18 de junho de 2018

O motor do crescimento

por José Luis Oreiro

A economia brasileira fechou o ano de 2017 com um crescimento abaixo de 1%, resultante dos efeitos combinados da liberação dos depósitos inativos do FGTS, da redução da taxa de juros e do forte crescimento das exportações, tanto de produtos básicos como de manufaturados, em função da aceleração do crescimento da economia mundial.

Considerando a queda acumulada de quase 9% do PIB real no período de 2014-2016, trata-se de uma recuperação anêmica, ainda que bem-vinda. A pergunta que se coloca a partir desse momento é: Qual o ritmo de crescimento que a economia brasileira pode sustentar no médio e no longo prazos?

Essa pergunta é fundamental tanto para a formulação de projeções sobre a trajetória das contas públicas como também para o desenho de políticas que permitam lidar com os problemas estruturais da sociedade brasileira nas áreas de educação, saúde e infraestrutura.

A teoria econômica indica que o crescimento potencial de uma economia no longo prazo é igual à soma entre a taxa de crescimento da força de trabalho e a taxa de crescimento da produtividade. A taxa de crescimento da força de trabalho depende da taxa de crescimento da população e do crescimento da taxa de participação, ou seja, do aumento da razão entre a força de trabalho e a população.

Em função da queda tendencial da taxa de fecundidade (filhos por mulher) derivada do processo acelerado de urbanização da economia brasileira nos últimos 50 anos, a taxa de crescimento da população vem reduzindo progressivamente, situando-se hoje em torno de 0,8% a.a. Na década passada a força de trabalho cresceu em um ritmo superior ao crescimento da população devido ao aumento da taxa de participação, induzida pela expansão do nível de emprego.

Embora a recessão de 2014 a 2016 tenha aumentado a taxa de desemprego, não podemos mais contar com um aumento significativo da taxa de participação nos próximos 15 anos, dado que esta já se encontra num patamar elevado. Dessa forma, o crescimento da força de trabalho deve contribuir com, no máximo, 1 p.p. para o crescimento do PIB nos próximos anos.

E o que dizer da taxa de crescimento da produtividade? Os economistas ortodoxos acreditam que a produtividade é algo que não tem nada que ver com a acumulação de capital ou com a composição intersetorial da produção e do emprego, sendo dependente apenas das instituições (grau de abertura da economia e grau de observância ao império da lei) e do estoque de capital humano.

Dessa forma, a receita ortodoxa para acelerar o crescimento da produtividade é fazer a abertura indiscriminada e unilateral da economia, ao mesmo tempo que aumenta o investimento em educação básica e fundamental.

Em artigo publicado em 2013, o economista Dani Rodrik, da Universidade de Harvard (EUA), mostrou que a estratégia de desenvolvimento baseada na melhoria de instituições e da acumulação de capital humano é relativamente pouco eficaz como fonte de aumento da produtividade.

Os países que experimentaram surtos de crescimento econômico acelerado foram precisamente aqueles que conseguiram transferir mão de obra dos setores tradicionais para a indústria de transformação, uma vez que esse processo é o que permite o aumento mais rápido da produtividade do trabalho.

Em outras palavras, os campeões de crescimento foram precisamente os países que se industrializaram mais rápido. Para impedir a ocorrência de uma “desindustrialização precoce”, Rodrik constata que a industrialização deve estar baseada na conquista de mercados externos, em vez da substituição de importações.

Dessa forma, a política macroeconômica torna-se pilar fundamental do desenvolvimento econômico ao ter como meta a obtenção de superávits em conta-corrente do balanço de pagamentos.

Para quem tiver mais interesse no assunto, o meu livro Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva Keynesiana aborda temas interessantes da economia atual. Vale a leitura!

 

Fonte: Blog Jose Luis Oreiro

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  • José Luis Oreiro
    José Luis Oreiro

    Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1992), Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio, 1996) e Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2000). Atualmente, é professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), Pesquisador Nível IB do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e líder do grupo de pesquisa “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. Foi presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) no período 2013-2015. Tem cerca de 100 artigos publicados em revistas científicas no Brasil e no exterior, como no Journal of Post Keynesian Economics, Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, Investigación Económica, Revista de la Cepal, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos.