23 de setembro de 2016

A Inflação no Brasil

por José Paschoal Rossetti

Uma das características históricas da economia brasileira, apenas superada com a criação do real na última década do século XX, foi a tendência secular à alta dos preços. Os períodos de variação acelerada dos preços prevaleceram sobre os de inflação moderada, sobretudo nas décadas de 1940 a 1990 do século passado. Os episódios históricos de inflação rastejante são, todos, anteriores à Segunda Grande Guerra. De lá até final da primeira década dos anos 1990, o país viveu épocas de inflação galopante ascendente. Na transição dos anos 1980 para 1990 esteve bem próximo de uma hiperinflação descontrolada.

Estudos pioneiros, como o de O. Onody,13 revelaram que a inflação no Brasil tornou-se um fenômeno endêmico, persistente e recorrente, embora brando no passado: “num período de 58 anos, de 1829 a 1887, os preços teriam se multiplicado por 2,31, o que corresponde a uma taxa média de apenas 1,5% ao ano”. Daí em diante, notadamente nos primeiros anos do governo republicano, pesadas emissões de papel-moeda refletiram-se nos preços, produzindo o primeiro surto inflacionário agudo vivido no país. Mas à euforia papelista sobrepôs-se a rigidez metalista: em apenas um ano, em 1890, o estoque de papel-moeda emitido aumentou 63,1%; depois, segundo série histórica construída por Peláez-Suzigan,14 no período de dez anos compreendido entre 1890-1900, o aumento acumulado foi de 74,0% correspondente à taxa média anual de 5,69%. No início do século até a Primeira Grande Guerra, tanto a oferta monetária quanto os preços registraram aumentos suaves: nos primeiros quinze anos, a base monetária cresceu 50,6%, com média anual de 2,77%; o produto real, segundo série construída por C. Haddad,15 aumentou 58,5%, com média anual de 3,12%; e os preços, como apontam Chacel-Simonsen-Wald,16 teriam se mantido virtualmente inalterados.

Entre as guerras de 1914-18 e de 1939-45 essas séries históricas passaram a acusar mudanças relevantes: excetuando-se os anos depressivos do início da década de 1930, observou-se nítida tendência à elevação da oferta monetária e dos preços. Depois da crise dos anos 1930 até o término da última grande guerra, entre 1939-45, os preços cresceram 3,1 vezes, evidenciando a aceleração do processo inflacionário no país. Daí em diante, só no triênio 1947-49 a inflação anual limitou-se a um dígito. Mas a esses movimentos rastejantes de preços sucederam-se surtos inflacionários de variadas intensidades, sempre acompanhados de uma expansão equivalente da oferta monetária.

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Uma resposta para “A Inflação no Brasil”

  1. […] assim, numa grande desvalorização da taxa de câmbio e, consequentemente, elevação da inflação. Esse cenário seria reforçado pela incerteza eleitoral, contribuindo, desse modo, para o risco de […]

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  • José Paschoal Rossetti
    José Paschoal Rossetti

    Pesquisador e professor da Fundação Dom Cabral. Consultor de empresas para análise prospectiva do ambiente de negócios internacional e do país e membro do Conselho de Administração de empresas brasileiras de grande porte, listadas e de capital fechado. Foi professor titular dos Departamentos de Economia das Universidades Mackenzie, PUC-SP, PUC-Campinas e da EAESPFGV. É autor e coautor de diversas obras sobre economia e governança corporativa, dentre elas: Contabilidade social, Política e programação econômicas, Economia de mercado: fundamentos, falácias e valores, Economia monetária, Transição 2000: tendências, mudanças e estratégias e Governança corporativa: fundamentos, desenvolvimento e tendências.