3 de novembro de 2017

Tendências e perspectivas na Gestão de Pessoas

por Joel Souza Dutra

Necessitamos de novas formas de gerir pessoas. As organizações, de forma natural e espontânea, estão alterando sua forma de gerir pessoas para atender às demandas e pressões provenientes do ambiente externo e interno. Essa reação natural e espontânea tem padrões comuns que caracterizam um novo modelo de gestão de pessoas. Como esse novo modelo é mais eficiente para compreendermos e atuarmos sobre a realidade organizacional, ele estará presente em todas as organizações.

As organizações inseridas em contextos mais exigentes, quer em função de seu setor de atividade econômica, quer em função do papel que exercem junto às congêneres, estão praticando sistemas de gestão de pessoas por meio da utilização de conceitos de competência, complexidade e espaço ocupacional, conscientes ou não desse fato. Embora a constatação pareça uma boa notícia, ela não o é necessariamente, porque dependerá de como as empresas irão empregar esses conceitos. É bem provável que a maior parte os empregue como forma de extrair mais resultados das pessoas, sem nenhuma preocupação em patrocinar o desenvolvimento delas.

Olhando dessa forma, não parece uma situação alvissareira. Devemos considerar que, ao procederem dessa maneira, as organizações estarão orientando sua gestão para o curto prazo e poderão sofrer as consequências disso. A principal delas será a dificuldade de sustentar vantagens competitivas e de atrair e reter pessoas importantes para a organização. Cada vez mais essas pessoas procuram uma relação que lhes agregue valor e desenvolvimento profissional.

Podemos prever, portanto, que as organizações irão aprender com seus erros e, ao longo do tempo, estarão genuinamente preocupadas com o desenvolvimento das pessoas. Nesse momento, as organizações com experiências bem-sucedidas e levadas a sério serão paradigmáticas para o mercado como um todo. E terão clara vantagem na disputa por pessoas que podem agregar um diferencial competitivo para seus negócios.

Podemos também prever que as organizações necessitarão de um número crescente de trabalhadores especializados. Estes, por sua vez, demandarão atualização contínua para manter sua competitividade no mercado de trabalho; serão, portanto, mais exigentes na sua relação com as organizações. Como decorrência, os processos de movimentação, desenvolvimento e valorização das pessoas ganharão destaque para gerenciar a conciliação de expectativas entre elas e a empresa e/ou negócio. Essa conciliação se tornará cada vez mais complexa e envolverá um conjunto cada vez maior de variáveis e de sutilezas.

É possível prever, portanto, transformações na ética das relações entre pessoas e organizações. Os que não atenderem aos princípios éticos dessa relação terão crescentes dificuldades para movimentar-se em um mercado cada vez mais exigente e complexo.

A maior exigência não será somente em termos da qualificação e/ou formação das pessoas, mas também de sua capacidade de resposta para as necessidades da organização e/ou negócio. Por conta disso, o investimento efetuado pela sociedade como um todo no desenvolvimento das pessoas será menos no conhecimento (saber) e na habilidade (saber fazer) e mais na competência (capacidade das pessoas na articulação de conhecimentos, habilidades e atitudes no contexto em que se inserem).

Definir com precisão quais são as competências demandadas pela organização e pela sociedade será um fator essencial para garantir a sustentação de vantagens competitivas e para dar melhor foco aos investimentos em educação. Esse movimento será liderado pelas organizações e, rapidamente, outros segmentos da sociedade se incorporarão a ele.

O estabelecimento das competências requeridas das pessoas permitirá também maior agilidade na troca de carreiras profissionais por parte das pessoas. A reciclagem profissional será cada vez mais frequente em nossa sociedade e várias entidades estarão envolvidas no processo: sindicatos, associações profissionais, governo, escolas, empresas do terceiro setor etc.

De outro lado, podemos antever um crescimento da demanda por profissionais mais bem preparados, com o aumento da complexidade de nossas organizações e do contexto no qual se inserem. Nesse caso, as organizações e as pessoas mais bem preparadas terão clara vantagem sobre as demais.

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  • Joel Souza Dutra
    Joel Souza Dutra

    É Professor livre-docente da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), onde ministra cursos de graduação e pós-graduação. Possui mestrado pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) e doutorado pela FEA/USP. Coordenador do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas (PROGEP) da FEA/USP. Atua como consultor em gestão de pessoas para as principais empresas do país. Diretor instituidor da Growth Desenvolvimento de Pessoas e Organizações.