13 de fevereiro de 2020

Breve histórico das bolsas no Brasil

por Alexandre Póvoa

Em 23 de agosto de 1890, o presidente Rangel Pestana fundou o primeiro experimento bursátil no Brasil: a Bolsa Livre de São Paulo. A iniciativa pioneira durou poucos anos, por não ter resistido à política de encilhamento (estouro da bolha de crédito que havia sido destinada à industrialização brasileira). Logo em seguida, em 1895, surgiu a Bolsa de Fundos Públicos de São Paulo. Cerca de 40 anos depois, com a gradativa maturação do mercado de ações no Brasil, a bolsa mudou de endereço, transferida para o Palácio do Café, localizado no Pátio do Colégio, berço da fundação da capital paulista. Em 1935, novo nome — Bolsa Oficial de Valores de São Paulo. Foi só em 1967 que a entidade passou a ser denominada Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

Paralelamente, o mercado acionário se desenvolveu também em outras praças. Até meados de 1960, as 27 bolsas brasileiras eram organizações oficiais corporativas, vinculadas às respectivas secretarias de finanças estaduais. Em 1966, as bolsas finalmente assumiram a característica institucional, transformando-se em associações sem fins lucrativos, com total autonomia. A figura individual do corretor foi substituída pelas pessoas jurídicas das corretoras.

Cabe ressaltar de que, em um passado não muito distante, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro exercia um papel de protagonismo no mercado acionário nacional. A partir da década de 1970, com o crash de 1971 (estouro de uma bolha especulativa, quando os preços das chamadas blue chips chegaram a cair 50%), a Bovespa passou à dianteira no ranking nacional.

No ano 2000, as duas principais (SP e RJ) comandaram a integração de nove bolsas: Bovespa, Bolsa do RJ, MG/ES/Brasília, Extremo Sul, Santos, BA/SE/AL, PE/PB, Paraná e a Regional. A partir de então, a Bovespa passou a concentrar toda a negociação de ações no Brasil, ficando as outras bolsas com o papel de promotores do desenvolvimento do mercado nas diversas praças locais.

Antes da criação do Ibovespa, só se divulgava as cotações de cada ação. O índice de mercado foi criado em meio à necessidade do País de ter instrumentos mais técnicos para avaliação de mercados. Foi no Rio aliás, que surgiu um dos primeiros índices brasileiros, chamado de Índice Bolsa de Valores (IBV), indicador que reunia as ações mais negociadas. Alguns anos depois, o IBV acabou servindo de base para o Ibovespa. Alguns critérios foram adotados — como o percentual de presença das empresas no pregão — e outros, aperfeiçoados. No dia 2 de janeiro de 1968, o Ibovespa começou a ser computado e permanece até hoje, de maneira ininterrupta.

O cenário de negociação nos pregões era bem diferente do que se vê hoje. Até 1972, as negociações ainda eram registradas em um quadro-negro com giz, mas após a introdução dos painéis eletrônicos os processos informatizados foram gradativamente se impondo. Sem muitos recursos tecnológicos, as compras e as vendas eram fechadas literalmente no grito. A negociação foi ficando gradativamente mais eletrônica, com o emprego do chamado operador de pregão sendo extinto a partir do começo do século 21.

Já no âmbito dos mercados futuros, a primeira Bolsa de Mercadorias no Brasil (Bolsa de Mercadorias de São Paulo – BMSP) foi criada em 1917 por empresários paulistas ligados ao comércio e à exportação de produtos agrícolas, notadamente café, boi gordo e algodão. A Bolsa Mercantil de Futuros (BM&F) surge em julho de 1985, abrangendo diversas modalidades operacionais e variados produtos financeiros. Em 1991, da união entre a BMSP e a Bolsa Mercantil de Futuros, nasce a Bolsa de Mercadorias e Futuros, mantendo a denominação BM&F.

Já a Cetip (Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos) foi criada em 1984 como um braço da Associação Nacional de Dirigentes Abertos (Andima, atual Anbima). A partir de 1986, a empresa passou a disponibilizar sistemas eletrônicos de custódia, além do registro de operações e mercado de títulos públicos e privados. Em um ambiente de mercado de balcão (bem mais flexível para o registro de operações), a Cetip sempre foi uma empresa altamente participativa no desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.

Primeiro, a Bovespa e a BM&F decidiram pela união em agosto de 2008; em março de 2017, a BM&FBovespa se funde com a Cetip, formando a chamada B3, que neste junho de 2019 é a quinta maior bolsa do mundo, com valor de mercado de 74,9 bilhões de reais. O segmento da Bovespa engloba 333 empresas, que juntas têm valor de mercado de 3,9 trilhões de reais (aproximadamente 1 trilhão de dólares).

O desenvolvimento dos mercados secundário de ações e de futuros em geral é vital no auxílio ao crescimento de um país. A existência de um mercado secundário amplo e forte permite a liquidez necessária para que as empresas possam contar com diferentes formas de levantamento e otimização de capital (ações e dívida), além da disponibilidade de instrumentos de proteção e alavancagem.

FONTE: CAPITAL ABERTO

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  • Alexandre Póvoa
    Alexandre Póvoa

    É economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós-graduado em Finanças pelo IBMEC e MBA pela Stern School of Business (New York University) – com bolsa de estudos do Banco Mundial –, atua em gestão de recursos há mais de trinta anos. Ex-atleta profissional de basquetebol, trabalhou em instituições renomadas como Banco Inter-Atlântico, Fundação Eletros e Banco Morgan Stanley Dean Witter. Exerceu o cargo de Diretor de Investimentos do ABN AMRO Asset Management no Brasil, onde os fundos de investimento se notabilizaram pela excelência de gestão. Posteriormente, juntou-se ao Grupo Modal, onde foi Diretor Superintendente. Também fundou a Canepa Asset Brasil com sócios estrangeiros, gestora de sucesso na qual se dedicou como CEO. Como economista e na área de gestão de recursos, é um dos profissionais mais reconhecidos do mercado, tendo sido eleito quatro vezes, em pesquisa promovida pela Revista Investidor Institucional, o “Melhor Gestor de Fundos do Brasil”, nos segmentos de renda variável e multimercados. Póvoa dedica-se a sua empresa Valorando Consultoria, prestando assessoria a empresas e investidores, além de ministrar cursos e palestras por todo o Brasil. É colunista de diversos jornais e revistas.