10 de julho de 2018

Agenda Estratégica da Cadeia Produtiva da Cana de Açúcar

por Marco Fava Neves

Apresentei no evento de fechamento dos 4 anos do projeto Caminhos da Cana, realizado em 14/12/17 no Centro Cana/IAC, em Ribeirão Preto (SP), a sugestão de dez pontos principais de trabalho que deveriam movimentar a cadeia produtiva da cana de açúcar em 2018, e neste texto faço um resumo desta apresentação. Seguem os pontos:

1 – Aproveitar com estratégia o programa RenovaBio, que é uma política de Estado que objetiva traçar uma estratégia conjunta para reconhecer o papel estratégico de todos os tipos de biocombustíveis na matriz energética brasileira, tanto para a segurança energética quanto para mitigação de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa, para voltarmos a crescer sustentavelmente.

A grande notícia de longo prazo para o setor em 2017 foi a aprovação, com grande força política, do RenovaBio, talvez o principal evento ambiental do mundo no ano que passou. É hora de estruturarmos as trilhas de crescimento do setor com os incentivos que virão sem repetir os erros de outros ciclos de crescimento.

Estudo que fizemos para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o Produto Interno Bruto (PIB) da cadeia pode saltar dos atuais US$ 44 bilhões para US$ 74 bilhões em 2030, criando muitas oportunidades e transformando o Brasil numa das matrizes energéticas mais limpas do mundo (“green/low carbon country”).

2 – Gestão por metro quadrado do canavial e inovação de insumos. É sabido que muito da perda de renda no setor vem do fato de extrairmos de um hectare cada vez mais caro, a mesma quantidade de produtos nos últimos 15 anos, em contraste com outras culturas do agro, que tiveram grandes saltos de produtividade.

É necessário neste ano esforços na inovação de insumos usados na produção e, principalmente, no uso do ferramental tecnológico e de digitalização disponível (smart farming) para mudarmos a gestão do canavial para metro quadrado, matando o conceito de hectare. Eficiência em cada metro quadrado visando tirar mais renda por hectare.

3 – Gestão pela economia do compartilhamento. Nestes últimos anos fomos brindados com uma revolução no ambiente de negócios (modelos como Uber e AirBnB) permitindo o compartilhamento de ativos e o melhor uso destes.

Estas tecnologias rapidamente chegam à agricultura e com a aprovação da lei da terceirização no Brasil, temos grandes oportunidades para mudar já em 2018 as formas de fazer negócios, priorizando empresas especializadas em atividades produtivas diminuindo os ativos, reduzindo ociosidades e ganhando eficiência. Cooperativas e associações serão fundamentais neste processo para que isto possa chegar a todos os produtores.

4 – Gestão pela economia circular (sustentabilidade) individual ou regional. Existem grandes ganhos de integrar a cana com outras atividades, de forma individual ou regional, e o mundo caminha para valorizar cada vez mais a economia circular. Portanto a integração regional da cana com amendoim, soja, confinamento, aves e suínos, entre outras atividades onde resíduos de uma tornam-se insumos de outra são fundamentais para melhorar os resultados da região.

5 – Busca da eficiência industrial. Existe ainda grande espaço nas Usinas para melhoria de processos, de equipamentos, entre outros, visando aproveitamento total dos produtos que entram. Recente tese de Doutorado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEARP/USP) analisou 33 usinas em 5 safras e mostrou que se as outras 32 tivessem o desempenho da melhor, teriam sido gerados R$ 2,6 bilhões a mais em produtos. Ou seja, cana que entrou e produtos que não saíram.

6 – Mesa da cana: fortalecer as organizações do setor, tais como ORPLANA, UNICA, entre outras, e as relações verticais e horizontais. É necessário criar a “mesa da cana”, onde agentes de todos os elos da cadeia sentam periodicamente para discutir estratégias, estar atento aos problemas e ter força política lutando pelos pontos de convergência.

7 – Implementar o Consecana Pro-Int (Produtor Integrado de Cana). Cerca de 14% da cana de São Paulo vem de produtores integrados para os quais em alguns casos a relação com as Usinas precisa melhorar visando a construção conjunta de valor a ser compartilhado. Para isto, o Consecana deve incluir itens de qualidade que geram valor, bem como sugerir a consideração de outros itens de criação de valor, para serem discutidos entre as Usinas e suas respectivas associações regionais, crescendo a eficiência, a confiança, a capacidade de planejamento e reduzindo desperdícios.

8 – Integração total do P&D público e alianças com setor privado. Me impressionou em visita à Colômbia como o setor de pesquisa é absolutamente integrado no Cenicaña. Precisamos criar no Brasil uma verdadeira “mesa da pesquisa”, onde a integração pudesse ser maior entre todos os órgãos públicos estaduais e federais que tratam do tema cana, caminhando para um modelo que permitisse grande integração, redução de redundâncias e foco em resultados.

9 – Comunicação total e viral visando fortalecer a imagem de sustentabilidade da cana. Apesar dos esforços todos, a comunicação do setor ainda deixa a desejar. Toda a carga geradora de empregos, impostos, inclusão econômica e social e todos os benefícios ambientais da cana ainda são pouco conhecidos pelos consumidores finais. É necessário usar mecanismos criativos das mídias digitais para inserir o conhecimento dos benefícios da cana na sociedade brasileira.

10 – Criar uma estrutura de distribuição e varejo de etanol pelas Cooperativas. Este é um pedido antigo que faço ao setor (desde 2008) onde imagino que interessante seria se as cooperativas de produtores de cana de São Paulo (Copercana, Coopercitrus, Coplana, Coplacana, Camda, entre outras) pudessem, de maneira integrada, serem acionistas de uma distribuidora de combustíveis e rede de postos ecológicos e usar estes como embaixadas do agro nestas cidades, como elemento de comunicação da sustentabilidade do etanol e de políticas de precificação do etanol ao consumidor, que usariam o mix de consumo da imensa frota flex como influenciadora do preço mundial do açúcar. Outros estados poderiam seguir o exemplo.

Estes são os 10 pontos que proponho para ênfase do setor de cana em 2018, sempre visando o processo de criação, captura e compartilhamento de valor, melhorando a sustentabilidade econômica, ambiental e social desta atividade.

Para quem tiver mais interesse no assunto, meu livro Gestão de Sistemas de Agronegócios trata do assunto com mais profundidade. Vale a leitura!

Fonte: LinkedIn Marco Fava Neves

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  • Marco Fava Neves

    Marcos Fava Neves, nascido em Lins (SP), é professor titular da FEA/USP em Ribeirão Preto. Engenheiro Agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 1991, mestre em Administração (Estratégias de Arrendamento Industrial na Citricultura, FEA/USP, 1995), doutor em Administração (Planejamento de Canais de Distribuição de Alimentos, FEA/USP, 1999), livre-docente em Planejamento e Gestão Estratégica (2004) e professor titular (2009). É também pós-graduado em Agribusiness & Marketing de Alimentos na França (1995) e em Canais (Networks) de Distribuição de Alimentos na Holanda (1998/1999). Foi coordenador do Pensa – Programa de Agronegócios da USP –, de 2005 a 2007, criador do Markestrat (Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia) em 2004 e também foi chefe do Departamento de Administração em duas gestões (2000-2002 e 2010-2012). É autor e organizador de 60 livros publicados no Brasil, Argentina, Estados Unidos, África do Sul, Uruguai, Inglaterra, Cingapura, Holanda e China. Orientou 37 teses de doutorado e mestrado na USP, participou de 150 bancas, tendo publicado mais de 130 artigos científicos internacionais, 340 artigos em congressos no Brasil e no exterior, 470 artigos na grande imprensa, sendo o professor mais citado da FEA/USP Ribeirão Preto. Já ofereceu 22 cursos de Mestrado e Doutorado e 127 disciplinas de graduação na USP, tendo ajudado a formar mais de 1.200 administradores de empresas, economistas e contadores. É especializado em planejamento e gestão estratégica. Foi articulista do jornal China Daily de Pequim e da Folha de S. Paulo, além de escrever artigos para O Estado de S. Paulo e Valor Econômico. Escreveu também dois casos para a Universidade de Harvard em 2009 e 2010 e um para a Purdue University em 2013. Além da atividade de professor, realizou 150 projetos públicos e privados em cinco países diferentes para diversas organizações, tendo apoiado estratégias públicas e privadas transformadoras. Trabalhou ou foi membro de Conselhos das seguintes organizações: Botucatu Citrus, Vallée, Lagoa da Serra (CRV); Renk Zanini, Inova, Embrapa, Serviço de Informação da Carne, Associação Mundial de Agronegócios, Cooperativa Coplana, Cooperativa Holambra, Ouro Fino, Canaoeste e Orplana (Organização dos Plantadores de Cana), onde foi o responsável pelo plano estratégico de 2014 que reestruturou a associação. Realizou 1015 palestras em 22 países, sendo um dos brasileiros mais conhecidos no exterior no mundo dos agronegócios.