10 de maio de 2021

Porque a cúpula do clima não vai dar certo!

por Arão Sapiro

O evento Cúpula do Clima ocorreu entre os dias 22 e 23 abril, realizado integralmente em ambiente virtual, tendo Joe Biden como anfitrião. Além do presidente dos Estados Unidos, outros 40 representantes foram convidados, incluindo integrantes do Fórum de Energia e Clima de Grandes Economias, que reúne os 17 países que respondem por 80% das emissões globais de carbonos, as nações vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas e os países que lideram ações importantes de preservação do meio ambiente.

A Cúpula terá o papel estratégico de estimular a criação de planos para reduzir as emissões de poluentes e gás carbônico até 2030 e manter o limite de 1,5°C de aquecimento.

Além disso, se espera que os países, que adotarem a agenda de ação climática, desenvolverão a capacidade de gerar empregos e renda com a utilização da tecnologia, do cooperativismo internacional e da criação de benefícios econômicos em favor do combate à devastação ambiental.

A reunião prepara as discussões para a COP26 (Conference of the Parties) – 26ª Conferência das Partes das Nações Unidas, a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), que neste ano acontecerá em novembro, na cidade de Glasgow, na Escócia.

NÃO É POUCA COISA!

 
O encontro também será a oportunidade para os líderes mundiais reformularem seus compromissos feitos no Acordo de Paris, com a expectativa de que sejam traçadas metas mais ambiciosas.

Mais ambiciosas?

O Acordo de Paris, um pacto global em torno do combate às alterações climáticas, faz seis anos em 2021, mas compromissos insuficientes resultam na continuação do aumento do aquecimento global. O fato é que não há um único país a fazer aquilo a que se comprometeu em Paris. O Acordo de Paris tornou-se no acordo sobre o clima por excelência, culminando um caminho iniciado em 1997 com o Protocolo de Kyoto, que por sua vez vem caindo em descrédito porque os principais emissores dos gases de efeito estufa, simplesmente, não o ratificaram.

Realisticamente, o que se pode argumentar a respeito de todos os pactos sobre o meio ambiente, desde a ECO 92, Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, no Rio de Janeiro, passando pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM surgidos em 2000, por meio da Declaração do Milênio das Nações Unidas, adotada pelos 191 estados membros e depois, em 2015, pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS (Agenda 2030), é que, apesar de todos os compromissos e metas propostas, os problemas avançam e o estado geral do meio ambiente continuou a se deteriorar em todo o mundo.

Mas, talvez sem eles, as coisas estariam muito piores!

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA (Nations Environment Programme – UNEP), em relatório executivo resumiu as conclusões do relatório GEO — Global Environment Outlook radiografia dos principais problemas ambientais do planeta com base no conhecimento científico disponível.

Em síntese, o que esses documentos identificam é que as mesmas questões sistêmicas, que contribuíram para criar a pandemia do Covid 19, são as mesmas que impulsionam as três crises planetárias: a crise climática, a crise da biodiversidade e da natureza e a crise da poluição e dos resíduos. O mundo continuou a aquecer em 2020, contribuindo para incêndios florestais, secas, inundações e pragas de gafanhotos vorazes. A perda de natureza em prol da agricultura, das infraestruturas e dos assentamentos humanos continuam aumentando. A poluição do ar, da terra e do mar continua a custar vidas e a danificar ecossistemas cruciais, conforme descrito por Inger Andersen, Subsecretária-geral da ONU e Diretora Executiva do PNUMA!

A humanidade não está a caminho de cumprir as metas estabelecidas para 2030 e 2050 nos diversos acordos internacionais sobre mudança climática, desenvolvimento sustentável e proteção ambiental. Ponto final!

ESPERAMOS RESULTADOS FAZENDO VÁRIAS VEZES DA MESMA MANEIRA. ISTO É INSANO!

 
O que foi visto nessa Cúpula do Clima, cujo propósito é exatamente alinhar compromissos ambientais para os próximos anos, obviamente, de nada servirá para mudar o contexto. Como se pode organizar um encontro que reúne os principais líderes mundiais e que não atende, minimamente, os conceitos mais básicos de planejamento?

Numa atividade que começou exatamente pelo fim, se propondo a ser um pacto, apresentando os objetivos prometidos, é certeza que essas promessas ficarão para calendas gregas.

NÃO É ASSIM QUE SE CONSTRÓI UM FUTURO COMUM

 
Paradoxalmente, os compromissos deveriam ser os últimos elementos a serem assumidos ao final de um processo de Planejamento Estratégico, como um Fecho de Ouro!

Será que nossos líderes e seus assessores ignoram as práticas elementares do Planejamento Estratégico? Cada um defendendo sua argumentação, o que se conseguirá será um caleidoscópio, ou se quiserem, a imagem refletida de um espelho quebrado.

Pensar o futuro é uma exercício visionário e que depende da elaboração de um sofisticado pensamento estratégico. Seu propósito não é simplesmente elaborar planos, mas mudar os modelos mentais dos tomadores de decisão.

Tudo deveria começar pelo entendimento da Intenção Estratégica que é a energia fundamental, o impulso inicial e o compromisso dos líderes no cumprimento de seus propósitos. Essa intenção fica clara na medida que sejam respondidas que ambiente desejamos, estando a humanidade no bojo dessa concepção.

A palavra intenção vem do latim (intentione) e significa o próprio fim a que se destina, mas reflete também uma vontade ou desejo. A intenção é sempre o início de uma jornada. Não se trata de exercícios em nível nacional ou regional, mas uma idealização universal, ao qual aqueles se alinharão

Na sequência, se busca a visualização compartilhada do futuro desejado, não num consenso, mas em uma harmoniosa unidade. E, como se faz isso? Contando-se histórias de possíveis futuros comuns e identificando determinantes de sucesso, que deverão estar presentes em quaisquer que sejam as histórias (cenários) que venham a se desenrolar. Veja, por exemplo, as iniciativas da organização What’s your 2040? reunindo pessoas de todo o mundo que estão comprometidas em aprender, contribuir, advogar e investir em soluções regenerativas para melhorar nosso planeta.

A partir dessa visão compartilhada, são estimulados a empatia, a compreensão e a esperança, anulando os sentimentos de discordância, confusão e desconfiança.

O EXERCÍCIO EVOLUI NA MEDIDA EM QUE OS LÍDERES SE PREPARAM PARA RESPONDER À PERGUNTA: O QUE ACONTECERÁ SE…?

Quanto mais diversos forem os participantes, mais competentes e representando diferentes setores da sociedade humana, maiores serão as chances de engajar as pessoas das organizações, instituições, comunidades e países daqueles líderes e fortalecer os relacionamentos entre os atores, aumentando a habilidade do coletivo para criar mudanças efetivas.

Só então, poderemos caminhar com um Plano Estratégico eficaz. E sua eficácia será reconhecida se responder adequadamente às seguintes condições;

  • O Plano incentivará uma reflexão nova, isto é, ele será suficientemente familiar para ser entendido e suficientemente diferente para propor uma nova resposta.
  • O Plano vai gerar esperança, imaginação, engajamento, criatividade e novas possibilidades.
  • O Plano dará espaço para a proposição de novos e diferentes desafios e mais profundos, na medida em que eles passarem a serem explorados e vencidos.

Interessante, que este artigo não apresenta propostas metodológicas novas e revolucionárias. São as mesmas que vêm se desenvolvendo por diferentes escolas, educadores, pensadores e líderes organizacionais.

E, por que, então, não se desfruta desse rico repertório conceitual e prático? Uma pergunta, cuja resposta vale US$ 1 milhão.

Uma coisa é certa, o tempo se esgotou! O mundo precisa ser consertado, mas para isso deveremos estabelecer uma grande concertação das lideranças globais. Concertação que do Latim traz o significado de ligar, atar, juntar e, também o de lutar o bom combate.

Mais conteúdo no livro Planejamento Estratégico

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  • Arão Sapiro
    Arão Sapiro

    Professor de cursos de graduação e pós-graduação em administração e engenharia de produção. É graduado e mestre pela EAESP-FGV – Escola de Administração de Empresas de São Paulo – Fundação Getúlio Vargas, com certificados de Educação Contínua pela FEA-USP e de Ensino do Método de Estudos de Casos pela Harvard Business School. Suas especialidades profissionais estão focadas em quatro áreas de competência: liderança, planejamento estratégico, mudança & engajamento e negociação & mediação. Realizou nos últimos 25 anos programas de treinamento e conduziu projetos de Desenvolvimento Organizacional, alinhados com os conceitos de Learning Organization, sempre com base em valores humanos e metodologias interativas. Ele tem grande experiência em consultoria graças à trabalhos realizados para organizações governamentais e privadas, nacionais e multinacionais, e sem fins lucrativos. Possui habilidades avançadas de treinamento, comunicação e apresentação, lidando com grupos e desenvolvendo projetos de trabalho em equipe. Com certeza, seu perfil é caracterizado por uma aparência confiante, confiável e autônoma, Coautor do livro Planejamento Estratégico – Fundamentos e aplicações, com Idalberto Chiavenato, em sua edição 3º e publicada em espanhol, também. Revisor técnico do trabalho de Philip Kotler, Administração de Marketing. Autor de inúmeros artigos, ensaios e pesquisas sobre seus temas focais. Como conferencista viajou pelo Brasil, Angola e Estados Unidos, falando em congressos e seminários, abordando temas relacionados à mediação estratégica, change management e cultura de confiança (trust). Criador do INSEC- Instituto de Estudos para a Cooperatividade, uma sociedade civil de interesse público, cujo objetivo é promover as práticas de cooperação entre as organizações e seus stakeholders (partes interessadas), buscando incentivar a competitividade de uma forma construtiva e de longo prazo, com uma visão que vai além do foco de lucro no curto prazo. Atualmente, vem se destacando como facilitador certificado em sessões de mediação, que é uma das práticas chamadas de Resolução Alternativas de Conflitos – RAD, pelas quais se busca promover a comunicação não-adversial e colaborativa, tratando os conflitos, a partir de uma visão positiva e como meio de transformação e evolução, objetivando a harmonia das relações e o respeito aos bons costumes, de modo a manter os relacionamentos duradouros e prósperos, entre as partes, construindo um mundo melhor.