20 de Abril de 2018

Luxos do século XXI: privacidade, tempo e silêncio

por Martha Gabriel

Temos visto e sentido a disseminação tecnológica acontecendo em ritmo de crescimento exponencial na sociedade, mas, muitas vezes, não percebemos a revolução silenciosa e invisível que a acompanha, transformando e modificando o polo de valores de nossas vidas, que fazem com que a privacidade, o tempo e o silêncio sejam os novos luxos do século XXI.

Quando a internet era jovem, no final do século passado, existia um entusiasmo com as possibilidades de conexão entre pessoas e informações em qualquer lugar do planeta. Conforme a web foi se expandindo, também foi crescendo a quantidade de pessoas e objetos conectados a ela e, hoje, isso inclui virtualmente todo tipo de dispositivo: carros, geladeiras, termostatos, casas, semáforos, lâmpadas, ou seja, qualquer tipo de objeto, inclusive os pessoais, como roupas e óculos, além, claro, do poderoso smartphone.

Essa é a tão falada “Internet of Everything”, termo cunhado por Kevin Ashton em 1999, na qual qualquer coisa dotada de sensores consegue “sentir” o seu ambiente e se comunicar tanto com outras coisas quanto com seus donos ou outras pessoas. Com isso, todas as coisas passam a ser “smart”, ou seja, adquirem uma camada de informação que as permite operar de forma mais inteligente. Portanto, a inteligência das coisas tem aumentado no mundo ao nosso redor.

Em contrapartida, tudo isso é extremamente excitante, pois permite uma inédita otimização de recursos na história da humanidade. Geladeiras que nos informam quando um produto acabou ou perdeu a validade e que faça pedidos automaticamente aos supermercados; cidades que conseguem prever epidemias e manifestações em função da movimentação nas ruas e dados comportamentais; termostatos que regulam a temperatura do ambiente em função da quantidade de pessoas nele; cordas, tênis, raquetes e patinetes que medem nossa performance durante o seu uso para nos ajudar a melhorá-la; escovas de dentes que nos informam a melhor maneira de escovar; camisas que analisam nossa saúde; e mais uma infinidade de possibilidades de otimizações.

No entanto, conforme a “Internet of Everything” avança, precisamos nos conscientizar de que tudo o que fazemos, os lugares que visitamos, bem como o modo como vivemos, compramos, divertimo-nos e aprendemos, foram profundamente transformados por essa conexão inteligente entre tudo.

A onipresença e a onisciência da internet invadem todos os aspectos das nossas vidas, em um processo em que estamos cada vez mais “visíveis” na rede. Esse é o trade-off da otimização e personalização: quanto mais informações pessoais fornecemos, mais eficiente e rico é o processo. Nesse contexto, torna-se cada vez mais difícil (e, em alguns casos, impossível) ter privacidade.

Por exemplo, se a sua camisa “smart” envia alertas sobre a sua saúde automaticamente para o seu médico, ela pode também informar os fabricantes de remédios sobre a sua situação. Cada vez mais empresas empreendedoras estarão minerando o campo da “Internet of Everything” em busca de oportunidades de personalização e otimização. Certamente, veremos nos próximos anos uma “corrida do ouro” nessa área, minando cada vez mais a privacidade.

Além da ubiquidade que nos vê o tempo todo, o novo cenário tecnológico traz mais dois impactos profundos: 1) a tecnologia entretém-nos cada vez mais ininterruptamente, em todas as dimensões da nossa existência; 2) a tecnologia permite que haja muito mais fluxos de comunicação e aparelhos emitindo sons e barulho em qualquer lugar o tempo todo ao nosso redor. As consequências disso é que, além de privacidade, temos cada vez menos tempo e silêncio em nossas vidas.

O aparato tecnológico ampliou consideravelmente a quantidade de coisas que temos para fazer tanto no trabalho quanto em casa. Por exemplo, antigamente tínhamos apenas uma dúzia de canais de televisão para assistir, ao passo que hoje temos milhares. Antes, tínhamos alguns jogos de tabuleiro, hoje há milhares de jogos online.

Ademais, devido ao seu papel de desintermediação, hoje fazemos muito mais coisas que no passado – esse é o caso dos supermercados, em que, além de pegar os produtos, também pesamos, embalamos e processamos o pagamento.

Ou quando fazemos check-in em voos e hotéis – antes alguém nos atendia, hoje fazemos a entrada de dados, escolha de assentos/quartos, imprimimos o boarding pass e o escaneamos na entrada do avião. E assim por diante. Quanto mais dispositivos conectados, mais coisas para fazer e menos tempo para tudo. Assim, a gestão do tempo passa a ser uma das principais habilidades humanas atualmente.

Uma conclusão óbvia é de que todos esses dispositivos podem emitir sons, conteúdos e informações (por exemplo, a sua camisa “smart” enviou informações sobre a sua situação para fabricantes de remédio, que poderão, eventualmente, contatar-lhe), bem como habilitar o próprio ser humano a se comunicar em qualquer lugar, aumentando a poluição sonora.

No entanto, a tecnologia também alavancou o crescimento populacional e a urbanização no planeta, aumentando ainda mais a densidade de pessoas e coisas praticando emissões sonoras ao nosso redor: televisões e monitores ligados em todos os ambientes, pessoas usando seus smartphones (tanto para conversar quanto para ver e ouvir os seus conteúdos), alertas de sensores de carros, fornos, telefones, aplicativos etc. Consequentemente, o silêncio está se tornando uma raridade.

Sabemos que, em cada momento da história, a escassez sempre determinou o valor das coisas – quanto mais escassas, mais valiosas. Partindo desse princípio, acredito que, nos próximos anos, perceberemos que, em função da transformação tecnológica em nossas vidas, os artigos de luxo do século XXI serão a privacidade, o tempo e o silêncio. Será que temos consciência e estamos preparados para isso?

Para os interessados, o meu livro Você, Eu e os Robôs: Pequeno Manual do Mundo Digital trata de todos esses assuntos de maneira mais aprofundada. Vale a leitura!

Fonte: Martha Gabriel

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  • Martha Gabriel
    Martha Gabriel

    É considerada uma das principais pensadoras digitais no Brasil, referência em inovação, transformação e educação digitais. Autora de dois best-sellers e finalista do Prêmio Jabuti, é também premiada palestrante keynote internacional, tendo realizado mais de 70 apresentações no exterior, além de 4 TEDx. É uma das palestrantes mais requisitadas do Brasil, realizando mais de 100 palestras por ano. Apresentadora da websérie “Caminhos da Inovação” da Desenvolve SP e do Mundo Digital e “SEBRAE Digital” na Rádio Jovem Pan. Rankeada entre os 50 profissionais mais inovadores do mundo digital brasileiro pela ProXXIma, entre os Top 50 Marketing Bloggers mais influentes do mundo pelo KRED e Homenageada Especial do Prêmio Profissional Digital ABRADi 2017. Executiva e consultora nas áreas de business, inovação e educação. Engenheira pela Unicamp, pós-graduada em marketing pela ESPM-SP e em design pela Belas Artes-SP, mestre e Ph.D em artes pela ECA-USP e educação executiva pelo MIT. Professora de pós-graduação na PUC-SP, no TIDD – Tecnologias da Inteligência e Design Digital, de MBAs, e de Faculty Internacional da CrossKnowledge. Sócia da Martha Gabriel Consulting & Education e da startup Nethics Educação.