22 de março de 2021

Carta IEDI: A indústria como motor do crescimento

por José Luis Oreiro

Esta Carta IEDI retrata algumas evidências empíricas sobre a importância da indústria para o crescimento econômico, a partir do artigo “Manufacturing, economic growth, and real exchange rate: empirical evidence in panel data and input-output multipliers”, de autoria dos economistas Luciano F. Gabriel (UFV), Luiz Carlos Ribeiro (UFS), Frederico Jayme Jr (UFMG) e José Oreiro (UnB), publicado em 2020 na PSL Quarterly Review.

Com base em dois instrumentais – modelo econométrico com dados em painel e modelo de insumo-produto, os autores demonstram efeitos importantes da manufatura e de uma taxa de câmbio real competitiva sobre o crescimento da renda real per capita, isto é, para o enriquecimento dos países.

Um dos aspectos interessantes deste estudo é que realiza comparações internacionais com uma ampla amostra de países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento, ao longo de duas décadas, os anos de 1990 e 2011.

Os autores chegam a três principais conclusões, sintetizadas a seguir.

Em primeiro lugar, a indústria manufatureira é tida como o principal setor de bens comercializáveis para se alcançar maior crescimento da renda real per capita em países em desenvolvimento, ou seja, são a principal alavanca do enriquecimento destes países, segundo as evidências do estudo.

Em segundo lugar, os autores mostram que quanto maior a distância de um país em relação à fronteira tecnológica mundial, maior o efeito positivo de uma taxa de câmbio real competitiva sobre a taxa de crescimento da renda real per capita.

Isso ocorreria porque o câmbio competitivo tende a compensar a baixa competitividade internacional derivada de fatores como baixa inovação e pouca diferenciação de produto etc., possibilitando ampliação de exportações e conquista de outros mercados, de modo a acelerar o crescimento da renda per capita doméstica.

Um terceiro resultado importante do estudo diz respeito aos multiplicadores da indústria manufatureira. Seja desenvolvido, seja em desenvolvimento, o país que tem indústria forte tende a crescer mais: o multiplicador da produção manufatureira sobre o total da economia é geralmente maior do que o do restante dos setores.

Na média dos países em desenvolvimento, para o ano de 2010, os autores calculam que a cada US$ 1 de incremento na demanda final da manufatura, a produção total da economia se expandiria em US$ 1,90. No caso do Brasil, este multiplicador é de 2,03, menor do que o da China (2,8), mas equivalente ao da Índia (2,04).

Não fosse o descuido brasileiro com sua indústria, poderíamos ter um multiplicador ainda mais elevado. As estimativas do estudo mostram que, entre 2000 e 2010, a manufatura na China ampliou sua capacidade de gerar dinamismo econômico de 2,47 para 2,8, enquanto no Brasil o multiplicador progrediu para 2,11 em 2005, mas retornou ao patamar de 2,03 em 2010, o mesmo de 2000.

A título de comparação, os autores apresentam este multiplicador para outros setores da economia. No Brasil, em 2010, era 1,61 na agropecuária e 1,5 nos serviços. Na média dos países em desenvolvimento estes valores eram 1,59 e 1,54, respectivamente. Inferiores, portanto, aos multiplicadores da manufatura.

O estudo também calculou os multiplicadores sobre o emprego. Isto é, quantos novos empregos são criados direta e indiretamente pelo incremento de US$ 1 milhão na demanda final de cada setor da economia. Cabe observar que os multiplicadores de emprego avaliam apenas o impacto quantitativo, nada indicando sobre a qualidade do emprego gerado.

Neste caso, segundo os cálculos apresentados no trabalho, não se constatam diferenças muito grandes entre os multiplicadores de emprego registrados na manufatura e nos setores de construção, comércio e serviços, nem no conjunto de países desenvolvidos, nem nos países em desenvolvimento. Uma possível explicação para isso: embora estes últimos sejam mais intensivos em mão de obra, a indústria, ao apresentar maior capacidade de dinamizar a produção do total da economia, indiretamente alavanca o emprego.

No Brasil, em 2010, estima-se que a cada US$ 1 milhão na manufatura eram criados 42 novos empregos. Na China eram 95 e na Índica 200. No conjunto dos países desenvolvidos, pelo grau maior de automação e digitalização, eram observados apenas 12 empregos adicionais, segundo o estudo.

Todas estas são evidências que reforçam a necessidade de se promover uma base industrial forte e integrada nas economias em desenvolvimento, de forma a promover um crescimento econômico mais acelerado, aproximando-se dos países avançados em termos de renda per capita (catching up).

Para os autores, neste cenário, países como o Brasil, que passam por um processo agudo de retrocesso industrial precoce em relação a outras experiências internacionais, apresentando uma perda de participação relativa de sua indústria no PIB total antes de se ter atingido um nível de renda per capita elevado, tendem a enfrentar maiores dificuldades em sustentar seu crescimento econômico.

O documento completo pode ser acessado em IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.

FONTE: JOSÉ LUIS OREIRO

Mais conteúdo no livro Macroeconomia do Desenvolvimento - Uma Perspectiva Keynesiana

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  • José Luis Oreiro
    José Luis Oreiro

    Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1992), Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio, 1996) e Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2000). Atualmente, é professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), Pesquisador Nível IB do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e líder do grupo de pesquisa “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. Foi presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) no período 2013-2015. Tem cerca de 100 artigos publicados em revistas científicas no Brasil e no exterior, como no Journal of Post Keynesian Economics, Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, Investigación Económica, Revista de la Cepal, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos.