, entre outros) encontram-se atualmente em níveis bastante satisfatórios, de maneira que turbulências externas devem ter efeito bastante limitado sobre a taxa de câmbio.

Taxa Selic, Banco Central e a inflação na economia brasileira

Foto: Istock/Getty Images

O cenário que temos na economia brasileira, hoje, aponta claramente para o risco de reversão do processo de recuperação cíclica, ou seja, de um novo mergulho na recessão, em vez do não cumprimento da meta de inflação. Sendo assim, é curioso, para dizer o mínimo, o receio que a atual diretoria do Banco Central está demonstrando com relação ao quadro inflacionário.

Seu comportamento se assemelha ao daqueles indivíduos que, mesmo na fase adulta, têm medo de dormir no escuro porque acreditam que há um dragão a sua espreita debaixo da cama. Um pouco mais de coragem, ainda mais num contexto em que 27 milhões de brasileiros se encontram com falta total ou parcial de trabalho, seria de muito bom tom.

Para quem tiver mais interesse no assunto, o meu livro Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva Keynesiana aborda temas interessantes da economia atual. Vale a leitura!

Fonte: Blog Jose Luis Oreiro

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  • José Luis Oreiro
    José Luis Oreiro

    Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1992), Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio, 1996) e Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2000). Atualmente, é professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), Pesquisador Nível IB do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e líder do grupo de pesquisa “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. Foi presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) no período 2013-2015. Tem cerca de 100 artigos publicados em revistas científicas no Brasil e no exterior, como no Journal of Post Keynesian Economics, Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, Investigación Económica, Revista de la Cepal, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos.