24 de março de 2020

O que o coronavírus pode nos ensinar

por Idalberto Chiavenato

Tudo indica que a pandemia do coronavírus – que rápida e inesperadamente surgiu como um torrencial cisne negro afetando tudo e todos – não é somente uma imensa crise de saúde mundial. Ela trouxe também uma total desestruturação da ordem econômica, social e política – e também financeira, de liquidez e de solvência – afetando todo o planeta.

As perguntas que surgem são: até quando vai durar toda essa incontinência a que fomos forçados para priorizarmos a manutenção da saúde da humanidade? E quando ela terminar, se é que vai terminar logo, qual será a nova ordem de normalidade? E como essa normalidade será alcançada em tempo (prazos) e em espaço (geografia)?
E como seremos e faremos dali para a frente, quando tudo isso acabar?

O mundo nunca passou por isso: um minúsculo vírus conseguiu parar o mundo todo. E tudo ficou subitamente muito diferente e esquisito para nós. E como todo cisne negro, assim, não há modelos ou normas pela frente. E o que era certamente, não será mais quando essa tormenta acabar. Como será o futuro normal?

O estrategista deve estar pensando seriamente nisso: como construir cenários futuros com tanta complexidade, rapidez e incerteza? Todas estas variáveis já estavam há muito tempo em nossos mapas de ação. Mas agora aumentaram de amplitude e de profundidade. Tudo e todos foram afetados. Como lidar com tudo isso? Ainda mais que as organizações – e não importa o seu tamanho – subitamente passaram a focar a sobrevivência no curtíssimo prazo. E tentando navegar na neblina que as envolve para se posicionarem em um mundo de negócios totalmente desregulado e desagregado.

Assim, precisamos reimaginar o futuro de nossas organizações. Como as organizações se levantarão dessa embaraçosa situação totalmente inesperada e imprevista? É preciso dar uma nova ordem às nossas reações.

1. A tentativa de solução do imediato

 
O primeiro passo é tentar solucionar problemas de curtíssimo prazo: preservando a vida das pessoas em primeiro lugar. E tentar esforços para dar continuidade do negócio com o trabalho remoto, além da segurança dos colaboradores escalados para o trabalho operacional que precisa ser mantido a todo custo, apesar das áreas críticas e de todos os problemas de suprimento devido a bloqueios, quarentenas e paralisias.

2. A tentativa de suportar o mediato

 
O segundo passo é tentar buscar soluções possíveis através de escolhas e decisões que definam escala, ritmo e ações, buscando a colaboração e solidariedade necessárias de todos os stakeholders para não deixar de ir pra frente. E mais, é preciso resistir e suportar essa pesada carga de problemas e o seu forte impacto no negócio. Isso requer resiliência, acima de tudo, para evitar o declínio das atividades no curto prazo (ou médio prazo?), até que as coisas se normalizem. E tentar recuperar, reequilibrar ou mesmo redefinir o posicionamento estratégico no que for possível em curtos ciclos para acompanhar pari passu cada desdobramento da crise. Caminhar entre pedras soltas pelo chão irregular. Não temos outra saída.

3. A volta ao que será

 
Na medida em que a crise se esvai e tudo vai retornando, certamente o mundo será diferente em muitos aspectos. O duro aprendizado deve ser levado em conta. E o novo normal será diferente. Principalmente devido aos escombros do que restou. Pois tudo precisa ser redefinido e recomposto e isso leva tempo para acontecer. Não somente a cadeia de suprimentos, mas a própria cadeia de valor. O elo mais frágil da cadeia é que vai determinar o ritmo e o tempo de retorno à nova normalidade. Será preciso identificar e localizar esse elo e tomar as decisões certas e eficazes.

4. Repensar e reinventar o negócio

 
As próprias mudanças e transformações a que estamos acostumados sofreram uma forte descontinuidade e disrupção inesperada, rápida e profunda. Foi a mudança da mudança. Um choque em escala planetária cujos efeitos ao longo do tempo ainda não são bem conhecidos. Mas que permitem vislumbrar claramente os pontos frágeis de nossos negócios quando submetidos a fortes impactos externos. São oportunidades e vulnerabilidades a serem exploradas. E as mudanças nas expectativas e preferências do consumidor frente à limitação ao contato online no comércio, na educação, no trabalho e nos relacionamentos no decorrer de toda a crise.

5. O fortalecimento e integração do sistema

 
O diagnóstico e análise de tantas contingências imprevistas nos permite alguns aprendizados importantes. A reação rápida e respostas ágeis exigem uma ampla coordenação de nossas organizações – sejam de saúde pública, infraestrutura, finanças, economia e educação principalmente – em escala nacional e internacional no sentido de aproveitar intensamente as oportunidades das novas e emergentes tecnologias disponíveis que podem tudo conectar e interligar. Precisamos caminhar da absoluta incerteza para a firme cooperação.

O importante é que saibamos aprender e aproveitar tudo aquilo que o coronavírus – esse nosso minúsculo inimigo – está tentando nos ensinar.

Volta às aulas Chiavenato

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  • Idalberto Chiavenato
    Idalberto Chiavenato

    Idalberto Chiavenato é Doutor (PhD) e Mestre (MBA) em Administração pela City University of Los Angeles-CA, EUA, especialista em Administração de Empresas pela FGV-EAESP, graduado em Filosofia/Pedagogia, com especialização em Psicologia Educacional pela USP e em Direito pela Universidade Mackenzie. É professor honorário de várias universidades do exterior e renomado palestrante ao redor do mundo. É autor de mais de 30 livros das áreas de Administração, Recursos Humanos, Estratégia Organizacional, Comportamento Organizacional publicados no Brasil e no exterior. É fundador e presidente do Instituto Chiavenato, conselheiro do CRA-SP e membro vitalício da Academia Brasileira de Ciências da Administração onde ocupa a cadeira nº 47. Recebeu dois títulos de Doutor Honoris Causa por universidades latino-americanas e a Comenda de Recursos Humanos pela ABRH-Nacional.