22 de maio de 2018

Estilo da gestão e assédio moral

por Osmir Fiorelli

O estilo da gestão estimula ou limita a ocorrência de assédio moral.

Ao incorporar-se a uma organização, o indivíduo imerge em um ambiente sociotécnico em que se praticam comportamentos considerados válidos. O estilo dos gestores modula os comportamentos. Os gestores inspiram; muitas vezes, são modelos e líderes.

Por meio da cadeia gerencial, o estilo propaga-se e dá o tom dos comportamentos. Forma-se, assim, o caráter do ambiente sociotécnico, pelo qual se reconhece o que é válido e necessário, o supérfluo e o inaceitável.

O profissional, no incorporar-se à cultura, submete-se, aceita e passa a praticar esses comportamentos, conscientemente ou não. Com isso, perde-se a percepção de nuances das coisas feitas corriqueiramente. Vários mecanismos mentais contribuem para que isso ocorra.

O estilo de gestão influencia a cultura sob diversas formas. Ele é decisivo na maneira como a organização encara os conflitos. Quando se desenvolve a cultura de evitar conflitos, essa postura acaba absorvida pelos profissionais em seus estilos de agir e reagir – isso tem a ver com as reações ao assédio moral. É comum que o indivíduo fuja do conflito ou da perspectiva de nele se envolver. Resultado: exigir  direitos, recorrer à Justiça, torna-se um último e indesejado recurso.

Observe-se que essa é a postura dominante para grande parte da população. Existem relevantes motivos:

– chegar à  Justiça demanda tempo e recursos financeiros nem sempre disponíveis;

– vislumbra-se uma espera longa, de resultados incertos;

– ocorrendo insucesso na demanda, os danos emocionais e profissionais poderão tornar-se insuportáveis no âmbito pessoal, familiar e social;

– as organizações, em geral, dispõem de suporte jurídico e poder econômico; percebendo a disputa desequilibrada, o profissional opta por “engolir” o assédio.

Quando o estilo de gestão favorece o desenvolvimento de situações típicas de assédio moral, evidentemente este se fará mais presente. A organização aprende a viver com o “problema” por meio de redes de conivências e a disfunção torna-se crônica.

Informação e assédio moral

Tão importante quanto o estilo da gestão é a informação. Tratando-se de assédio moral, compreende-se que dependa da disposição dos profissionais em procurá-las, buscando conhecer e exercer os seus direitos. Sindicatos profissionais também possuem – ou deveriam possuir – interesse em divulgá-las.

Por outro lado, as organizações deveriam ser as primeiras interessadas em que suas chefias tivessem o conhecimento necessário para poder atuar preventivamente contra o assédio moral.

Contudo, as pessoas mostram-se extraordinariamente mal informadas – ainda que mergulhadas, hoje, em um mundo de dados colhidos pelos mais variados meios de comunicação. Pouca coisa transforma-se em informação relevante.

Resultado: direitos deixam de ser exigidos.

O profissional perde a oportunidade de se valer da legislação trabalhista em situações conhecidíssimas como protelação em promoções, mudança de local de trabalho, perda de oportunidades de treinamento, apenas para citar exemplos com efeitos financeiros óbvios.

Observe-se que esse comportamento independe de o assédio moral trazer ou não algum sofrimento (físico ou psíquico) ou prejuízo para a pessoa. As organizações, por sua vez, criam situações favorecedoras de demandas – que deveriam ser evitadas – por ignorarem essa possibilidade.

A falta de informação constitui obstáculo intransponível. O indivíduo ignora a existência do assédio moral. Aquele que não sabe não percebe. 

Consequência: não o identifica e, portanto, deixa de se municiar de dados para pleitear, na Justiça, a indenização potencialmente devida. Padece sem a menor ideia da extensão da indenização a que teria direito. Não coleta dados; não identifica testemunhas; o sofrimento incorpora-se aos requisitos da tarefa e, por essa via, à cultura.

Presença do assédio moral 

O assédio moral constitui um comportamento presente, preocupante e importante por duas razões fundamentais.

Trata-se de um processo (no sentido administrativo, não jurídico).

Longe de ato isolado, o assédio moral como processo é constituído por um conjunto de ações incorporadas ao repertório do assediador e de outros envolvidos – os que ignoram, os que o apoiam e os que proporcionam suporte emocional ao assediado.

Desconheço casos “ocultos”. Percebem-se colegas que apreciam, veladamente, o sofrimento do assediado – comprazem-se com as dificuldades do próximo (à maneira dos amantes de notícias sensacionalistas). As fofocas fermentam durante o cafezinho, nos banheiros e refeitórios.

O processo de assédio moral pode arrastar-se por um período surpreendentemente longo. Aponto situações desse tipo em que o assediado se ajusta aos procedimentos de assédio! Um mecanismo psicológico de defesa perverso: sua vaidade é demonstrar que suporta estoicamente a humilhação.

Também, enquanto processo, ultrapassa os limites organizacionais e evidencia-se em dificuldades com clientes e fornecedores. No mínimo, traz consequências para profissionais da área jurídica e profissionais de saúde, aos quais os assediados recorrerão em busca de indenizações e de alívio para danos psicológicos e fisiológicos.

O assédio moral é um vírus

Um vírus replica-se e muda de características contínua e indefinidamente. Na organização, inicia-se com um comportamento ou sentimento, por exemplo, um assédio sexual; uma inveja; uma antipatia pouco explicável; um preconceito. Aos poucos, evolui; incorpora outras emoções; torna-se cada vez mais agressivo e perigoso.

O efeito resultante da multiplicação típica de um vírus é notável. No início, limita-se à díade em conflito (assediador/assediado). Com o passar do tempo, amplia-se e incorpora os apoiadores, que se transformam em multiplicadores inconscientes (ou não).

O vírus enfraquece os relacionamentos interpessoais. Implanta-se um clima de desconfiança. A organização gasta energia e recursos para neutralizar – até onde possível – esse efeito nefasto e nem sempre (às vezes, nunca) o percebe. Como tomar conhecimento de um vírus entranhado nos processos produtivos e administrativos?

O assédio moral transforma-se em doença organizacional crônica.

Síntese

– O assédio moral merece a atenção dos gestores e administradores.

– Seus efeitos sobre os relacionamentos interpessoais e procedimentos são relevantes.

– Podem ocorrer substanciais prejuízos financeiros.

Para quem tiver mais interesse no assunto, os meus livros Assedio moral – uma visão multidisciplinar e Psicologia para administradores tratam do assunto de maneira mais aprofundada. Vale a leitura!

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  • Osmir Fiorelli

    José Osmir Fiorelli é graduado em Engenharia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em Psicologia pela Universidade de Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduado em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em outras universidades, lecionou disciplinas relacionadas à Administração e à Psicologia Organizacional. Atua como palestrante e facilitador em workshops. É coautor de Mediação e solução de conflitos, Psicologia jurídica e Assédio moral: uma visão multidisciplinar, todos publicados pelo GEN | Atlas.