19 de novembro de 2020

A avaliação como sinônimo de prova

por GEN.N&G

Nessa perspectiva da avaliação das aprendizagens, é fundamental a diversificação dos procedimentos e instrumentos de avaliação para que os professores possam ser mais eficazes nas avaliações da aprendizagem dos estudantes.

Os procedimentos e instrumentos, tais como realização de testes e provas, apresentação de seminários, elaboração de redações, resumos de leituras e resenhas críticas, entre outros, são recursos de coletas de dados que possibilitam que os professores executem o processo de avaliação da aprendizagem.

Entretanto, na experiência no ensino superior, observa-se que a prova, que deveria ser uma das possibilidades de coleta de dados ou de exame, tem sido tratada como se fosse um único e poderoso instrumento de avaliação.

Isso fica claro em uma observação do contexto educacional do País, em que a sociedade valoriza as instituições de ensino com altos percentuais de estudantes aprovados em exames, os pais desejam que os seus filhos tenham boas notas para que não sejam represados em determinado ano ou semestre e os estudantes almejam executar somente o que precisa ser realizado para obter notas que sejam suficientes para a aprovação na disciplina e, finalmente, no curso.

Tais concepções estão enraizadas nas premissas do taylorismo, que superaram os contextos empresariais e alcançaram os sistemas educacionais, fazendo que a avaliação fosse realizada de modo descontextualizado e com foco em resultados quantitativos e na classificação, na seleção e na certificação dos estudantes.

A consequência desse contexto é que as instituições de ensino, os professores e os estudantes se preocupam demasiadamente com a nota final e com a classificação em aprovado ou reprovado.

Dessa forma, o importante é a memorização de conteúdos e o treinamento para a resolução de provas (train to test), e não o processo de construção de conhecimentos. Afinal, sob essa ótica, o aprendizado não é o mais relevante. O que realmente importa, nesse cenário, são as notas obtidas, os resultados “objetivos”.

Essa realidade realça o poder que as provas exercem sobre os estudantes. Por isso, comumente, elas são empregadas como um instrumento para ameaças, para punição e, mesmo, para torturas. Se os professores sentem que os estudantes estão dispersos, desatentos ou displicentes, eles avisam que o conteúdo é difícil e que as notas das provas não serão boas.

Se os estudantes estão conversando e atrapalhando o andamento das aulas, os professores pedem silêncio, mas fazem questão de lembrá-los que a data da prova está chegando e que a dificuldade das questões dependerá do comportamento da turma. Por conseguinte, as provas são utilizadas como um instrumento disciplinador, e não como subsídio para planejar e ajustar, quando necessário, o processo de ensino-aprendizagem.

Além disso, as provas são empregadas como ferramenta de opressão e de poder para garantir a manutenção de uma distância entre professor e estudante, para colocar o seu estudante “em seu lugar”, ou em um “não lugar”. Essa concepção, em que o professor é o sujeito que sabe e o estudante é o ser que recebe o conhecimento transmitido, denomina-se tendência tradicional.

Nesse cenário, alguns professores testam os seus estudantes por meio de questões que englobam conteúdos que não foram abordados em sala de aula ou que possuem um grau de complexidade ou uma linguagem para a qual os estudantes não foram preparados para compreender.

Muitos desses professores elevam o grau de dificuldade de suas provas para que os estudantes tirem notas baixas e concluam que eles são exigentes e que não é fácil obter notas boas em suas avaliações.

Outros impõem uma grande quantidade de atividades, mas não se preocupam com a qualidade dos trabalhos ou com a relação entre o que está sendo exigido e o que foi planejado. O importante é fazer com que os estudantes trabalhem arduamente para conseguirem entregar uma imensidão de atividades e obter as notas desejadas.

Encontrar o equilíbrio não é tarefa fácil para o docente, pois é necessário levar em consideração as características de cada turma e as expectativas e as realidades diversas dos estudantes. Todavia, é pertinente que os professores reflitam sobre as reais contribuições dessas cobranças equivocadas no processo de aprendizagem dos estudantes.

Ainda há de considerar a existência de professores que, por diversos motivos, realizam suas atividades sob uma concepção tecnicista e não se preocupam em contribuir para o aprendizado e para o desenvolvimento dos seus estudantes como profissionais e como cidadãos. Assim, eles ministram as suas aulas e, se os estudantes não compreendem o conteúdo transmitido, simplesmente atribuem uma nota baixa nas avaliações e os reprovam.

Evidencia-se, dessa forma, o enfoque no ensino, com a célebre frase comumente utilizada: “Eu ensinei, e, se os estudantes não aprenderam, foi porque não estudaram”. Em outras palavras, nenhuma intervenção é feita para melhorar o processo de ensino-aprendizagem, fato que não é condizente com os propósitos de um efetivo processo de avaliação, na concepção com que este capítulo trabalha.

Nesse cenário, ainda existem aqueles professores que prezam pela classificação e pela comparação das notas dos estudantes, o que pode fazer com que estes pensem que o principal objetivo do processo de ensino-aprendizagem é a competição por melhores desempenhos e não a construção, que deveria ser conjunta, de conhecimentos.

O fato é que todas essas atitudes, abordadas anteriormente, contribuem para que alguns estudantes se sintam obrigados a estudar os conteúdos não por considerarem e por entenderem que estes são importantes para a sua formação, mas sim porque estão sendo ameaçados por provas.

E os gargalos no processo de avaliação não param por aqui. Ainda há outros pontos críticos no contexto da aplicação de provas. A princípio, nota-se a primazia da memorização mecânica em detrimento da retenção crítica e reflexiva, a opção por cobranças fragmentadas dos conteúdos nas questões e, ainda, a falta de conexão direta entre o conteúdo ensinado e o que efetivamente foi cobrado nas provas, como discutido anteriormente.

Percebe-se, também, que as correções e as classificações das notas das provas fornecem poucas orientações e contribuições para que os estudantes corrijam as suas defasagens de aprendizado e aprimorem os seus processos de aprendizagem.

Outro ponto é que as notas das provas implicam julgamento, consequentemente, exclusão, uma vez que incluem os estudantes que obtiveram os melhores desempenhos e excluem os demais, não lhes dando a oportunidade de corrigir as suas deficiências.

Além disso, como a nota é o aspecto determinante nessa ótica, há professores que oferecem pontos para o comparecimento dos estudantes em eventos, para a impressão de materiais da disciplina ou, até mesmo, para a simples presença do estudante em uma determinada aula.

Entretanto, é plausível afirmar que essas ações dos estudantes têm alguma relação com a efetiva aprendizagem do conteúdo ministrado? É possível supor que é contraditório utilizar apenas a nota como um padrão para a avaliação da aprendizagem dos estudantes?

Essas reflexões indicam que a elaboração e a aplicação de provas e a atribuição de notas estão ocorrendo de modo independente do processo de ensino-aprendizagem e sendo realizadas conforme o desejo do professor ou do sistema de ensino.

Do ponto de vista pedagógico, essa situação, classificada como pedagogia do exame, não auxilia a aprendizagem dos estudantes e não subsidia a identificação e a decisão sobre possíveis ações para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem.

Ademais, do ponto de vista psicológico, tais ações só contribuem para a disseminação do medo, do estresse e do desenvolvimento de personalidades submissas, capazes apenas de reproduzir o conteúdo ministrado pelo professor em sala.

Portanto, ao contrário do que tem ocorrido nas instituições de ensino, a nota de avaliação não deveria ser um motivador para o empenho dos estudantes ou um instrumento para puni-los ou para evidenciar o “poder” dos professores. Pelo contrário, o professor poderia se preocupar menos com a atribuição de notas e dar maior ênfase ao processo de aprendizagem.

Nesse contexto, o momento da avaliação pode ser uma oportunidade para os professores identificarem os avanços e as dificuldades de seus estudantes, assim como ser um sinalizador de ações que possam melhorar a aprendizagem da turma. Por conseguinte, é importante que os professores fiquem atentos para não utilizarem as avaliações como atos de autoritarismo ou de punição, mas, sim, como uma atividade que favoreça o crescimento pessoal e intelectual dos estudantes.

Diante do exposto, percebe-se que os professores que simplesmente aplicam exames, de forma consciente ou inconsciente, estão apenas auferindo a absorção do conteúdo em um determinado momento e esperando alcançar resultados significativos, mesmo sem acompanhar ou intervir no processo de ensino-aprendizagem.

Por seu turno, os professores que avaliam a aprendizagem dos estudantes têm a oportunidade de realizar o diagnóstico dos conhecimentos construídos e das defasagens e buscar soluções para as possíveis dificuldades detectadas no decorrer do processo de ensino-aprendizagem.

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