1 de maio de 2018

Remédios caseiros para solução de conflitos

por Osmir Fiorelli

Dando continuidade ao artigo anterior sobre os remédios caseiros (ou métodos tradicionais) para solução de conflitos, que se caracterizam como “Nada a fazer”, “Acomodação” e “Aconselhamento”, segue a conceituação do segundo deles:

Acomodação

Nessa forma, as pessoas diretamente envolvidas promovem pequenos ajustes e concessões mediante esforços e iniciativas eminentemente de cunho pessoal.

Com isso, evitam-se “tempestades em copo d’água”; impede-se que um evento corriqueiro se transforme em batalha desproporcional. Personalidades avessas a conflito privilegiam a acomodação.

Por exemplo, um pedido de material além do habitual piora os indicadores de eficiência do processo de aquisição e requer um ajuste inesperado no fluxo de caixa. Dentro do razoável, essa ocorrência não merece maiores cuidados e a solução vem por acomodação. A negativa do atendimento poderia ocasionar conflitos com várias áreas da organização e reflexos sobre o atendimento aos clientes.

Por meio da acomodação, cônjuges ajustam a convivência. Um ou ambos cedem. Contudo, há um limite – as separações o demonstram. Afinal, a cada acomodação de comportamento visível existe outra de fundo emocional nem sempre perceptível.

Algo muito semelhante acontece nas organizações. Ajustes e concessões são necessários, mas, em contrapartida, ocultam insatisfações. A rotina de uma área de trabalho ajusta-se para acomodar necessidades de outra; altera-se uma especificação para facilitar um procedimento; enfim, são incontáveis as situações. As queixas revelam suas faces em brincadeiras de gosto discutível, piadinhas de bastidores, descontroles movidos a álcool nas confraternizações, insinuações de mau gosto, indelicadezas e coisas assim, culturalmente ajustadas. Mensagens em banheiros podem ser sintomáticas.

As insatisfações ocasionam efeitos físicos, fisiológicos e psíquicos nas pessoas. São conhecidos as somatizações (gastrites, dores de cabeça, hipertensão e outros conhecidíssimos transtornos) e os transtornos psíquicos, como as depressões, episódios de pânico, ansiedades etc.

O administrador identificará, tardiamente, a existência de situações mal adaptadas quando uma das partes “explode” inexplicavelmente ao romper a válvula de segurança da caldeira emocional. Muitas vezes, a explosão revela-se por meio de um pedido inesperado de demissão, mediante demandas na Justiça do Trabalho… 

Se a prática da acomodação pode conduzir à tensão, de outra forma ela estabiliza os processos e evita contínuas e dispendiosas modificações; torna o trabalho mais produtivo e estimulante. As pequenas acomodações facilitam o ajuste contínuo das pessoas a suas atividades e às outras pessoas e, muitas vezes, simbolizam o prazer de bem servir aos colegas, superiores e clientes. Sem acomodação, não há vida em sociedade.

No próximo artigo, apresentarei o remédio caseiro “Aconselhamento”.

Para um entendimento mais aprofundado da questão, tais práticas encontram-se descritas e comparadas em meu livro Mediação e solução de conflitos: teoria e prática. Com elas, evitam-se as dificuldades naturais da Justiça convencional: ganha-se tempo precioso, reduzem-se os custos e garantem-se aos participantes maior autonomia e segurança na elaboração dos acordos.

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  • Osmir Fiorelli

    José Osmir Fiorelli é graduado em Engenharia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em Psicologia pela Universidade de Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduado em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em outras universidades, lecionou disciplinas relacionadas à Administração e à Psicologia Organizacional. Atua como palestrante e facilitador em workshops. É coautor de Mediação e solução de conflitos, Psicologia jurídica e Assédio moral: uma visão multidisciplinar, todos publicados pelo GEN | Atlas.