18 de Abril de 2018

Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana

por José Luis Oreiro

Dando continuidade ao artigo do economista Fabrício José Missio, professor do curso de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG), publicado na edição de fevereiro de 2018, da revista Economia e Sociedade, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), sobre o meu livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana, segue o terceiro fragmento.

 

Modelos de crescimento de inspiração keynesiana – Parte I

 

No capítulo 3, do livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana, o autor analisa os determinantes do crescimento de uma economia madura, em que toda a força de trabalho disponível no setor tradicional ou de subsistência já foi transferida para o setor industrial moderno. No longo prazo, o ritmo de crescimento da oferta de trabalho estará determinado pelo ritmo de crescimento da população.

Nesse contexto, a taxa de crescimento potencial da economia (taxa natural de crescimento) será fixada pela soma entre a taxa de crescimento da força de trabalho e a taxa de crescimento da produtividade do trabalho. Esta última, na medida em que o progresso técnico é, em grande parte, incorporado em novas máquinas e equipamentos, será estabelecida pela taxa de crescimento do estoque de capital por trabalhador. Evidencia-se, assim, a endogenização do progresso técnico.

Como uma economia madura não necessariamente opera na fronteira tecnológica, a opção assumida é a de que a função de progresso técnico leva em conta os efeitos que o hiato tecnológico tem sobre a taxa de crescimento da produtividade. Assim, a partir da função do progresso técnico assumida, chega-se à conclusão de que a taxa de crescimento da produtividade do trabalho depende da taxa de crescimento do estoque de capital, da taxa de crescimento da força de trabalho e (de forma não linear) do hiato tecnológico. Portanto, a taxa natural de crescimento pode ser especificada como dependente da taxa de crescimento da força de trabalho e do hiato tecnológico.

Posteriormente, adiciona-se o lado da demanda agregada a partir da condição de equilíbrio macroeconômico de que a poupança deve ser igual ao investimento. Definem-se diferentes funções poupanças de acordo com as especificações teóricas de diferentes modelos keynesianos (harrodiano, kaldoriano e pasinettiano).

Independentemente da função poupança especificada, três resultados emergem no livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana: primeiro, a existência de níveis diferenciados de hiato tecnológico entre os países fará que estes apresentem diferentes valores para a taxa natural de crescimento do produto real e, dado o crescimento da população, para a taxa de crescimento do produto e da renda per capita. Segundo, ao longo da trajetória de crescimento balanceado, a distribuição funcional da renda entre salários e lucros deve permanecer constante. Como tanto a distribuição funcional da renda como a repartição do estoque de capital entre trabalhadores e capitalistas dependem da taxa natural de crescimento, condicionada, por sua vez, pelo hiato tecnológico, o resultado que emerge é que níveis diferentes de hiato tecnológico serão compatíveis com valores diferentes para a distribuição de renda e de riqueza ao longo da trajetória de crescimento equilibrado. Terceiro, o regime de acumulação é profit led.

Nos capítulos que se seguem, o autor trabalha com economias que possuem oferta ilimitada de mão de obra. Nesse caso, a restrição fundamental ao crescimento econômico no longo prazo encontra-se ao lado da demanda agregada. Assim, tanto o investimento como o progresso técnico se adaptam, sob certas condições, ao ritmo de expansão da demanda agregada.

No capítulo 4, o autor argumenta que, para uma pequena economia aberta que não dispõe de moeda conversível, o crescimento de longo prazo será puxado pelas exportações. Assim, as diferenças observadas nas taxas de crescimento do produto e da renda per capita entre os países refletem o dinamismo do seu setor exportador. Esse dinamismo, por sua vez, depende de dois fatores fundamentais: o nível de especialização produtiva da economia (quanto mais diversificado, melhor) e o conteúdo tecnológico das exportações. Quanto menor o hiato tecnológico, maior o conteúdo tecnológico das exportações e maior a elasticidade da renda da demanda por exportações.

Nesse capítulo, o autor  do livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana foca apenas nas diferenças no dinamismo exportador que decorrem das assimetrias existentes na estrutura produtiva dos diferentes países. Mantendo a hipótese de que o grau de utilização da capacidade produtiva é igual ao normal, segue-se que a existência de uma trajetória de crescimento balanceado exige que a distribuição funcional da renda seja suficientemente flexível para permitir que a poupança agregada se ajuste ao investimento requerido para sustentar o crescimento do produto. Novamente, o regime de crescimento prevalecente nessas economias será eminentemente profit led, uma vez que a participação dos lucros na renda e a taxa de crescimento do estoque de capital são positivamente correlacionadas ao longo da trajetória de crescimento em estado estável.

O autor do livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana apresenta os argumentos que fundamentam a hipótese de endogeneidade de longo prazo da disponibilidade dos “fatores de produção”, mostrando que o conceito de “produto potencial” da economia ortodoxa é essencialmente de curto prazo. No longo prazo, o determinante último da produção é a demanda agregada, e na presença desta as firmas vão responder por intermédio de um aumento de produção e da capacidade, desde que respeitadas as seguintes condições: (i) a margem de lucro seja suficientemente alta; e (ii) a taxa realizada de lucro seja maior do que o custo do capital.

Ao resgatar os modelos Dixon-Thirwall (1975) e Thirlwall (1979), o autor mostra que, respectivamente, a condição necessária é suficiente para que aconteça o processo de catching-up ou a compatibilidade com o processo de convergência (divergência) da renda per capita entre os países depende do grau de especialização da estrutura produtiva e da intensidade tecnológica das exportações. Ademais, ao considerar a extensão das economias dinâmicas de escala, mostra-se que a taxa de crescimento de longo prazo é uma função direta da participação da indústria no PIB.

A capacidade produtiva também é uma restrição ao crescimento de longo prazo, que é apontada no livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. Portanto, é necessário trabalhar com a taxa garantida de crescimento, ou seja, aquela que assegura que a demanda agregada e a capacidade produtiva vão crescer à mesma taxa de forma a manter a utilização da capacidade produtiva no seu nível normal de longo prazo.

A condição que permite derivar uma taxa de equilíbrio a partir das duas restrições (de capacidade e de equilíbrio no balanço de pagamentos) é a de que a propensão a poupar seja flexível. A resolução do modelo mostra um regime de acumulação profit led e que as exportações são o motor do crescimento da economia no longo prazo. Dentro desse arcabouço, evidenciam-se ainda a importância de uma maior participação da indústria no PIB e o papel positivo da manutenção de uma taxa real de câmbio favorável (desvalorizada) no processo de desenvolvimento econômico.

Em termos formais, o autor admite que as elasticidades-renda das exportações e das importações dependem da taxa de câmbio, mais precisamente, da relação entre o valor corrente da taxa de câmbio e a taxa de câmbio de equilíbrio industrial. Esta última é aquela taxa que permite que as empresas domésticas que operam com tecnologia no estado da arte mundial consigam competir no mercado nacional e internacional. Com um câmbio valorizado, ocorre um processo de desindustrialização e reprimarização da pauta de exportações, o que atua no sentido de tornar a restrição externa mais ativa.

Por fim, o autor do livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana apresenta um modelo keynesiano-estruturalista que sintetiza a discussão realizada ao longo do capítulo. O modelo é composto por duas equações: uma restrição externa, que considera a endogeneidade das elasticidades da renda do comércio exterior em relação à taxa de câmbio; e uma restrição dada pela taxa garantida de crescimento, derivada do modelo de crescimento do Harrod. Nesse caso, considera-se que a distribuição de renda e a taxa de lucro dependem do câmbio real e, portanto, uma desvalorização cambial ao estimular os empresários a investir mais faz que a taxa de crescimento da capacidade produtiva se acelere. Em outras palavras, a restrição de capacidade produtiva também pode ser “relaxada” por intermédio de variações apropriadas da taxa real de câmbio.

De acordo com o modelo apresentado, a restrição ao crescimento de longo prazo não se origina da restrição externa nem da restrição de capacidade, mas da tendência à sobrevalorização da taxa de câmbio que tem sua origem na doença holandesa. Portanto, o modelo prevê que os países ricos em recursos naturais que não conseguirem neutralizar a sobrevalorização cambial decorrente da doença holandesa deverão crescer menos do que aqueles que assim o fizerem.

No capítulo 5, o autor verifica as implicações para o crescimento de longo prazo do uso da capacidade de produção num patamar inferior ao máximo ou “normal”. O equilíbrio macroeconômico será obtido no curto prazo por intermédio de variações do grau de emprego da capacidade produtiva. Contudo, considerando a trajetória de crescimento balanceado, não podem existir divergências entre o grau normal e o grau efetivo de utilização da capacidade. Sendo assim, a economia poderá apresentar duas posições de equilíbrio de longo prazo: com baixa (alta) utilização da capacidade produtiva e alta (baixa) participação dos lucros na renda. Isso implica que o paradoxo da parcimônia nos modelos kaleckianos só é válido para o caso em que a economia está operando no “equilíbrio baixo”.

Portanto, o livro Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana demonstra que o modelo kaleckiano canônico é compatível com a existência de diferenças persistentes no nível do hiato tecnológico entre os países, mas, ao tratar a fonte do crescimento de longo prazo como exógena ao sistema, esse tipo de modelo não se mostra capaz de explicar a existência de divergências nas taxas de crescimento da renda per capita, haja vista que a fonte do crescimento é tida como exógena (investimento autônomo).

Na trajetória de crescimento balanceado, a distribuição de renda entre salários e lucros não tem nenhum impacto sobre o ritmo de acumulação de capital, embora possa influenciar o nível (normal) de utilização da capacidade produtiva. A depender da especificação da função investimento, é possível definir a existência de dois regimes de acumulação: wage led ou profit led.

Tags: , , ,
  • José Luis Oreiro
    José Luis Oreiro

    Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1992), Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio, 1996) e Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2000). Atualmente, é professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), Pesquisador Nível IB do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e líder do grupo de pesquisa “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. Foi presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) no período 2013-2015. Tem cerca de 100 artigos publicados em revistas científicas no Brasil e no exterior, como no Journal of Post Keynesian Economics, Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, Investigación Económica, Revista de la Cepal, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos.