29 de janeiro de 2018

A verdade sobre escola sem partido

por Pedro Demo

Sempre inventamos moda na política. Uma das últimas foi “escola sem partido”, outro debate torto sobre qual seria a escola verdadeira e autêntica. A esquerda se aproveitou do poder, contrariando sua ideologia quando era oposição – fazer uma política diferente, ética, voltada para a população. Mas a direita sempre aparelhou o Estado, já que no catecismo neoliberal, o Estado serve ao mercado. Se certo marxismo althusseriano dizia que escola é aparelho ideológico do Estado, o neoliberalismo diria que Estado é aparelho ideológico do mercado. Em certo sentido, ambas as posições acabam se encontrando. No caso althusseriano, a superestrutura é determinada pela infraestrutura, por isso nada mais natural que o Estado sirva ao mercado. No caso neoliberal, por conta de que o mercado liberal é a ordem das coisas. Os argumentos são opostos, mas o resultado é similar.

Educação sempre foi questão sensível na sociedade, porque “saber pensar” talvez seja o maior poder dos humanos, mais incisivo que a força física. Frequentar a escola, alfabetizar-se, aprender como autor, sugerem que, para enfrentar a vida, há que preparar-se; na construção da autonomia, educação é alavanca crucial. Em geral, educação fica em família mas, sendo educação um processo que vaza para todos os lados, muitas instâncias se oferecem como educativas, em particular os sistemas de ensino institucionalizados. No Brasil temos a presença da escola privada, em geral justificada como direito de escolha e de alternativas pedagógicas, mas na prática sempre predomina o “argumento” financeiro: para a elite que pode pagar. Temos também escolas confessionais, porque a Igreja (católica, sobretudo, mas também protestantes e outras denominações) igualmente se considera instância educativa e exige o direito de educar a seus crentes. Na prática, o sistema é bem mais complicado. Entidades privadas na educação básica tendem a ser “melhores” e garantem bem mais facilmente o acesso a universidades de melhor nível. A escola pública básica é, grosso modo, coisa pobre para o pobre – quem pode a evita. Já no nível superior, as melhores universidades são públicas, por serem muito caras, enquanto as piores são privadas, onde os mais pobres precisam fazer das tripas coração para poderem se financiar e aprender muito mal.

O movimento da “escola sem partido” alimenta a pieguice de que a proposta educacional neoliberal não tem ideologia. Escola sem partido é uma escola de eunucos, forçadamente castrada. Enquanto isso, não se ataca um problema absurdo e crescente que é a falta de aprendizagem dos estudantes – em 2015, no ensino médio, apenas 7.3% dos estudantes aprenderam matemática no país; 1.5% no Maranhão; 12.8% no Distrito Federal, os dois extremos. Um debate tão ideológico é literalmente inútil em face da inutilidade deste tipo de escola – a rigor, sequer poderia ser frequentada. Imaginar que esta escola tão inepta seja um front ideológico que faz tremer o país é paranoia.

Setores da direita brasileira se preocupam sempre com “doutrinação” na escola, ou em geral com o “aparelhamento” do Estado. Embora muitos apostem em efeitos transformadores da educação – em geral na esteira de Paulo Freire – o discurso dominante em educação sempre foi “conservador”: a escola serve para “socializar” as pessoas, alinhá-las às expectativas sistêmicas dominantes. A escola sempre é “doutrinadora”, porque doutrinar faz parte de educar. Simples assim. Pais doutrinam seus filhos, uns mais, outros menos. Cumpre a eles “impor” limites ao comportamento dos filhos, porque filho sem limites não só incomoda a todo o mundo, sobretudo impede seu desenvolvimento em sociedade. Todos os processos formativos implicam componentes doutrinadores que advêm da influência que os adultos exercem sobre as crianças/adolescentes. Pensa-se, porém, que pode existir uma escola “sem partido”, ignorando, desde logo, que esta hipótese é produto de gente que esconde seu partido. Imagina-se que possa existir uma pessoa “neutra”, “objetiva”, sem valorações, preferência, história e cultura, socialização prévia, ideologia etc.

Podemos reclamar que o IPEA foi “aparelhado”, porque, ao invés de ser um tipo de “consciência crítica do Estado”, virou lacaio/defensor do governo… Nem tanto, mas assomava às vezes o fervor de alguns técnicos na defesa do governo. Contudo, há que refletir sobre o que seria uma escola pública que correspondesse ao que os pobres precisam. Relembrando Paulo Freire – pedagogia da autonomia – dos tempos em que o via conversando com Darcy Ribeiro nas reuniões do Conselho dos CIEPs no Rio de Janeiro, dizia ele, mais ou menos: Se quisermos contribuir para a emancipação dos mais pobres, cumpre, primeiro, não oferecer ao pobre uma escola pobre, pois o vai empobrecer mais ainda; segundo, não basta a mesma escola, porque ignora-se o atraso lancinante dos mais pobres; terceiro, precisa-se de uma escola muito superior, que se via na Escola de Tempo Integral (hoje se diz Escola Integral).

Verdades são relativas e podem ser reinventadas. Podemos nos reengenheirar, transformamos as condições dadas e assim por diante. Esta ambiguidade está em nossa alma, como reconhecia Paulo Freire: o liberto de hoje pode ser o opressor de amanhã; basta que chegue ao poder! Autocrítica é a santidade do crítico. Assim, como não conseguimos extirpar o doutrinador que habita em nós, podemos fazê-lo autocrítico. É o professor de que precisamos na escola: crítico autocrítico, entre outras coisas para que saiba controlar suas doutrinações, privilegiando a liberdade de expressão do estudante. Escola sem partido, se existisse, seria de professores “eunucos”, no sentido de docentes sem sabor, lado, posição, castrados.

Professor interessante é o vibrante, definido e aberto, marcante e receptivo, capaz de “ensinar” porque sabe, mais que tudo, “aprender”. Não se enrola na arapuca de quem acha poder discutir ideologia sem ideologia, como querem muitos da direita e também da esquerda. Quando ideólogos são os outros, ideologia comanda e perverte a cena; não há mais autoridade do argumento, mas argumento de autoridade. Ideologia se combate com ideologia contrária, não com falta de ideologia. O que está em jogo é aquela que mais sabe usar a autoridade do argumento, sempre aberto, inconcluso.

Se fosse apenas para repassar conteúdo, bastaria a web – aí está tudo. O professor interessante é aquele que questiona tudo, o conhecimento passado, o vigente, todo conhecimento possível, sobretudo questiona-se a si mesmo por pura coerência, instiga uma ágora de divergências civilizadas que promovem a reestruturação mental continuada. Não por falta de partido, mas por ter partido argumentado, discutível, reformulável. Quando vai à prática, assume posição definida – por exemplo, engaja-se no PT. Mas sua cátedra não é do PT, é da autoridade do argumento.

Professor que não chega a ser “exemplo de vida” também não será bom cientista, porque ciência acrítica está entre os males mais contundentes do eurocentrismo: colonizadora, prepotente, destrutiva, insustentável. Quando substitui religião, é pior que esta (em seus lados negativos). Escola sem partido é “religiosa” às avessas, evangelizadora sonsa, vivaldina. Liberdade de expressão significa, enfaticamente, a convivência de divergências instigantes e formativas, de colegas que vivem juntos como autores, não papagaios, de oportunidades variadas e dissonantes, que possam preencher expectativas tão diversas dos estudantes.

Para muitos “a verdade” da escola é “aula”, só. Havendo aula, aconteceu a escola; tanto assim que, na greve, suprime-se aula, só, pois imagina-se que escola sem aula, morreu. Para alguns, aula é instrumentação didática totalmente secundária, dispensável ao final, porque aprendizagem não ocorre na aula, mas na mente do estudante, se estudar. Ou seja: a participação dele é a chave; professor, mesmo tão relevante, é mediação.  Aprendizagem não pode ser causada de fora, é preciso ser forjada de dentro, tendo o estudante no centro das atenções e dependendo de atividades de aprendizagem (estudar, ler, pesquisar, elaborar…), não de ensino.

Não tenho nenhum interesse aqui em proclamar algum “ismo” (construcionismo, construtivismo…), porque toda teoria é um aporte, por mais importante que seja e esteja sob constante revisão. O que interessa são propostas que estejam voltadas para a aprendizagem autoral do estudante, deixando para o professor inteira liberdade de teorizar, desde que o estudante aprenda bem. Aprendizagem é dinâmica tipicamente aberta, sempre inconclusa, dura a vida toda, em perene autorrenovação. A escola que temos é o contrário disso: gira em torno de currículos fixos, retrógrados, inertes, sendo seu repasse a alma do negócio, quando o século XXI pede autores, cientistas, pesquisadores em constante autorrenovação. A verdade da escola é aula, prova, repasse – coisas do arco da velha. Vemos, porém, que aprender é metamorfose sem fim, não começa, nem acaba, uma abertura incondicional para a vida, feita de motivação intrínseca, descoberta, sobretudo autoria. Esta não se completa, sempre se agita, constrói-se, desconstrói-se, reconstrói-se. Sua verdade é uma construção inacabada.

Pessoas educadas são abertas, continuam aprendendo, mudam durante a vida sem parar, continuam perguntando, duvidando, superando-se. Qual seria sua verdade? A escola faria melhor se fosse uma instigação sistemática para uma vida criativa, ousada, atrevida, não como cemitério da aula.

Pessoas educadas preferem a autoridade do argumento, porque inclui a contra-argumentação e os divergentes, dos quais aprendemos sempre mais do que dos puxa-sacos. Num sentido bem prático, pessoas educadas evitam falar de verdade, porque esta petrifica a relação, dividindo logo em dicotomias abjetas que não giram em torno do que pretensamente se pensa ser a verdade, mas em torno do dono da verdade. Nada é mais mentiroso que proclamar “a verdade”, única, eterna. É golpe.

Cada qual modula verdade a seu modo, o que também garante que mantemos alguma referência a parâmetros mais duradouros que fazem parte da vida, que podemos chamar de ética. Quando dizemos que perdemos de vista os valores na escola, podemos indicar um problema real, no sentido de estarmos perdendo o compromisso “formativo”; mas podemos também esconder ideologias sub-reptícias fundamentalistas, como se alguém soubesse o que é melhor para os outros. Verdade como meleca é melhor do que como tijolo.

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  • Pedro Demo
    Pedro Demo

    Pedro Demo é professor aposentado e emérito da Universidade de Brasília, Departamento de Sociologia. Tem doutorado na Alemanha (1971) e pós-doutorado na UCLA/Los Angeles (1999-2000). Tem colaborado com Estados e municípios em programas de formação permanente de professores, dentro da máxima de que o estudante aprende bem com professor que aprende bem. Autor de mais de 90 livros, grande parte sobre sociologia da educação.