21 de dezembro de 2017

Aprenda a analisar o comportamento do mercado de trabalho

por Joel Souza Dutra

No texto de hoje, apresento a vocês a análise do mercado de trabalho na perspectiva da pessoa. A escolha dessa perspectiva é justificada pelo fato de permitir uma análise mais profunda das relações que ocorrem no mercado.

Com inspiração no modelo de forças desenvolvida por Porter (PORTER 1992) a dinâmica do mercado de trabalho pode ser compreendida a partir das forças que interagem entre si e constroem as oportunidades e ameaças. Essas forças influenciam na relação entre demanda e oferta de trabalho, definindo a facilidade ou dificuldade com que nos movimentamos no mercado, os níveis salariais oferecidos e as oportunidades de desenvolvimento profissional existentes.

Essas forças determinam as regras de competitividade do profissional no mercado onde atua. Essas forças são as seguintes: espaços de atuação profissional no mercado de trabalho, concorrentes por esses espaços no mercado, profissionais atuando em outras áreas do conhecimento que podem vir a migrar para o seu espaço de mercado, fontes de formação profissional e geração de novos entrantes no mercado e fontes de formação profissional que podem gerar um diferencial competitivo para os ocupantes de posições no seu mercado de atuação profissional. Vamos ver a seguir o funcionamento de cada uma dessas forças e de seu conjunto.

Força 1 – espaço de atuação profissional

O espaço de atuação profissional no mercado é constituído por todas as possibilidades de trabalho que alguém pode ter dentro de um determinado espaço geográfico. Como por exemplo: o espaço dentro da Grande São Paulo, ou dentro do Brasil, ou dentro do mercosul etc. É importante que a pessoa delimite esse espaço, observando suas características (personalidade, valores e pontos fortes) e seus interesses para poder interagir de forma consciente e estruturada com o mercado. Dentro de um espaço geográfico o mercado pode ser delimitado tendo como referência:

• Área de conhecimento profissional exigido, como por exemplo: carreira financeira, carreira em tecnologia de informações, carreira de tecnologia de produtos em eletrônica profissional etc;
• Macro-setor de atividade econômica, como por exemplo: indústria, serviços, comércio, agrícola etc;
• Área de interesse, tais como: artístico, esportivo, antiguidades etc.

Com o mercado delimitado é possível observar seus movimentos, tais como: taxa de crescimento, novas tecnologias, leque de oportunidades, áreas de risco profissional, oportunidades emergentes, tendências etc. Com essas informações uma pessoa pode avaliar qual é a sua capacidade para atender esse conjunto de possibilidades e quais são os investimentos necessários em seu desenvolvimento para poder posicionar-se de maneira competitiva.

Força 2 – concorrentes pelo espaço de atuação profissional

O mapeamento dos concorrentes no espaço delimitado é fundamental para a compreensão do mercado. Esse mapeamento deve levar em conta os seguintes aspectos:

• Profissionais que concorrem no mesmo espaço, como por exemplo, no mercado financeiro temos engenheiros, matemáticos, administradores, economistas etc;
• Grau de competitividade apresentado por uma determinada pessoa em função de sua formação e/ou experiência profissional;
• Grau de atração oferecido pelo espaço delimitado para que esses concorrentes permaneçam competindo entre si.

O mapeamento permitirá à pessoa avaliar qual é o seu nível de competitividade em relação aos concorrentes e onde deve investir para manter ou aumentar suas vantagens competitivas.

Força 3 – migração de profissionais de outras áreas de atuação

Não basta avaliar os concorrentes no espaço delimitado, é necessário avaliar também que outros profissionais podem ser atraídos pelas oportunidades oferecidas pelo espaço delimitado. Para essa análise devemos verificar que profissionais podem migrar para esse espaço com um pequeno investimento em formação ou experiência, tais como profissionais de diferentes áreas do conhecimento que fazendo uma especialização podem entrar nesse mercado. Devemos verificar também que tipo de profissional pode ser procurado pelas organizações no caso de escassez de mão-de-obra, como por exemplo, o setor de eletrônica profissional buscar o matemático, o físico aplicado, o químico para complementar o trabalho do engenheiro eletrônico etc. Devemos verificar, ainda, quais profissionais podem oferecer respostas para as organizações mesmo sem a formação ou experiência adequada. Um exemplo interessante dessa situação foi relatado por um amigo que é considerado um dos melhores palestrantes na área de planejamento estratégico, ele me disse que estava tendo a concorrência do Bussunda do Casseta e Planeta.

Naturalmente quanto mais técnica ou exigente for a área delimitada menor será a possibilidade de migração. Nesse caso a pessoa teria que efetuar um grande investimento para atuar em uma nova área do conhecimento. Analisar a possibilidade de migração é importante porque um espaço que pode parecer muito promissor em um determinado momento pode estar extremamente concorrido num curto espaço de tempo. Nesse caso é importante investir pesadamente para manter a vantagem competitiva.

Força 4 – fontes de formação de novos entrantes no mercado

Outra avaliação importante é analisar quais são as fontes de formação de novos entrantes no espaço que delimitado. Essas fontes podem ser de fácil multiplicação ou não, como por exemplo: cursos que exigem baixo investimento para instalação tendem a se multiplicar em maior velocidade do que aqueles que exigem alto investimento, quando o setor é muito sensível ao grau de excelência da formação é mais difícil surgirem novas fontes de formação. Quando as fontes são de fácil multiplicação a possibilidade de novos entrantes no mercado aumenta, assim como a rápida saturação do mercado, reduzindo os salários e as oportunidades de trabalho. Nesse caso é importante nos mantermos diferenciados.

Quando as fontes são de difícil multiplicação e o mercado está em expansão temos uma situação favorável porque a demanda cresce geometricamente e a oferta aritmeticamente, uma vez que serão colocados no mercado o mesmo número de profissionais a cada ano. Nesse caso preservarmos o nosso diferencial competitivo é mais simples, mas não devemos nos descuidar.

Força 5 – fontes de formação que criam um diferencial competitivo para os profissionais que atuam no mercado

Devemos ainda avaliar as fontes de formação que criam um diferencial competitivo para os profissionais que atuam no espaço que delimitamos. Essa análise é importante por dois motivos: primeiramente para avaliarmos o nosso acesso a essas fontes e segundo para avaliarmos o crescimento desse diferencial no mercado.

Aqui também a facilidade de multiplicação dessas fontes deve ser objeto de preocupação. Quanto mais fácil for a multiplicação mais difícil será manter o diferencial competitivo e quanto mais difícil for a multiplicação mais fácil será manter o diferencial. Um dos exemplos interessantes para ilustrar essa força são os cursos de MBA (Master in Business Administration), que se tornaram uma moda no mercado e vêm deixando de representar um diferencial substancial na medida em que se multiplicam com facilidade e o acesso aos mesmos vem sendo facilitado. Possivelmente no futuro próximo será um diferencial o nome da instituição ou a classificação efetuada por revistas especializadas.

Avaliar essa força é importante para que se tenha um clara noção do que é diferencial competitivo em uma determinada área de atuação profissional. O mapeamento dessas forças nos permitirá avaliar o mercado onde atuamos e quais são as nossas condições de competitividade. Ao analisarmos a interação dessas forças temos elementos mais concretos para monitorar o mercado e estarmos nos posicionando de forma dinâmica. Ao avaliarmos nosso posicionamento podemos descobrir se vale a pena continuar ou se é momento de buscar novos mercados. No caso de pensarmos em novos mercados podemos utilizar os esses referenciais para analisar de forma comparativa diferentes mercados de trabalho.

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  • Joel Souza Dutra
    Joel Souza Dutra

    É Professor livre-docente da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), onde ministra cursos de graduação e pós-graduação. Possui mestrado pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) e doutorado pela FEA/USP. Coordenador do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas (PROGEP) da FEA/USP. Atua como consultor em gestão de pessoas para as principais empresas do país. Diretor instituidor da Growth Desenvolvimento de Pessoas e Organizações.