18 de março de 2019

Rafael D’Andrea fala sobre discriminação etária nas empresas; entenda

por GEN.N&G

Especialista em transição de carreira, Rafael D’Andrea, 42 anos, lançou recentemente seu sexto livro: Reinventando-se Depois dos 50 anos de Idade – Como fazer transição de carreira e carreiras bônus (Editora Atlas), que nasceu de sua tese de mestrado sobre o que leva empresários e executivos bem-sucedidos a trocar a aposentadoria por novas e diferentes ocupações. Ele acredita que o aumento da expectativa de vida e a menor dependência das corporações estimulam os profissionais a arriscar em estágios mais avançados da vida.

Nascido em Ourinhos, no interior de São Paulo, D’Andrea é graduado em Administração pela Universidade de São Paulo, fez especialização em Marketing na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), e em Economia na Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). É mestre em Psicologia Organizacional Clínica pelo INSEAD de Singapura, palestrante, professor e coach, e tem mais de 20 anos de carreira como executivo, empreendedor e consultor.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre o questionamento de modelos mentais que influenciam as decisões de carreira de executivos e empresários e como fazer a transição de carreira depois dos 50.

Entrevista com Rafael D’Andrea

 

O que você chama de carreira bônus?

 
No meu estudo, percebi que, do começo dos 50 até os 70 anos, as pessoas ainda têm muita energia para trabalhar. É uma geração que não quer mais se aposentar cedo, quer continuar ativa por mais 20 anos, no mínimo. A transição de carreira é o momento entre o fim de um ciclo e o começo de outro, é quando uma fase acabou e a outra ainda não começou. Eu chamo de carreira bônus essa janela de oportunidade que se abre para o profissional desenvolver uma nova carreira depois dos 50, porque é uma chance de fazer algo diferente, com outros propósitos. Essa transição pode ser dentro da mesma área de atuação ou pode ser mais radical, quando a pessoa decide se dedicar a algo completamente diferente do que fazia.

No seu estudo, o que levou esses empresários e executivos a mudar de carreira aos 50?

 
Há vários motivos. Nessa altura da vida, muitos chegam ao ápice da carreira, e, com isso, vem uma certa estabilidade e também o tédio, o receio de entrar em declínio e se sentir obsoleto, ultrapassado, de ser substituído pelos mais jovens. Durante as várias etapas da nossa vida profissional, nós passamos por algumas crises, e a causa é sempre o desejo de buscar um crescimento profissional e pessoal para ter de novo o sentimento de conquista, a emoção e a adrenalina que sentíamos aos 30 anos, de começar de novo. Nessa fase, muitos experimentam também uma sensação de falta de propósito com o trabalho que fazem e buscam algo com mais significado.

Outro motivo é a percepção de poder desempenhar bem uma nova função, o desejo de exercer uma vocação antiga, de evitar o estresse ou a recusa em seguir os mesmos caminhos que os pais. A discriminação etária dentro das empresas também pode ser um gatilho para essa decisão.

Você acha que existe preconceito no mercado de trabalho com pessoas acima de 50 anos?

 
Existe, claro. Os RHs se baseiam muito em estereótipos. Os chamados “perfis” são estereótipos, e quem não se encaixa no perfil fica de fora. Esse método acaba excluindo o profissional mais maduro dos processos seletivos. Além disso, a maioria das empresas não está preparada para receber esse público, porque são pessoas que preferem horários mais flexíveis e trabalho remoto, para ter mais tempo para a família. Mesmo assim, acredito que a flexibilização das relações de trabalho vai facilitar a contratação desses profissionais. Já há uma tendência de as empresas incluírem os mais velhos por meio de programas de diversidade, mesmo sendo uma iniciativa ainda incipiente.

Como se preparar para mudar de carreira após os 50?

 
A preparação começa com o autoconhecimento. Saber quais são as suas habilidades, no que você é bom. E isso só se descobre na prática, testando e experimentando. Não espere ser demitido ou chegar até o limite da insatisfação com o trabalho atual para só então decidir pela mudança. É preciso ir se preparando antes. Pense também que você terá que suprir as lacunas na sua formação técnica, dependendo da atividade que exercia e da que vai passar a exercer. Geralmente, essa atualização está relacionada às tecnologias digitais ou ao contexto de negócio da nova área de atuação. Outro desafio é aprender a conviver e lidar com profissionais mais jovens, trabalhar num ambiente onde todos são mais novos e aceitar ter um chefe mais novo. Não pode ser resistente e ter aquela atitude de “ah, isso eu já sei”, “já vi essa ideia mil vezes” ou “isso aí nunca deu certo”. Tem que mudar a postura, estar aberto para aprender e aceitar que vai ganhar menos e ter menos status.

Quais os principais erros que as pessoas cometem na carreira nessa fase?

 
Um dos mais comuns é não fazer uma boa avaliação financeira para saber quanto gasta por mês e quanto vai ganhar na nova carreira. Esse recomeço é sempre complicado, requer tempo e investimento numa atividade que geralmente vai render menos, então é preciso calcular e planejar. Outro erro é não testar as novas possibilidades na prática. Não adianta ficar anos planejando uma transição de carreira e não testar antes. Por exemplo: quer ser chef de cozinha? Passe alguns fins de semana cozinhando em um hotel ou restaurante de um amigo. Não estude quatro anos para depois descobrir, na prática, que não era isso que você queria fazer, porque aos 50 não dá para errar muito. Procure testar com atividades paralelas, hobbies, trabalhos voluntários ou participando de congressos e eventos ligados à atividade que quer fazer.

Outros erros são escolher carreiras que exigem muito esforço físico, passar noites em claro ou viajar muito. E escolher sócios errados ao montar um negócio próprio, especialmente se os sócios forem parentes. A mistura de negócios e família é muito delicada.

O que você diria aos profissionais com mais de 50 que não querem empreender, mas continuar no mercado de trabalho?

 
Abriu-se uma nova oportunidade para essas pessoas, que são as startups, pois a experiência que elas têm vai servir muito para essas novas empresas. As startups estão percebendo que as habilidades dos profissionais com mais experiência, as chamadas “soft skills”, ou habilidades humanas, de relacionamento, são essenciais. Eles levam vantagem na hora de se relacionar, resolver conflitos, liderar, tomar decisões, e geralmente têm uma boa rede de contatos.

Outro segmento que se abre é o de educação, para consultores, coaches ou professores nas áreas em que dominam. Todo profissional com mais de 50 anos tem muito conhecimento e experiência que pode ser compartilhada, basta empacotar e monetizar esse conteúdo. Isso pode ser feito na forma de aulas, treinamentos, workshops, palestras ou consultorias. Plataformas como o Youtube e o Udemy são ótimas ferramentas para isso.

Outra porta que está se abrindo é para conselheiros ou mesmo investidores de pequenas empresas. Mas, empreendendo ou não, é importante levar em conta nessa fase a sensação de estrar crescendo, aprendendo, e que a nova atividade dê prazer, tenha propósito, seja socialmente útil, que faça sentido e traga realização pessoal.

Fonte: VOCÊ S/A MOBILE

Mais conteúdo no livro Reinventando-se Depois dos 50 Anos de Idade

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