2 de maio de 2018

Pesquisa de IES: Docentes por formação e organização acadêmica

por Pedro Demo

III – PESQUISA DE IES: UNIVERSIDADES

Na segunda parte do artigo, Pesquisa de IES: docentes por formação e organização acadêmica, analiso os docentes das instituições de ensino superior (IES) quanto à sua formação e à sua distribuição organizacional (pública ou privada).

Neste artigo, examinaremos a qualificação dos docentes, estabelecendo um comparativo entre as universidades públicas e as privadas.

Havia nas universidades 215.553 docentes, 54,2% dos docentes das IES. As públicas (com 145.610 docentes) abrangiam 81,7% dos docentes públicos; as federais (com 94.328 docentes – 81,2% dos docentes federais) tinham mais que o dobro de docentes estaduais (48.005), restando para as municipais apenas 4.277 docentes (41,6% dos docentes municipais).

Nas universidades privadas, com 69.943 docentes, estes eram 32% dos docentes privados, o que logo indica estarem outros 68% em outras IES (Centros Universitários e Faculdades, por exemplo, instituições de propensão claramente privada).

Diferença monumental entre federais e privadas era a proporção de doutores: 70% vs. 30,3%, respectivamente. O professor mais comum nas universidades privadas eram mestres (47,4% – quase metade); nas federais, apenas 22,1%.

Nas universidades privadas, havia ainda 22,1% de especializados, que nas federais eram apenas 4,3% (em extinção). Eram 25,5% nas universidades municipais, onde havia também a menor proporção de doutores (27,3%), o que aproxima a oferta municipal da oferta privada em termos de qualificação docente.

Na média geral, as universidades tinham 53,7% de professores doutores, já a maioria. No entanto, é um consolo impróprio por conta do peso ainda enorme de especializados e doutores (acima dos 40%). Ocorre também que o universo das universidades é muito heterogêneo.

No lado público, a heterogeneidade também é marcante, mesmo entre as federais, por conta das diferenças gritantes entre regiões e Estados – uma federal dos grandes centros tem outras condições, sobretudo no Sudeste, comparadas com Estados longínquos e grandes interiores.

As estaduais constituem um todo muito desnivelado: de um lado, as melhores do País em São Paulo (em especial a USP), ao lado de outras muito fracas em Estados com grandes dificuldades socioeconômicas.

São Paulo tem modelo próprio – três instituições básicas espalhadas pelo Estado. Paraná tem sete estaduais, em cidades polos, também um modelo próprio, encontrado em outros Estados em dimensão menor como na Bahia.

As municipais emergem como instituições incipientes – lembremos que havia em 2016 apenas seis universidades municipais (39 estaduais, 63 federais, ao lado de 89 privadas), com grandes dificuldades de contar com docentes mais qualificados.

Dos 215.553 docentes nas IES, 67,6% eram públicos (43,8% federais, 22,3% estaduais, 1,5% municipais), ficando para as privadas 32,4%. Focando doutores (115.744), 81,7% eram públicos (57,1% nas federais, 23,9% nas estaduais, 0,8% nas municipais), restando para as privadas apenas 18,3%.

Essa diferença é muito contundente, que transparece mais ainda quando constatamos que especializados estavam em 57,3%  nas privadas e mestres em 48,5%. A diferença era gritante no caso dos doutores, mas também quanto aos mestres, a maioria era pública.

Para entidades privadas é inviável portar-se como as federais, em grande parte por conta dos custos, do que resultou uma trajetória histórica muito conturbada: enquanto as federais são públicas e gratuitas, com orçamento garantido e crescente, as privadas contam apenas com a matrícula paga dos alunos.

Essa condição já distorce por completo a razão de ser da gratuidade, porque acaba favorecendo os mais ricos que conseguem ocupar as federais muito mais facilmente que alunos mais pobres. Uma imensa indústria formou-se para garantir esse acesso, como “cursinhos” e similares, frequentados por quem pode pagá-los.

As privadas agem de preferência à noite para captar uma clientela imensa, constituída em grande parte de trabalhadores, formatando a oferta para ela, reduzida à aula, prova e repasse. Tem o mérito histórico de oferecer chance para quem só pode estudar à noite, vituperando o sarcasmo das federais, mas sua qualidade é, reconhecidamente, bastante inferior, mesmo que a qualidade das federais seja também muito carente.

Quando se trata de democratizar o acesso ao diploma superior, uma proposta muito importante para um país que ainda tem pouca gente diplomada ressurge o mesmo sarcasmo: as chances não são oferecidas nas melhores instituições públicas e gratuitas, como seria de esperar (porque os mais necessitados precisam da melhor chance, logicamente), mas nas privadas, onde há que se pagar por um curso inferior! Para as entidades privadas possivelmente um bom negócio, para os mais pobres, péssimo.

Nunca fomos capazes de oferecer a melhor oportunidade para quem dela mais precisa…

No próximo post, vamos analisar a qualificação dos docentes de outras instituições de ensino superior, como os Institutos Federais (IFs) e Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFETs). Clique aqui para ter acesso à pesquisa completa.

Para os interessados, o meu livro O mais importante da educação importante trata das questões educacionais brasileiras de maneira mais aprofundada.

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  • Pedro Demo
    Pedro Demo

    Pedro Demo é professor aposentado e emérito da Universidade de Brasília, Departamento de Sociologia. Tem doutorado na Alemanha (1971) e pós-doutorado na UCLA/Los Angeles (1999-2000). Tem colaborado com Estados e municípios em programas de formação permanente de professores, dentro da máxima de que o estudante aprende bem com professor que aprende bem. Autor de mais de 90 livros, grande parte sobre sociologia da educação.