5 de fevereiro de 2018

Brasil e a defasagem tecnológica na administração pública

por José Matias Pereira

Os registros da história da evolução da humanidade revelam que as quebras de paradigmas na economia mundial, provocada por mudanças tecnológicas, impactam no desempenho e no comportamento dos Estados-nação, nas empresas, na administração pública e nas vidas das pessoas no longo prazo. Nesse sentido, as revoluções tecnológicas se apresentam como fator determinante para fomentar transformações profundas nas sociedades, especialmente nas dimensões econômica, social, política e cultural.

Foi assim na primeira revolução industrial, que ocorreu no final do século XVIII, quando as pessoas e animais foram substituídos pela força mecânica, por meio da utilização de energia a vapor na dinâmica de trabalho. As inovações tecnológicas decorrentes dessas mudanças contribuíram para estimular a produção de bens de consumo, elevando a produtividade e reduzindo tempo e custos desse processo. A segunda revolução industrial, que aconteceu no início do século XX, decorreu do aperfeiçoamento de diversas tecnologias da primeira revolução, que passaram a usar a energia elétrica e petrolífera. Esses avanços, que foram beneficiados pelas invenções do telégrafo e do telefone, que facilitaram as comunicações, permitiram a criação de novos mercados, estimulando o ritmo da produção industrial, por meio do modelo de linha de montagem, que resultou no estímulo ao consumo, na medida em que passou a ofertar bens por preços mais reduzidos.

A terceira revolução tecnológica, também denominada “era da informação”, que se consolida na década de 1970, e que tem sua origem após a segunda guerra mundial, ocorreu em função da transição do uso da tecnologia mecânica pela digital nas atividades industriais, por meio da expansão da computação e da criação da Internet. Essas transformações refletiram de maneira virtuosa na produção de bens e serviços, aumentando a produtividade através da automatização da produção e encurtando a distância, em função da rapidez na circulação das informações numa escala mundial. Por sua vez, a atual revolução tecnológica, que agrega os avanços provocados pelas três revoluções anteriores, é percebida como revolução do conhecimento e da comunicação. O seu grande diferencial é que ela avança de forma célere para permitir a convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas.

Nesse cenário de transformações, constata-se que, em escalas diferenciadas, grande parcela das grandes e médias empresas no mundo começou a mudar seus modelos de gestão dos negócios para sobreviver num mercado cada vez mais competitivo. Esses avanços, no entanto, por diversos motivos, não estão ocorrendo na intensidade e velocidade necessária no campo das administrações públicas, notadamente nos países em desenvolvimento. O principal entrave é decorrente da ausência de ações e medidas, por parte dos dirigentes políticos, que se mostram equidistantes, em relação à necessidade da criação de uma competência capaz de aplicar as inovações tecnológicas para modernizar a máquina governamental.

Esse distanciamento e despreparo dos governantes e políticos na gestão das políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação também está evidenciado na desconfortável 80ª posição do Brasil no universo de 137 países contidos no ranking mundial de competitividade, realizado pelo Fórum Econômico Mundial. Estão virados de costas para os benefícios que serão gerados pelo aumento da produtividade e competitividade que o uso intensivo das inovações tecnológicas proporciona. Registre-se que, o emprego da inteligência artificial, por meio de programas e robôs, bem como da aplicação de tecnologias, como a internet das coisas (Iot, sigla em inglês), que conecta dispositivos físicos à Internet através de sensores inteligentes, e que permite o monitoramento e a análise avançada de máquinas capazes de enviar dados em tempo real, já estão impactando positivamente no funcionamento das economias, das empresas e no cotidiano dos cidadãos dos países desenvolvidos.

O nível de compreensão da população, dos empresários, gestores, servidores públicos e dos integrantes da comunidade acadêmica sobre a necessidade e a importância de preparar o Brasil, em termos de recursos humanos, conhecimento, infraestrutura e estímulos tributários, para fazer parte do seleto grupo de Estados-nações que vão poder se beneficiar da onda de inovação e utilização de tecnologias de informação e comunicação também é muito baixo. Deve-se ressaltar que, essas transformações irão provocar a extinção de inúmeras atividades nas administrações públicas, em especial as carreiras operacionais, como atendentes, motoristas, analistas de dados, bibliotecários, advogados, contadores, auditores, entre outras, cujas atividades serão substituídas por programas e robôs capazes de realizar esses trabalhos com muito mais eficiência e rapidez. Por sua vez, novas carreiras, algumas que ainda desconhecemos, também serão criadas no setor público.      

É preciso alertar, por fim, que para o Brasil se beneficiar desse inexorável mundo novo será necessária a realização de mudanças estruturais e culturais na gestão pública, conectando-a com a sociedade, por meio da utilização intensiva das inovações já desenvolvidas e em desenvolvimento, geradas pela 4ª revolução tecnológica. As aplicações das novas tecnologias irão permitir a elevação da produtividade e da competitividade na administração pública brasileira, e os seus efeitos benéficos irão refletir no funcionamento da economia, na redução da burocracia e na oferta bens e serviços públicos de qualidade para a população.

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  • José Matias Pereira
    José Matias Pereira

    É professor de administração pública, finanças públicas, metodologia da pesquisa científica e seminário de pesquisa (doutorado); é pesquisador associado do Programa de Pós-Graduação em Contabilidade da Universidade de Brasília (UnB). Economista, advogado e doutor em Ciência Política – área de Governo e Administração Pública – pela Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade Complutense de Madri (UCM), Espanha. Pós-doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP).