21 de outubro de 2020

Distanciamento social, comunicação e saúde mental

por Patricia Itala Ferreira

Ainda vivemos em um momento de evitar contato. Assim sendo, universidades, colégios e empresas diversas ainda mantém práticas de home-office ou estudo mediado por tecnologia. Resolvi hoje comentar sobre a comunicação online, especialmente as ferramentas síncronas de interação, como a videoconferência. Pode ser zoom, google meets ou qualquer outra ferramenta, pois, em todas elas, observo a mesma dinâmica. Poucas câmeras abertas, uma interação cada vez mais precária e as pessoas “se escondendo” atrás de telas pretas ou com uma foto que, muitas vezes, nem de longe representa o momento atual, real, da pessoa. Além disso, diversos efeitos visuais permitem que o interlocutor, quando aberta a câmera, disfarce sua aparência. Olheiras podem ser retiradas e o cansaço pode ser escondido, por exemplo.

Do outro lado, por parte de quem ouve, por vezes percebo que o “receptor”, o “ouvinte” despersonaliza quem fala. Não se preocupa em participar, não se preocupa com a melhor forma de falar e não se preocupa com o impacto da fala naquele que ouve. Além disso, muitas vezes, impera uma total desconsideração com o “emissor”, com aquele que fala: o ouvinte está fazendo ginástica, na cama, lendo revista ou fazendo uma séria de outras atividades que tiram o foco daquele que está tentando estabelecer um processo de comunicação.

Sabe a irritação que dá quando estamos conversando com alguém e a pessoa só olha para o celular? É o mesmo caso, só que muito pior. Percebam, o processo de comunicação só se efetiva se emissor e receptor estão presentes, de fato, no ato comunicativo. E como saber se a comunicação está ou não se efetivando se o receptor não participa? Com a parte não verbal da comunicação propositadamente escondida ou camuflada e como muitos optam por não se manifestar, me pergunto, também, como fica o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, a empatia por exemplo, especialmente nos mais jovens. Falar, escutar e prestar atenção ao impacto da fala no outro são habilidades importantíssimas, para qualquer profissional e, especialmente, para um gestor. Para compreender melhor o processo de comunicação, indico a leitura do meu livro “Comunicação empresarial”.

Não é à toa que estamos tendo tantos casos de pessoas com transtorno de ansiedade, deprimidas, tristes, enfim, com uma série de problemas. Já tenho ouvido que o próximo ano será o ano da saúde mental, pois tantos estão adoecendo nesse período de isolamento, por mais que passemos o dia todo na tela com várias pessoas.

Preocupa-me ainda como vamos voltar para o “mundo de verdade”, como vai ser o retorno para o presencial, para o mundo do contato, do sorriso, dos abraços, da conversa face a face. Porque esse momento vai voltar. E espero que seja breve. Mas, qual será o comportamento das pessoas que ficaram durante tanto tempo escondidas por trás de um quadro com sua foto, muitas vezes mudo. Já ouviram falar sobre o termo “embotamento afetivo”? Sugiro que pesquisem.

Muitos falam sobre o “novo normal”. Confesso, odeio essas palavras “novo normal”. Que muita coisa vai mudar, ok, concordo, mas acho que temos – ou deveríamos ter a opção de escolher o que mudar e o que manter. O contato pessoal NUNCA vai ser substituído pelo online. Não é a mesma coisa, e nem nunca vai ser. É mais prático, mais barato e economiza tempo? Com certeza! Mas, gestão de verdade se faz face a face.

Não é apenas conteúdo que está envolvido, mas sim afeto, relacionamento, interação, sentimento, formação de vínculo, empatia. Isso não consegue ser substituído. Se quiserem me chamar de velha e ultrapassada por pensar isso, sintam-se à vontade.

Tenho percebido várias organizações se desfazendo de seus escritórios. Um custo fixo a menos para eles. Tenho ouvido que o home office só traz vantagens para os empregados. Não concordo. Traz algumas vantagens, mas não para todos e também traz uma série de desvantagens e também custos, diretos e indiretos, monetários e emocionais. Sou favorável que as pessoas tenham a opção de escolher se preferem trabalhar de casa ou do escritório, mas acho importante haver um escritório, um ponto de encontro, uma referência, até para que a cultura organizacional possa ser mantida, conhecida e compartilhada.

Processos de onboarding, por exemplo, acho que devem ser feitos na organização, com a participação de empregados mais seniores. Momentos presenciais são importantes e devem ser mantidos na rotina de trabalho das pessoas.

Mais conteúdo no livro Comunicação Empresarial

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2 respostas para “Distanciamento social, comunicação e saúde mental”

  1. Avatar Marcos Maciel disse:

    Ótima reflexão, Patrícia.
    Mas apesar de concordar com você, acredito que o home office veio pra ficar, que as aulas virtuais, vieram pra ficar, talvez não em 2021, mas não vai demorar. As pessoas precisarão aprender a lidar com esse novo jeito de comunicação, tanto quem assiste como quem apresenta e não tenho dúvidas que outras ferramentas aparecerão pra tornar as coisas ainda mais interativas .
    Acho que é um caminho sem volta, por isso já estou pensando em me “auto aposentar”

  2. Patricia Patricia disse:

    Oi Marcos!

    Muito obrigada pelo comentário!

    Tenho muito medo de um mundo assim!

    Sinto e percebo uma despersonalização das pessoas, um aumento da falta de consideração com o outro. O afeto, a empatia estão sendo deixados de lado em prol de uma “economia” com uma desculpa geral de bem estar do trabalhador. Eu percebo, contudo, que as pessoas não avaliam os dois lados da moeda, os prós, os contras, os efeitos… E a falta dessa visão mais sistêmica me preocupa muito. Acho que o impacto no comportamento das pessoas e na forma de tratar o outro será imenso.
    Se eu pudesse, faria como você, me “auto aposentadoria” também.

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  • Patricia Itala Ferreira
    Patricia Itala Ferreira

    Concluiu em 1993 a graduação em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e, posteriormente, em 1997, tornou-se Mestre em Administração de Empresas pela mesma universidade. Há mais de 20 anos atua em projetos de consultoria em gestão de pessoas e educação corporativa. É professora da PUC-Rio, em cursos de graduação e pós-graduação, nas modalidades presencial e a distância. É também tutora da FGV Online e da pós-graduação em Gestão da Educação a Distância na UFF e da pós graduação em educação empreendedora, uma parceria do Departamento de Educação da PUC Rio com o SEBRAE. Autora dos livros Clima organizacional e qualidade de vida no trabalho (GEN | LTC, 2013), Atração e seleção de talentos (GEN | LTC, 2014), Gestão por competências (GEN | LTC, 2015) e Comunicação Empresarial (Atlas, 2016), em parceria com Gustavo Malheiros e do curso online Psicologia Aplicada à Administração (GEN | Atlas, 2018). Finalista do Prêmio Ser Humano da ABRH 2014 e ganhadora da premiação em 2015 e 2016 na categoria trabalhos acadêmicos.