8 de Maio de 2018

Remédios caseiros para solução de conflitos

por Osmir Fiorelli

Dando continuidade ao artigo anterior sobre os remédios caseiros (ou métodos tradicionais) para solução de conflitos, que se caracterizam como “Nada a fazer”, “Acomodação” e “Aconselhamento”, segue a conceituação do terceiro deles: 

Aconselhamento

É compreensível e salutar que as pessoas busquem opiniões e conselhos de outras mais experientes e/ou respeitadas, tais como amigos, religiosos, parentes etc. Nas empresas, ouvem-se colegas, superiores e, eventualmente, profissionais e amigos alheios à organização.

A preocupação com esse terceiro “remédio caseiro” decorre da falta de garantia de qualidade dos conselhos, sugestões e/ou opiniões.

O aconselhamento tende à ineficácia – e, nesse caso, gera ou agrava conflitos – quando a percepção do conselheiro substitui a dos envolvidos. O risco aumenta ainda mais quando:

– o conselheiro pode beneficiar-se com o resultado; por exemplo, se o aconselhado solicitar demissão ou transferência, o conselheiro visualizará a possibilidade de lhe assumir o cargo ou função;

– seu prestígio pessoal possui tal dimensão que, independentemente do que ele diga, é hipervalorizado;

– há a possibilidade de o conselheiro transferir para o aconselhado os seus próprios valores. Por exemplo, se ele aprecia métodos mais centralizadores de tomada de decisão, vai concentrar-se nas opções que conduzam a essa forma de gestão;

– também há a possibilidade de o conselheiro ter experiência em alguma situação passada, cuja solução não funcionará com a mesma eficácia nas condições presentes; por exemplo, ele soube sair – no momento certo – de outra empresa; contudo, as condições da situação em curso podem ser muito diferentes;

– deve-se atentar ao fator tempo: uma solução aparentemente boa no curto prazo pode revelar-se péssima no futuro, pelo desconhecimento, por parte do conselheiro, de algumas variáveis típicas à organização.

Em contrapartida, pessoas experientes, sensatas, com legítimo interesse em contribuir de maneira construtiva, transmitem, com eficiência e eficácia, orientações de grande utilidade para se obter uma solução adequada para o conflito.

Isso acontece em situações nas quais elas possuem prática ou para as quais reúnem habilidades e competências conceituais e interpessoais. Os exemplos são inúmeros e, quando isso ocorre, o aconselhamento aponta um caminho eficiente, simples, sem burocracia e, até mesmo, sem qualquer tipo de custo, que conduz à solução desejada ou satisfatória.

O administrador deve acautelar-se para que o aconselhamento não se torne uma forma cômoda, socialmente aceitável e defensável perante seus pares, de esquivar-se de assumir a responsabilidade por uma decisão.

Em contrapartida, deve também estar atento à possibilidade de deixar de buscar um aconselhamento por motivos inconscientes, por exemplo, sentir-se diminuído ou prestigiado (pela figura do aconselhador) perante a organização, demonstrar autossuficiência e/ou conhecimento que, efetivamente, não domine inteiramente.

Conclusão 

Os três “remédios caseiros” para a solução de conflitos analisados poupam recursos e imprimem agilidade às soluções. Contudo, quando se mostram ineficazes, agravam os conflitos e acentuam a necessidade de buscar, no mercado especializado, profissionais para solucioná-los da maneira mais eficiente.

Há situações em que o conflito tem origem em questões eminentemente técnicas, pouco dominadas pelos profissionais da organização, e, assim, a solução passa pela participação de uma consultoria especializada, por exemplo.

São comuns as situações de conflito por motivos comerciais ou administrativos, que podem encontrar abrigo na Justiça. Nesses casos, recomenda-se, preliminarmente, a avaliação da conveniência de procurar uma das quatro formas alternativas: a arbitragem, a negociação, a conciliação e a mediação (convencionalmente designadas por Métodos Extrajudiciais de Soluções de Controvérsias – MESCs).

Tais práticas encontram-se descritas e comparadas em meu livro Mediação e solução de conflitos: teoria e prática. Com elas, evitam-se as dificuldades naturais da Justiça convencional: ganha-se tempo precioso, reduzem-se os custos e garantem-se aos participantes maior autonomia e segurança na elaboração dos acordos.

 

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  • Osmir Fiorelli

    José Osmir Fiorelli é graduado em Engenharia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em Psicologia pela Universidade de Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduado em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em outras universidades, lecionou disciplinas relacionadas à Administração e à Psicologia Organizacional. Atua como palestrante e facilitador em workshops. É coautor de Mediação e solução de conflitos, Psicologia jurídica e Assédio moral: uma visão multidisciplinar, todos publicados pelo GEN | Atlas.