10 de abril de 2018

Pesquisa de IES: Os docentes por formação e organização acadêmica

por Pedro Demo

II – OS CONTORNOS GERAIS DOS DOCENTES

 

Na primeira parte do artigo, Pesquisa de IES: Os docentes por formação e organização acadêmica, analiso os docentes das instituições de ensino superior (IES), quanto à sua formação e à sua distribuição organizacional (pública ou privada).

Neste artigo, vamos tratar de forma mais aprofundada o cenário das IES, como o mercado educacional se comporta, as diferenças entre as instituições públicas e privadas e as mudanças que devem ser realizadas nesse contexto.

Tínhamos, em 2016, nas IES, 397.611 docentes (em exercício e afastados), aparecendo ainda alguns sem graduação ou com apenas graduação (residuais, 1,5%). Dentre eles, 20,4% tinham especialização (nível mínimo aceito para ser professor de educação superior); 39,6% tinham mestrado; e 38,5%, doutorado.

Esse perfil indicava, na comparação com países mais avançados, uma situação de atraso flagrante – se somarmos as cifras de especialização e mestrado, chegamos a 60%.

Deixando de lado casos residuais de professores sem graduação ou com apenas graduação, especialização é nível muito insuficiente, também porque não é formação que implique pesquisa e já vimos que sua qualidade é nenhuma, quando analisamos seu impacto na escola: cada vez mais professores básicos possuem especialização, e o efeito no desempenho dos estudantes chega a ser contraproducente.

Podemos também nos lembrar da decisão finlandesa de exigir dos professores básicos mestrado como grau mínimo para a carreira, tendo como uma das razões mais decisivas implicar perícia em pesquisa, fundamental tanto para a produção própria de conhecimento quanto como formação autoral.

É sintomático que mestres e doutores se formem com base em pesquisa (não em reprodução curricular ou aula), uma praxe universal, valendo, nas universidades de ponta, a condição “de universidade de pesquisa”, à la Harvard, por exemplo.

Nas IES públicas (com 178.117 docentes), o perfil docente já pendia para o doutorado, com 58,4% (28,5% com mestrado, 10% com especialização), uma situação mais confortável, embora ainda longe do esperado.

Nas IES federais (116.223 docentes), aparecia um contorno mais avançado: 62,8% de doutores – chegando a dois terços –, 27,2% com mestrado e 6,3% com especialização (havia aí, também, uma surpresa, 3,7% de professores com apenas graduação!).

As IES estaduais (54.010 docentes), mais heterogêneas que as federais (ao lado de entidades fracas espalhadas pelos interiores), tinham as melhores universidades do país em São Paulo – USP, em especial, mas também Unicamp e Unesp , e uma rede estadual interessante no Paraná, abrangendo Londrina, Maringá, Paraná, Ponta Grossa, Centro-Oeste, Norte do Paraná, Oeste do Paraná, contando com 54,3% de doutores, 29,1% de mestres e 14,5% de especializados.

As IES municipais (7.884 docentes) tinham perfil bastante atrasado: 21,6% de doutores, 43,5% de mestres, 33,2% de especializados, rivalizando com as IES privadas (219.494 docentes), que tinham apenas 22,3% de doutores, 48,6% de mestres (quase metade!) e 28,9% de especializados.

Somente as federais e estaduais tinham como docente mais comum o doutor; as privadas e municipais ainda tinham o mestre como professor mais típico. E isso redunda em que a média geral ainda pendia para o mestre (39,6%), não para o doutor (38,5%), ainda que a distância parece ir-se fechando.

Esta situação indica claramente que as federais, em especial, mas igualmente alguma parte das estaduais, estão investindo na qualificação docente, sistematicamente (embora não na velocidade necessária), muito à frente das IES privadas – estas ainda estão presas ao mestrado, em parte porque podem faltar doutores na praça, mas principalmente por questão de custos (sem falar que muitos docentes privados são horistas ou de tempo parcial).

Uma das diferenças mais importantes está no fato de que doutores e mestres, tendo sido formados via pesquisa, incutem na instituição o tom da aprendizagem autoral, ou assim deveria ser.

O problema é que, mesmo com formação diferenciada, claramente, mestres e doutores acabam apenas “dando aula”, em especial nas entidades privadas noturnas, contraditoriamente, porque têm experiência própria de que se aprende bem melhor com pesquisa, como se constata facilmente no Pibic e também no PBL (mais próximo da medicina).

Podemos, então, afiançar que as IES sabem o que é aprender (autoralmente), mas reservam isso para sua elite (mestres e doutores), largando os graduandos à deriva. Como regra, professores pesquisadores não se acanham em “apenas dar aula”, mesmo em cursos de pós-graduação stricto sensu, seguindo uma mania inveterada instrucionista. É por isso que ter formação mais elevada academicamente nem sempre dá os frutos esperados, quando um doutor não faz mais do que reproduzir conteúdos em sala de aula.

Ocorre que as IES mais qualificadas não conseguiram ainda se destacar nessa direção, tornando-se tipicamente entidades de pesquisa, tanto no sentido da produção original de conhecimento quanto no de usar pesquisa pedagogicamente. Mesmo nas federais, grande parte do professorado “só dá aula”, nivelando sua instituição por baixo.

Nas entidades privadas é acerto peremptório fatal: os estudantes frequentam aula, fazem prova e engolem conteúdo curricular. Depois disso, não há nada mais a fazer. Lembrando que nessas entidades está grande parte dos alunos brasileiros, e o prejuízo formativo é irreparável. Esperaríamos que um professor bem formado (via pesquisa autoral) garantisse essa mesma chance a seu estudante.

Temos, pois, enorme carência de doutores – tomando em conta que, ao final, todos os professores deveriam ter doutorado – cuja “produção” tem seu ritmo, tempo e vocação. Se apressarmos o ritmo, podemos estar nivelando por baixo, fabricando docentes com a titulação adequada, mas sem a competência esperada. Não só manter o nível, mas principalmente elevar, é tarefa urgente e básica, esforço que define o futuro das IES, para corresponder tanto à produção de ponta de conhecimento quanto à formação acurada autoral de seus estudantes.

Em termos organizacionais, docentes nas IES eram em 55,2% privados – a maioria; nas públicas, preponderavam as federais, com 29,2%, seguindo-se as estaduais, com 13,6%, e as municipais, com 2%. Nota-se que, embora as municipais sejam muito poucas, já apontam possivelmente para uma evolução maior futura, na medida em que municípios mais potentes partem para ocupar seu espaço próprio nas IES. Enquanto nas privadas havia 32% de doutores, nas públicas, havia 68%, uma diferença extremamente marcante. Já no caso dos mestres, a relação era inversa: 67,8% nas privadas e 32,2% nas públicas. As federais concentravam visivelmente doutores: 47,7% (quase metade). Professores com apenas especialização estavam em maior quantidade (78,2%) nas privadas.

No próximo post, iremos analisar a qualificação dos docentes, fazendo um comparativo entre as universidades públicas e as privadas. Clique aqui para ver a pesquisa completa.

Para os interessados, o meu livro O mais importante da educação importante trata das questões educacionais brasileiras de maneira mais aprofundada.

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  • Pedro Demo
    Pedro Demo

    Pedro Demo é professor aposentado e emérito da Universidade de Brasília, Departamento de Sociologia. Tem doutorado na Alemanha (1971) e pós-doutorado na UCLA/Los Angeles (1999-2000). Tem colaborado com Estados e municípios em programas de formação permanente de professores, dentro da máxima de que o estudante aprende bem com professor que aprende bem. Autor de mais de 90 livros, grande parte sobre sociologia da educação.