19 de outubro de 2020

Carta: Desafios e oportunidades para o futuro

por Sérgio de Iudícibus

Desde as primeiras edições do meu livro Teoria da contabilidade, eu alertava: nosso futuro será uma realidade de computadores e robôs (isso no final da década de 1970). Mais recentemente, adicionei… big data; agora, teria que adicionar inteligência artificial (IA)! Na verdade, a simples enunciação IA provoca desmaios, delírios e quase suicídios em contadores, administradores, economistas e outros profissionais, um pouco menos nos engenheiros, talvez.

Até agora os devices da IA têm sido capazes de ser tão inteligentes quanto os humanos, e milhares de vezes mais rápidos, em aplicações que requerem enorme quantidade de dados e repetições. Por exemplo, hoje, com IA, é possível, por meio dos registros numéricos de dados sobre vendas, projetar vendas futuras e a lucratividade. Enfim, em toda atividade onde há grande número de dados, IA é capaz, em pouco tempo, de fazer projeções que levariam, para um contador bem preparado, anos para definir futuros valores.

Até aí, não deveríamos nos desesperar. Pelo contrário, deveríamos ficar contentes com o fato de a IA nos livrar de atividades repetitivas, liberando tempo para as funções mais nobres de nossa atividade. (O grande problema é verificar se, de fato, estamos dedicando tempo a essas atividades mais nobres, como contabilidade estratégica, por exemplo.)

A respeito da evolução futura da IA, existem visões diferenciadas entre os estudiosos. A maioria avalia que não evoluirá a ponto de superar o homem (mulher) nos problemas que exigem capacidade de imaginação, inteligência, feeling, cultura geral, conexão rápida entre vários setores do nosso cérebro, arte, experiência e outros fatores cognitivos. Outros dizem que, aos poucos, a IA evoluirá até o ponto de aprender essas vantagens humanas por repetição e erro.

O filme Odisseia no espaço seria o auge assustador desse progresso da IA, quando o computador fica tão evoluído que não mais obedece a seu dono! Bem, levando-se em conta o que parece mais razoável ocorrer na evolução da IA, restam os desafios que os contadores terão que enfrentar para manter sua profissão atrativa e manter seus empregos.

Contabilidade e empresas digitais

 
Mesmo que as agências reguladoras não venham a tratar, explicitamente, do assunto (o que seria um erro), contadores não poderão passar batido por esse desafio. A importância dos ativos intangíveis, nesse tipo de entidade, sobretudo os criados internamente, pode representar até quase tudo na avaliação do mercado com relação às empresas digitais. Nem por isso o contador vai deixar de aplicar a contabilidade regulatória, com as demonstrações tradicionais, balanço, demonstração de resultados etc.

Claro que o balanço estará muito longe dos valores da marca e do valor atribuído pelo mercado à entidade. Ainda assim, a demonstração de resultados sempre vai ser de interesse para análise, pois até algumas atividades que vêm incrementar o valor da empresa estão identificadas na demonstração de resultados, como cursos de aperfeiçoamento para seus funcionários e muitas outras.

Entretanto, o contador deverá conhecer os métodos de avaliação de valor da marca, bem como ser capaz de assessorar os interessados em identificar os fatores que levam o valor da entidade a ser muito maior (ou menor, em raros casos) do que o do patrimônio líquido tradicional da contabilidade regulatória (pelo menos a que conhecemos até agora). O contador não pode e não deve renunciar a uma de suas funções mais nobres, a de assessor e consultor.

Vocações básicas dos contadores

 
Muitos anos atrás, o AICPA dos EUA realizou importante pesquisa sobre as qualidades básicas de um contador qualificado. Vários fatores e facetas ressaltaram da pesquisa, mas lembro que um que me impressionou foi, ou inato ou adquirido aos poucos, o sentido da relevância (materialidade) dos números, cifras e conjuntos de números e cifras nas demonstrações contábeis. Não existe, salvo em poucos casos bem restritos, uma fórmula mágica para calcular a relevância ou materialidade.

Contadores são adeptos da famosa regra dos 10%, mas ela nada tem de científico. Vivemos sempre às turras com esse conceito. Há contadores que, por vocação inata, se sobressaem sobre os outros por essa qualidade! Outros aprendem a duras penas, com muito esforço e muitos insucessos parciais.

Longe de mim querer dar uma fórmula: por exemplo, nem sempre algo errado em um documento contábil, mas de valor muito pequeno,  significa que não seja relevante, visto que pode indicar um problema no sistema de emissão. Para quem nasceu privo dessa qualidade inata (vocação), só nos resta aplicar boa dose de bom senso!

Fraquezas da formação usual dos contadores

 
Apesar de todos os esforços e, talvez, por causa do baixo nível cultural de boa parte dos que ingressam nos cursos superiores de Ciências Contábeis, ainda hoje, o elenco de disciplinas dos cursos de graduação tem falhas graves. Falta de disciplinas de cultura geral, de métodos quantitativos e da área de Sistemas de Informação. Isso é algo usual até nas melhores faculdades!

Só poderá ser sanado por meio de tremendo esforço por parte dos alunos e, depois, formados. Lamentavelmente, muito pouco se lê na área contábil, até em cursos de mestrado! Por isso é que perdemos empregos principalmente para engenheiros e mais vezes em bancos. Na área financeira, bem como em muitas outras, a facilidade de fazer previsões, de utilizar algoritmos é muito importante. Na área de Sistemas de Informação dos tipos SAP e outros, usualmente, contadores não têm facilidade. Mesmo em Matemática Financeira, normalmente, os cursos são de apenas um semestre. Que dirá dos aplicativos estatísticos mais avançados, econométricos, das séries da bolsa de valores etc.

Temos notado, mesmo em cursos de mestrado, dificuldades nessas áreas por parte de formados em Ciências Contábeis. Assim, essas falhas devem ser sanadas com muita dificuldade por cursos especiais, leituras e muito esforço próprio.

Contabilidade segue a Economia? Certamente, grande parte das transações registradas pelo sistema contábil é de natureza econômica. Entretanto, na Contabilidade de Custos o sistema contábil realiza apropriações do que, em um primeiro momento, representou gastos para o sistema de produção. Hoje em dia, todavia, o campo dos stakeholders aumentou bastante, apesar de a estrutura conceitual inicial do IASB dar clara preferência aos acionistas ou cotistas e aos credores, incluindo fornecedores, trabalhadores da empresa, governo, instituições ambientais e outros interessados.

O relato integrado nada mais é do que a face escrita dessas preocupações ampliadas com vários usuários da informação. Historicamente, a Contabilidade sempre se adequou aos desenvolvimentos econômicos e sociais nas várias épocas, desde os rudimentares desenhos nas paredes das cavernas dos homens pré-históricos, pintando principalmente animais, uma espécie de inventário rudimentar, passando pelas antigas civilizações sumério-babilonense, egípcia, grega, romana, medieval, luzindo extraordinariamente na renascença italiana, revolução industrial, surgimento das grandes potências econômicas da Europa, Estados Unidos e mais recentemente Ásia. Note-se que a Contabilidade não apenas serviu para contabilizar os fenômenos econômicos das várias épocas, bem como, em um efeito circular, facilitou os progressos
econômicos e civilizatórios nos vários países e continentes citados!

Se fosse, a Contabilidade, apenas um sistema de contabilização e de controle, seria o caso de atribuir-lhe uma importância secundária. Na verdade, as empresas e nações, a economia em geral, se nutrem das melhores decisões que a Contabilidade proporciona aos que tomam tais decisões! Aliás, segundo o historiador econômico Schumpeter, não teria sido possível escrever a história da Economia se não existissem os livros diários dos comerciantes de vários países europeus, principalmente das repúblicas da Renascença italiana! Assim, em alguns casos, Contabilidade e Economia estão interligadas, mas são campos de conhecimento distintos. E, sem dúvida, a Contabilidade é a mais antiga, nas suas raízes históricas, com relação a publicações.

Contador do futuro

 
Sem dúvida, o século XXI é o da tecnologia e da informação! Na informação, o contador tem uma participação preponderante. Não devemos ter receio da IA, mas aproveitar o tempo livre que ela nos deixará, a fim de exercitar as funções mais nobres que nosso cérebro – inigualável e que nunca será superado – possa desempenhar. Já afirmei outras vezes que a Contabilidade segue a sociedade. Federigo Melis, o grande historiador, foi além: o progresso da Contabilidade segue a evolução da civilização humana. Vamos, todos, contadores profissionais de diversas especializações e, principalmente, professores e pesquisadores, nos engajar nesta nobre missão: aperfeiçoar- nos no presente para brilharmos como uma das estrelas do futuro.

Resenha: Cartas aos Estudantes de Contabilidade

Mais conteúdo no livro Cartas aos Estudantes de Contabilidade

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Uma resposta para “Carta: Desafios e oportunidades para o futuro”

  1. Avatar Maria Auxiliadora da Silva disse:

    Importante reflexão!
    Que todos os coordenadores de cursos e professores tenham acesso a esta carta!

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  • Sérgio de Iudícibus
    Sérgio de Iudícibus

    É professor titular aposentado (Emérito) do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/ USP). Atualmente, é professor do Mestrado em Ciências Contábeis e Financeiras da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro do Conselho Curador da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (FIPECAFI). Foi Visiting Professor da Universidade de Kansas, nos EUA, quando, em 1986, ministrou, no Mestrado dessa instituição, as disciplinas Contabilidade Gerencial e Seminários de Teoria da Correção Monetária Contábil. Associou seu nome a uma importante etapa da evolução da Contabilidade no Brasil, quando, em 1962, juntamente com outros pioneiros, iniciou a mudança do ensino e da pesquisa em Contabilidade, lançando as bases de uma linha de pensamentos mais voltada para as necessidades do usuário da informação contábil. Exerceu, em várias gestões, a Chefia do Departamento de Contabilidade e Atuária da FEA/USP, bem como foi seu Diretor entre 1979 e 1983. Também exerceu a função de Diretor de Fiscalização do Banco Central do Brasil.