4 de maio de 2020

Adoção forçada da tecnologia durante a pandemia: desatino ou oportunidade?

por GEN.N&G

Para responder às perguntas enviadas na Live no Instagram de 23 de abril, intitulada “Adoção forçada da tecnologia durante a pandemia: desatino ou oportunidade?” pelo perfil do  gen_negociosegestao, utilizamos como base o capítulo 4, Tecnologias educacionais, do livro Revolucionando a docência universitária: orientações, experiências e teorias para a prática docente em negócios, que foi disponibilizado pela editora para todas as pessoas que se inscreveram. Complementamos essa referência com nossas experiências e vivências docentes e com leituras complementares e reflexões sobre esse período de isolamento e de transição em face da pandemia do Covid-19 e de seus impactos na docência e no ensino universitário.

Adoção forçada da tecnologia durante a pandemia: desatino ou oportunidade? – Assista à live!

 

As perguntas foram respondidas pelos professores que participaram da Live, Gilberto José Miranda e Edvalda Araujo, da Universidade Federal de Uberlândia, Daniel Ramos Nogueira, da Universidade Estadual de Londrina, e Silvia Casa Nova, da Universidade de São Paulo.

1) Que referência podemos usar para o “ensino remoto” citada pela prof. Edvalda?
2) barbaratobaldini: Que referenciais me ajudam a diferenciar ensino remoto, ensino semipresencial e ensino online?
3) barbaratobaldini: Gostaria de saber a referência para o ensino remoto. Que autores?

Cara Barbara, o termo “ensino remoto emergencial” diferencia-se da modalidade de Educação à Distância. Tal modalidade requer uma estrutura e estratégias pedagógicas planejadas, avaliações previstas, apoio de uma equipe (incluindo tutores).

O ensino remoto foi proposto para atender uma emergência, no caso a pandemia da Covid-19. Internacionalmente, vários estudiosos já discutem as diferenças do EaD e outras modalidades de ensino. Com o apoio do colega Vitor Nasu, doutorando em Contabilidade da FEA/USP, seguem algumas referências, incluindo textos e artigos que tratam do tema Remote & mobile learning:

Artigos acadêmicos que podem ajudar a diferenciar o Ensino a Distância (EaD) de outras modalidades de ensino remotas:

Remote & mobile learning:

Professora Edvalda

4) celiaamgarcia: Vamos precisar utilizar o Team para aulas online.Minha preocupação é com os alunos que não vão conseguir acessar essas aulas, por falta de estrutura. O que fazer com eles?

Celia, tenho a mesma preocupação que você, de não excluirmos pessoas por conta de problemas de estrutura, acesso à internet. Temos que buscar formas de incluir todos e todas independente dos recursos que tenham. No capítulo em referência, essa preocupação está discutida na Figura 1, adaptada de Zhu e Kaplan (2006), em que descreve-se algumas das preocupações ao planejar o ensino com tecnologia, do ponto de vista dos estudantes, entre as quais, nível de habilidade tecnológica, acesso à tecnologia, e estilos de aprendizagem.

Assim, no meu caso, na disciplina que ministro na USP, o eu que fiz foi gravar as aulas e disponibilizar para que todos os estudantes as assistam. As aulas, então, estão organizadas em um momento prévio, com indicação de material de leitura e de vídeos e outras referências, com base em uma pergunta direcionadora. Temos o momento da aula síncrona, que é pelo Zoom, no dia e horário em que estava prevista a nossa aula presencial. Mas, essa aula também é gravada e disponibilizada posteriormente no ambiente virtual de aprendizagem (AVA), que no nosso caso é o Moodle.

No momento pós-aula, criamos um fórum para que as pessoas respondam àquela pergunta direcionadora, e para que interajam entre si. Esse fórum é moderado e mais recentemente estamos tentando adotar a prática recomendada de encerrar o módulo.

Assim, tentamos, com esse plano de aula, dar a possibilidade de participação a todos e todas independente de recursos que tenham acesso. Esclareço que o Moodle é acessível mesmo pelo celular. Ou seja, ao disponibilizar a aula gravada no AVA a intenção é que mesmo quem não tenha, por qualquer razão, acesso a um computador ou à internet, possa fazê-lo do celular.

Também na transição da disciplina, colocamos no ar um formulário com questões para mapearmos as possibilidades e limitações, de forma a entendermos as necessidades dos estudantes. A faculdade fez o mesmo, levantou limitações, com apoio do órgão de representação discente, e chegou a um número muito pequeno de pessoas sem acesso à internet. Pequeno mas, mesmo assim, preocupante, porque penso como você, que ninguém deve ser excluído em uma mudança no contrato pedagógico que não estava prevista.

Professora Silvia

5) gicamiletti: Como criar o vínculo com o aluno tendo em vista que muitas aulas são como “salas vazias”?
6) rafaella_cardosoribeiro: Como engajar os alunos nas aulas remotas online?
8) paula_pc: Como buscar a confiança do aluno nas aulas digitais?
16) titameloo: Atividade em grupo em sido um desafio, pois alunos tiveram pouco contato presencial e não conseguiram criar laços. Como estimular essa interação para construir uma aprendizagem?

O vínculo é criado e reconstruído a cada encontro. Por isso a importância do encontro e a relevância de termos perdido essa possibilidade do encontro. Temos que reinventar esse encontro, agora no contexto do isolamento social, para continuarmos a alimentar o vínculo.

Muitas universidades federais decidiram suspender o calendário escolar para analisar possibilidades e não fazer uma transição precária. Outras instituições optaram por uma transição mais rápida, buscando soluções disponíveis para levar as aulas para o ambiente online. Instituições que já tinham cursos online, utilizaram essa experiência na transição dos cursos presenciais para o ambiente online. Não houve uma receita pronta, cada solução teve que considerar o contexto, a estrutura, a formação do corpo docente, as condições e necessidades do corpo discente.

No meu caso, minha instituição optou por adotar como solução o Zoom e recomendou que os professores tentassem manter os dias e horários das aulas. Ou seja, adotamos uma transição rápida, com apoio de uma solução tecnológica única. Foram feitas formações rápidas com grupos de professores, diretamente com o provedor da solução. Vídeos e manuais rápidos foram disponibilizados. Mas, a verdade, é que houve uma mudança do o contrato pedagógica e dependeu de cada professor como informar, efetivar e conduzir essa negociação. Os relatos até aqui dos professores são de que os estudantes compreenderam a necessidade da mudança e se adaptaram ao novo ambiente.

No caso específico da minha turma, desde a primeira aula no ambiente online, temos reunido cerca de 26 estudantes que era o grupo que tínhamos participando das aulas presenciais. Para manter e alimentar o vínculo e engajar os estudantes, temos enviado mais frequentemente mensagens tem sido mensagens mais detalhadas, para mantermos o contato. Enviamos na forma de Avisos, via Ambiente Virtual de Aprendizagem, em um Fórum Geral que mantemos no ambiente da disciplina, para que as mensagens fiquem registradas e possam ser consultadas a qualquer momento. Assim, estudantes que tiveram dificuldades e querem retomar o curso, podem fazê-lo.

Para que os estudantes se sintam confiantes no ambiente da aula online, nas primeiras sessões, iniciamos a aula mais cedo para apresentar o ambiente. A cada pessoa que entrava no ambiente, cumprimentávamos e descrevíamos brevemente o ambiente os recursos. Também criamos um padrão de etiqueta, como entrar no ambiente com o microfone no mudo, preferencialmente usar a caixa de diálogo para dúvidas e perguntas, se inscrever para falar, regras simples mas que dão mais segurança sobre como se comportar nesse ambiente.

Fizemos uma transição de ferramentas: (1) primeiro gravamos a aula e disponibilizamos no ambiente de aprendizagem virtual que já era conhecido dos estudantes; (2) depois utilizamos o Google Meet para um primeira aula síncrona e, novamente gravamos, para disponibilizar para pessoas que não pudessem participar; (3) Depois, utilizamos o Zoom e informamos que esse era a solução adotada pela instituição, mas que se sentissem mais confortáveis com alguma das outras experimentadas, poderíamos retomar. Ou seja, intuitivamente, tentamos caminhar para a solução e a dinâmica que trouxe mais conforto.

Para os trabalhos em grupo, na última aula retomamos as discussões orientadas por grupo em que um grupo de estudantes lidera a discussão de um artigo escolhido pelo grupo. O grupo esteve bem coordenado e trouxe reflexões importantes além de se mostrar bem entrosado e à vontade com o ambiente online, subindo uma apresentação, passando a palavra, interagindo. Na próxima aula, desenhamos uma dinâmica em que os grupos se reunirão em pequenos grupos durante a aula, para discutir a apresentação da especialista convidada e pensar em perguntas que serão feitas agora à viva voz, com áudio e vídeo, por um representante do grupo. Assim, temos a intenção de aumentar a interação e o contato pessoal. Gravamos um vídeo e colocamos no AVA para explicar essa nova dinâmica. Vamos ver como ela acontece na prática. Depois eu te conto, titameloo.

Mas, ainda sim, confesso que sinto muito falta do encontro, do olho no olho.

Professora Silvia

7) gramuvet: Me parece que teremos que inventar uma alternativa ao EaD, pois não teremos como cumprir o protocolo do MEC para o EaD ?

Compreendo que assim como no ensino presencial, em que foram adotadas estratégias para manterem o ensino ativo com o apoio de tecnologias educacionais, considerando o cenário emergencial. Na modalidade EaD as atividades continuam com algumas adaptações no planejamento e esperamos que os gestores educacionais formalizem diretrizes padronizadas para a educação, envolvendo as diversas modalidades.

Professora Edvalda

9) titameloo: O aluno que não se adequa e abraça terá enormes prejuízos na aprendizagem. Quais dicas para ajudar a superar isso?

É importante detectar logo esses casos e tentar fazer contato para que eles sintam que fazem parte, que são importantes, que não estão sendo abandonados. Pode ser que as dificuldades enfrentadas por eles e elas não estejam sendo percebidas pelo docente. Muitas vezes são coisas simples que podem ser superadas rapidamente.

Professor Gilberto

No caso da experiência da FEAUSP, uma preocupação em escolher a ferramenta tecnológica foi acesso. Em uma das primeiras reuniões com o Comitê de Crise criado pela diretoria, uma das questões levantadas para a escolha foi o fato de que o Zoom poderia ser acessado de um telefone e mesmo de um telefone público. Assim, se a dificuldade for de recurso, esse ponto poderia ser superado.

Se a questão for de estilo ou de personalidade, por exemplo uma pessoa mais introvertida ou avessa à tecnologia, penso que preparar atividades de aprendizagem diversas pode ajudar. Um exemplo, na disciplina, que ministro é que temos pedido participações escritas no Fórum e envio de reflexões sobre experiências pessoais como parte da avaliação da disciplina. Ou seja, atividades que já estavam prevista em nosso contrato pedagógico foram mantidas, para que os estudantes pudessem se sentir mais seguros em prosseguir. Outro ponto que me referi no texto preparatório da Live é da importância da tecnologia do afeto. Um dos papéis de professores e professoras nesse momento é de acolhimento. O foco no conteúdo, no cumprimento do programa da disciplina, não é o mais importante agora. Todos e todas estamos angustiados, com medo, ansiosos. Penso que é momento de acolhermos esses sentimentos e focarmos no domínio afetivo da Taxonomia de Bloom, que o professor Daniel fez referência, enfatizando atenção, integridade, empatia e valorização.

Professora Silvia

10) marliauxiliadorasilva8074: Preocupa-me também a inclusão de pessoas com deficiência. Nós, docentes, temos condições de preparar material para promover essa inclusão?

Marli, você tem razão. É importante salientar que a Lei 13.409/2016
(http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/L13409.htm) passou a garantir parte das cotas de acesso às instituições federais de ensino superior. Com isso a quantidade de estudantes com deficiências diversas tem aumentado bastante nos últimos anos.

Para atender aos alunos com deficiência, em alguns casos, são necessários recursos especiais, mesmo no ensino presencial. No ensino a distância será necessário adequar tais recursos a esta modalidade. É verdade que a tecnologia pode, em certas circunstâncias, ampliar possibilidades.

Mas, neste primeiro momento, as dificuldades para viabilizar o ensino e disponibilizar materiais a esse público serão maiores.

Professor Gilberto

Um ponto que queria realçar nessa transição para o ensino remoto emergencial são as possibilidades de inclusão trazidas pela adoção da tecnologia. Vou citar um exemplo: os vídeos no YouTube, a possibilidade de usarmos as legendas, por vezes geradas automaticamente. Algumas das ferramentas de interação por vídeo-conferência também trazem essa possibilidade, como o Zoom, integrando possibilidades de closed caption para a geração de legendas. O mais importante é o professor e a instituição levantarem no corpo discente pessoas portadoras de necessidades especiais e disponibilizarem os recursos necessários para a inclusão.

Deixo aqui, para referência, um link para os recursos de acessibilidade do Zoom: https://zoom.us/pt-pt/accessibility.html.

Professora Silvia

11) correiagoncalvesjose: Pergunta: Quais tecnologias os professores podem usar hoje?

Temos inúmeros ferramentais tecnológicos. Mas, ressaltamos novamente, é importante não perder de vista os objetivos educacionais dentro de cada disciplina. Uma vez que os objetivos estejam bem definidos. Aí, então, podemos começar a pensar em quais ferramentais utilizar, com quais objetivos, com que justificativas. Envio aqui uma lista de sugestões, não exaustiva. Mas, lembro existem outras inúmeras opções e convido a compartilharem as suas sugestões e experiências conosco:

1) Ambiente Virtual de Aprendizagem: Acho que começa pela organização do conteúdo, pode usar o Moodle (caso a instituição tenha) ou pode usar o Google Classroom (classroom.google.com) que também é gratuito.

2) Aulas online: Para os encontros síncronos temos:

2.1) Zoom: https://www.zoom.us/
2.2) Google Meet: https://meet.google.com/?authuser=1
2.3) Microsoft Teams: https://www.microsoft.com/pt-br/microsoft-365/microsoft-teams/free

3) Outros recursos:

3.1) Kahoot – Quiz ao vivo na aula ou então de forma assíncrona como tarefa –https://kahoot.com/schools-u/

Vídeo sobre como usar o Kahoot – https://www.youtube.com/watch?v=SDHUetQ0mVs

3.2) Edpuzzle – Incluir quiz no vídeo. Assim o estudante pode assistir o vídeo e ir respondendo questões durante o vídeo – https://edpuzzle.com/

3.3) Poll Everywhere – Permite incluir Quiz e perguntas nos slides, assim os estudantes acessam um link, respondem e o docente recebe de imediato o feedback no slide – https://www.polleverywhere.com/

Professor Daniel

12) edileusa_godoi: A questão para a reflexão é: o que nós docentes podemos fazer por meio da tecnologia que ainda não fizemos? Muitas fichas caem!!

Olá Edileusa, concordo! Acho que essa reflexão é muito importante. Precisamos (re)pensar sobre quais recursos temos a disposição agora (online) e não tínhamos na sala de aula presencial. A internet nos abrirá uma série de novos recursos e acessos. Poderemos acessar relatórios contábeis das empresas no momento da aula e pedir que os estudantes acessem outros para atividade, preço da ação na bolsa de valores, relatórios e matérias publicadas em jornais etc. Isso dará uma nova dinâmica na aula. Poderemos também incluir visitas guiadas, gamificação etc. Podemos convidar a participação de especialistas e solicitar a interlocução dos estudantes, com a disponibilização de materiais de preparação prévia, fazendo uma curadoria do que temos disponível na internet.

Cabe a nós nos reinventarmos e utilizarmos a criatividade.

Complementando entendo que os docentes precisam vencer a resistência ao uso de tecnologias educacionais no planejamento de suas aulas. Para isso, precisaremos nos capacitar e buscar desenvolver tais competências. Também precisamos ousar, tentar, avaliar a tentativa e tentar novamente.

Professor Daniel

13) raycamila_: O que vocês acham das aulas online no stricto sensu?

Por força da crise, mais da metade dos PPGs na área contábil estão com aulas à distância. É uma realidade nova, diferente do que tínhamos até então. Os métodos estão sendo adaptados, as discussões estão sendo feitas à distância… Não sabemos exatamente como ficará após a crise. Mas muitas mudanças, muitos avanços, muitas experiências vieram para ficar. Haverá, de fato, um “novo normal”.

Professor Gilberto

Compreendo que são novos desafios tanto para os docentes quanto para os discentes, mas que gerará muito aprendizado.

Na instituição que trabalho as aulas foram suspensas, confesso que gera uma certa ansiedade em aguardar…. o que tenho feito é agendar reuniões periódicas (on line) com os orientandos para a continuidade de suas pesquisas. Percebo que alguns discentes aumentam a produtividade, considerando um momento mais calmo, com menos atividades e outros estão lentos, parecem desanimados e atrapalha um pouco o rendimento. Tenho tentado buscar um equilíbrio nas orientações, propondo novas possibilidades, mas sempre atenta aos limites de cada um. O importante é tentar motivá-los continuar, buscar novas oportunidades em suas pesquisas…. tudo vai passar e com certeza teremos muito aprendizado.

Professora Edvalda

No caso da Universidade de São Paulo, houve um incentivo de que se adotassem medidas para manutenção das atividades de ensino, utilizando os recursos disponibilizados institucionalmente pela universidade e outros que se fizeram disponíveis pelas unidades, dentro de seus contextos específicos. No caso da Universidade, desde há algum tempo, temos disponível o Moodle, como ambiente virtual de aprendizagem, e o GoogleSuite, com acesso ao Google Sala de Aula, por exemplo, e ao Google Meet.

Assim, a Pró-Reitoria de Pós-Graduação se manifestou formalmente, para toda a comunidade, buscando incentivar discentes, docentes e coordenadores de programas a dar continuidade em suas atividades de ensino com a adoção da tecnologia.

De parte dos colegas da FEA, tenho ouvido que as aulas têm caminhado bem, que houve uma rápida adaptação.

No entanto, acompanhando as discussões levantadas pelo projeto Parent in Science, que os convido a conhecer, sabemos que a condição de trabalho remoto no momento não é igual para todas as pessoas, sejam elas docentes ou discentes. Trago aqui as reflexões que a iniciativa têm levantado:

Estamos vivendo um cenário completamente atípico. Trabalho remoto, atividades EAD, cuidados com a casa, com os filhos e outros familiares, isolamento. Tudo isto está modificando a maneira como vivemos, como trabalhamos. Mas como? Quais as limitações dentro do cenário científico? Existem grupos que estão sendo mais afetados? Podemos planejar ações a curto e longo prazos? Precisamos, urgentemente, entender os impactos da pandemia na vida acadêmica dos cientistas para podermos agir antes que os efeitos tornem-se maiores e mais duradouros.

Infelizmente, não acho que as instituições, quaisquer que sejam elas, estejam atentas esse problema. Cuidadores e cuidadoras de ascendentes e descendentes são mais afetados por esse cenário de pandemia. Sabemos que esse papel de cuidado, em nossa sociedade, historicamente, tem sido atribuído às mulheres. Ou seja, e esse é o meu ponto, em um cenário de normalidade, esse papel social de gênero já trazia impactos na carreira acadêmica das mulheres e das pessoas envolvidas com o cuidado. No cenário da pandemia, essa carga aumenta, considerando desde a necessidade de fazer as compras e levar para nossos pais e mães, acompanhar filhos e filhas nas atividades escolares agora em casa, e preparar e ministrar aulas (no caso de docentes) ou de se preparar para acompanhar e participar das aulas (no caso de discentes). Para apoiar essa reflexão, que devemos todos fazer ao pensar em aulas online na pós-graduação, trago um trecho de um artigo recentemente publicado pelas professoras Marcia Barbosa e Fernanda Stanisçuaski,

Além das Marcia’s e das Fernanda’s na vida acadêmica existem as pessoas que precisam cuidar de idosos e certamente estão ocupados com a produção deste apoio neste momento. Neste mundo universitário há também outros personagens mais jovens, os estudantes de pós-graduação. Estes vivem preocupados, sem nenhuma garantia que o período de suas bolsas será ampliado.

Diferentemente dos estudantes de Marcia que podem fazer o trabalho remoto, a maioria das áreas científicas se alicerçam na realização de experimentos, entrevistas e testes. Todas estas atividades, frente ao confinamento, foram canceladas. Como esperar produção científica destes estudantes sem os meios para produzir?

Parece lógico que, neste momento crítico, não podemos esperar que todos dentro de suas diversidades de responsabilidades e características de suas atividades, tenham a mesma produtividade. As instituições estão se confrontando com o problema de como avaliar o trabalho remoto de diferentes profissionais. Seria um absurdo punir um(a) profissional por não manter a ritmo agora, pois cada um tem uma demanda familiar diversa. No entanto, quando na ausência de crise, é justamente isto que as instituições fazem: usam a mesma régua de avaliação de produtividade para todo mundo. Uma régua, construída por aqueles como Marcia que tem maior disponibilidade. Esta régua prejudica as mulheres e particularmente as mulheres com filhos. No Brasil sem corona, as mulheres já trabalhavam em média 10 h por semana a mais do que os homens nas atividades domésticas e de cuidado [1]. Este trabalho nunca foi contabilizado ao se selecionar, promover e apoiar uma profissional.

Como resultado desta avaliação que não leva em conta as diferenças de cargas, mulheres com filhos tem uma evolução salarial pior do que as mulheres sem filhos [2]. Notem que em média o salário das mulheres é mais baixo que o dos homens para a mesma atividade, portanto as mulheres com filhos são ainda mais penalizadas [3]. No meio científico, o grupo Parent in Science mostrou que logo após a maternidade a produção de artigos das mulheres diminui o que acarreta uma exclusão destas pesquisadoras da maratona científica [4].

Nesse momento de exceção, talvez tenhamos uma oportunidade de (re)pensar esse problemas estruturais que nossa academia enfrenta, em um momento que ela demonstra sua imensa capacidade de enfrentar crises, para que possa assegurar a participação de todos os talentos, de uma forma mais justa.

Aproveito ainda para convidar pós-graduandos e pós-graduandas e docentes de pós-graduação, e cientistas a responder às consulta do projeto Parent in Science.

Link para sítio na Internet do projeto Parent in Science: https://www.parentinscience.com
Link para o artigo Mães na ciência – da pandemia ao pandemônio: https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/maes-na-ciencia-da-pandemia-ao-pandemonio.html

Professora Silvia

14) ladice.almeida.lc: Esse discurso que os alunos não possuem suporte para as aulas não deveria ser combatido com os recursos disponíveis nas IFES ou com parcerias? Democratizar também é incluir o aluno nas ações digitais?
15) celiaamgarcia: Volto a perguntar e os alunos sem acesso, sem estrutura? Lembrando que os recursos de laboratórios das faculdades estão fechados.

Muitas instituições de ensino públicas suspenderam as aulas devido a falta de acesso de um percentual significativo de alunos à tecnologia e internet. A crise reforça a necessidade de atuação dos gestores educacionais para maiores investimentos na educação, principalmente para o combate à desigualdade social.

Professora Edvalda

As instituições têm feito levantamento e ações para inclusão, e isso deve ser feito! É uma ação institucional necessária. Dou alguns exemplos, a professora Beth Vendramin, da UFMS, fez referência em nossa primeira live a um plano lançado pela instituição para acesso organizado aos laboratórios. A USP, por sua vez, buscou assegurar o acesso à internet para estudantes, a começar por aqueles e aquelas que estão na moradia estudantil. Aqui, é importante lembrar que a responsabilidade é da instituição e de políticas públicas mais amplas e coordenadas e que é difícil para o professor assegurar essas condições. Vale levantar ações de algumas instituições e avaliar as possibilidades, em um momento de recursos escassos para as instituições em geral.

Professora Silvia

17) andrepbatista1: Prof. Silvia: Existem disciplinas mais adaptáveis que outras para o ensino à distância?
18) jtarocco: Qual disciplina de contabilidade vocês acham que é o maior desafia em aulas online?

André, o que percebemos é o recurso tecnológico-pedagógico a ser utilizado deve levar em consideração o formato e conteúdo das disciplinas, o professor deve refletir sobre as possibilidades e limites, para que, na prática, faça escolhas conscientes sobre o uso de tais recursos. Os recursos tecnológicos educacionais atendem distintos fins, o professor precisa escolher aquele que seja o mais apropriado para a disciplina e que seja consistente com o objetivo educacional proposto.

Professora Edvalda

Recorrentemente, as disciplinas que exigem laboratórios ou demonstrações práticas são as que são mais lembradas como menos adaptáveis para o ensino à distância. Temos até brincadeiras perguntando quem gostaria de ser atendido por um médico ou uma médica que tivesse toda a sua formação online. Assim, por exemplo, a residência médica é necessariamente um momento de formação que exige a interação presencial entre médicos e desses com os pacientes. No entanto, aí vem uma pandemia, e a telemedicina se faz imensamente importante, quase essencial.

Ou seja, podemos ver que essa pandemia está mesmo nos permitindo rever as nossas barreiras de adoção da tecnologia. Hoje, assistimos a diversas ações de médicos, muitas voluntárias, em que eles têm disponibilizado consultas online para esclarecimento de dúvidas e acompanhamento de casos, garantindo a tranquilidade em um momento em que a recomendação é que as pessoas só busquem atendimento presencial em caso de agravamento do quadro. Assim, volto a dizer, podemos estar assistindo a uma expansão das possibilidades e de revisão de resistências à educação a distância.

Reforço sempre a importância da adoção da tecnologia ser planejada, coerente com os objetivos de aprendizagem e com os recursos disponíveis a discentes e docentes, e respeitosa no sentido dos estilos de aprendizagem e da valorização das formas de interação entre ensinantes e aprendentes.

Professora Silvia

A Educação a Distância vem suportando cursos de Administração e Ciências Contábeis já há alguns anos no Brasil e no exterior. Então, há indícios que a maior parte das disciplinas pode ser lecionada online. Contudo, devemos lembrar que existem diversos contextos de ensino e o(a) professor(a) é quem melhor conhece a disciplina e seu público discente (questões de acesso a recursos, domínio dos conteúdos necessários à disciplina etc.). Então, eu acredito que o(a) docente terá a sensibilidade necessária para poder selecionar os conteúdos/disciplinas que são mais aconselháveis migrar para o online.

Professor Daniel

19) daniportilho: Professoras, no ensino fundamental observo que se a escola tem uma linha mais tradicional/conteudista ela reproduz o mesmo modelo no EAD. Ou seja, a modalidade deixa de ser o protagonista…

Isso pode acontecer, como discutimos na live, alguns docentes estão trabalhando no online como fariam no presencial, apenas transportando a aula expositiva presencial para o online. Mas temos que entender que não houve também um treinamento prévio, então é natural que se repliquem os modelos já conhecidos e que se tenha confiança. No ensino presencial temos ainda uma predominância de modelos tradicionais de ensino (segundo as pesquisas), então é natural que a mudança para o online essas práticas continuem.

E não podemos culpar o professor, afinal, não houve um período de qualificação, de treinamento, foi apenas uma migração forçada. Após passado esse choque inicial da mudança talvez seja o momento para se estruturar os treinamentos (sobre metodologias ativas e ferramentas digitais) e organizar a qualificação/treinamento dos docentes.

Professor Daniel

20) lixologospelomundo: E quanto a questão de segurança de dados do Zoom??

O Zoom tem disponibilizado informações sobre as melhorias que têm implementado e aquelas que ainda serão implementadas. A empresa iniciou um projeto para dedicar os próximos 90 dias para as questões de segurança, sinalizando que está trabalhando para solucionar os problemas ocorridos. Vale a pena ir acompanhando pelo Blog do Zoom e verificar as novidades neste quesito.
https://blog.zoom.us/?_ga=2.129990924.1080092230.1587681587-597092959.1585683623

Professor Daniel

Veja também informações importantes sobre como manter a segurança no ambiente do Zoom:
https://teachingandlearningtoolbox.wordpress.com/

Professora Edvalda

21) daniportilhovejo: que é momento de avaliar a educação e a relação ensino-aprendizagem. O que acham disso?

Me parece um bom momento para esta avaliação em várias perspectivas. Vou focar na formação docente. Os saberes necessários à docência são vários (saberes didático-pedagógicos, saberes relativos ao conteúdo, saberes da experiência, saberes relacionados à tecnologia, etc.). Em outras palavras, não basta ao professor dominar o conteúdo específico, das matérias que leciona, para realizar o processo de ensino-aprendizagem. Situações de crise, situações inesperadas como esta que estamos vivendo, mostram que o preparo do professor para exercício da docência pode ser o diferencial para sua atuação nesse momento. Ou seja, a mediação do conhecimento mudou (durante a crise), mas não podemos esquecer que os propósitos a serem alcançados prevalecem: construção do conhecimento, desenvolvimento de habilidades e atitudes.

Professor Gilberto

Vou deixar aqui o link para a tese de Gilberto José Miranda, que discute a qualificação docente. Vale a consulta!

Link para a tese de Gilberto José Miranda: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12136/tde-16032012-190355/pt-br.php

22) bemax12kmCom: relação ao tempo da aula online, há alguma orientação??

O tempo da aula normalmente visa cumprir a carga horária estabelecida no curso. O que o docente poderá monitorar são as atividades neste “tempo”, incluir métodos diferentes que promovam a interação do estudante nas aulas. Uma aula expositiva (sem interação) com o tempo muito longo, provavelmente (como no presencial) gerará a dispersão dos estudantes, principalmente com aulas virtuais. Teremos que ser criativos com os métodos, mas sempre atentos aos nossos objetivos pedagógicos.

Professora Edvalda

Bemax12kmCom, no material preparatório da live, eu contei da experiência do professor Sandro Soares Vieira, que tem resolvido exercícios nas aulas onlines com o apoio de um quadro branco, como faria nas aulas presenciais. Ele me contou que as aulas chegam a durar três horas e que o retorno dos estudantes tem sido positivo.

De minha parte, tenho seguido o conselho do professor Daniel, e planejado diferentes momentos na aula, com métodos diferentes. Assim, as aulas online tem tido a mesma duração que teriam as aulas presenciais. Temos começado às 9h da noite, com certa antecipação ao horário oficial, que é 9h20, para que as pessoas possam ir se juntando aos poucos, chegando com calma. Nesse período inicial, costumo dar avisos, repassar a etiqueta do ambiente online, falar das atividades previstas para esse encontro e para os próximos. E temos concluído as aulas, em geral com um pequeno atraso, por volta das 11h20. Peço que dê uma olhada na resposta às perguntas 5, 6, 8 e 16 em que detalho todos os momentos da aula.

Em geral, mesmo nas aulas presenciais, as pesquisas mostram a necessidades de atividades diversificadas para manter a atenção. Então, em aulas mais longas é preciso prever blocos menores e trabalhar com transições. No modelo online, isso é ainda mais importante.

Professora Silvia

23) alessandramarques1909: Como resolver esses problemas técnicos nas aulas on-line?

Olá, Alessandra, infelizmente problemas com internet vão ocorrer. O importante é mantermos a calma e procurarmos deixar o estudante avisado que pode acontecer da internet oscilar durante a transmissão online, mas basta aguardar alguns segundos e tudo será normalizado (o docente volta para a aula ou o próprio sistema ajustará a velocidade para sincronizar). Outro ponto é avisar para que o discente não deixe a entrega da atividade para próximo da data/hora de fechamento, pois ele pode ter problemas que atrapalhem a entrega (queda de energia, problemas de internet etc.). Então é sempre prudente recomendar a entrega com alguma antecedência.

Professor Daniel

De novo vou citar a professora Beth Vendramin, da UFMS. Ela teve diversos problemas em uma aula online que ministrava, com o sinal da internet, em que o sinal caiu por conta de uma queda de energia, e ela retomou a aula roteando pelo celular, dando a aula no escuro. Ou como o problema como o que tivemos com a participação do professor Gilberto José Miranda, em que tentamos diversas vezes, e que não foi possível. Costumo dizer que para todas as atividades acadêmicas, de ensino, de pesquisa, de extensão, precisamos ter um plano B, um plano C, um plano D. No meu caso, o plano B, com relação às aulas, considerando limitações de estrutura por parte dos estudantes, foram as aulas gravadas.

No caso de queda de sinal, instabilidades, de interrupções, de problemas com áudio e/ou vídeo, aconselho manter a calma, como o professor Daniel ressaltou acima, e tentar novamente, às vezes considerando mudar de ferramenta tecnológica, como por exemplo do Skype para o Zoom, ou do Zoom para o Google Meet. Se nada der certo, recorrer a uma atividade substitutiva por escrito, por exemplo, ou a aulas gravadas.

Chamo aqui a atenção, como colocado no capítulo que disponibilizamos para leitura, que o professor deve se capacitar para o uso da tecnologia. Assim, para que tenhamos possibilidade de lidar com imprevisto, são necessárias ações de formação, com a apresentação e preparação de uso de diversas ferramentas tecnológicas alternativas. Isso aumenta a condição do corpo docente para lidar com problemas técnicos, usando a criatividade e o jogo de cintura, mas sem ter que “reinventar a roda”. Aqui, chamo novamente a importância de aproximar professores que tenham mais familiaridade com os recursos tecnológicos, como o professor Daniel, de professores como eu, que venham de outra geração, sem tanta facilidade com a adoção da tecnologia. Essas parcerias dão muito resultado como ações para promoção da adoção da tecnologia. Isso é demonstrado na tese do Professor Daniel, que deixo indicada no link abaixo.

Para instituições que tenham já a oferta de cursos online, há a possibilidade de aproximar os docentes envolvidos com esse curso, com os professores dos cursos presenciais, em reuniões de compartilhamento de experiências e possibilidades. Reuniões online!

Professora Silvia

Link para a tese de Daniel Ramos Nogueira: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12136/tde-05112014-161527/pt-br.php

Mais conteúdo no livro Revolucionando a Docência Universitária

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