18 de julho de 2019

Qual é o seu estilo de trabalhar em equipe?

por Antonio Cesar Amaru Maximiano

Em uma de suas de suas ideias mais conhecidas, Jung propôs a existência de tipos psicológicos que se baseiam em quatro dimensões bipolares da personalidade. Por exemplo, a dimensão julgamento-percepção refere-se ao modo como as pessoas tomam decisões e resolvem problemas. Julgamento é o comportamento caracterizado pela predominância da ação sobre a análise na tomada de decisões. Percepção é o comportamento oposto.

Outra ideia importante sobre o comportamento humano foi proposta por Simon. Trata do contraste entre intuição e racionalidade no processo decisório. Um processo racional, segundo Simon, procura a coerência entre a decisão e o problema e baseia-se em informações. O comportamento intuitivo baseia-se no sentimento ou opinião de que uma escolha é apropriada, e não em escolhas feitas de modo totalmente consciente e lógico.

As dimensões de Jung e de Simon têm sido combinadas para explicar as diferenças individuais e seu impacto sobre o trabalho em equipe. Esta é uma delas. É parte de um artigo publicado em 2007 na Revista MundoPM.

Estilos de trabalho em equipe

 

Estilo conceitual

 
O estilo conceitual combina os traços da intuição e da percepção. É a capacidade de raciocinar em termos abstratos, usar a imaginação, construir modelos e idealizar produtos e situações que não existem. Há pessoas que preferem viver no mundo conceitual e são descritas pelos colegas como intelectuais e estrategistas. Sentem-se confortáveis no espaço das ideias, dos modelos teóricos, da imaginação e do pensamento abstrato. São, às vezes, visionários que percebem as imperfeições e carências da realidade e projetam as utopias.

Quando exageram ou se tornam disfuncionais, no entanto, os conceituais são incapazes de enxergar os detalhes, de pensar no lado prático e operacional das idéias. Qualquer problema tem que levar em conta as implicações para a galáxia e a solução sempre se encaminha para uma lista de proposições inexequíveis. Uma das disfunções do conceitual é elaborar grandes projetos que ele esquece em seguida ou deixa para outros executarem.

Exemplos de atividades que exigem o estilo conceitual e nas quais provavelmente encontraremos pessoas com esse estilo são as seguintes:

  • Design de produtos, especialmente produtos-conceito.
  • Todas as formas de arte e criação.
  • Definição de temas de pesquisa.
  • Construção de cenários e planejamento estratégico.

As pessoas competentes na dimensão conceitual são determinantes para o sucesso da fase de concepção do projeto, quando é preciso trabalhar com idéias abstratas e visualizar um produto inexistente, mas que deverá ser fornecido no final. Em uma equipe, a pessoa conceitual orienta o pensamento dos colegas para o entendimento das necessidades do cliente, a missão do projeto e a visão do futuro. Ela enfatiza as grandes proposições, as macro-análises e o planejamento estratégico. A falta de conceituais pode levar uma equipe a se apegar aos detalhes e esquecer o futuro, especialmente se houver predominância de pragmáticos. No entanto, uma equipe formada apenas por pessoas assim pode ter dificuldades para passar da teoria à prática.

Estilo pragmático

De certa forma, os pragmáticos são o oposto dos conceituais. O estilo pragmático combina os traços da racionalidade e do julgamento. É a preferência pela ação, às vezes em detrimento da análise. No limite, os pragmáticos atiram primeiro e depois perguntam em quem acertaram, tomando decisões à medida que a ação se desenrola. Eles apreciam mobilizar recursos e colocá-los em ação, planejando e executando os procedimentos práticos necessários para uma ideia funcionar. Os pragmáticos, em resumo, fazem o projeto andar.

Os pragmáticos disfuncionais dão ênfase excessiva ao trabalho operacional e perdem a visão de conjunto, vendo apenas as árvores sem serem capazes de enxergar a floresta. Eles correm o risco de tornar-se tarefeiros autoritários e ficar impacientes com seus colegas que preferem o mundo das idéias. Se houver somente ou predominantemente pessoas com este tipo de preferência, a equipe pode tornar-se incapaz de pensar em termos estratégicos. Exemplos de atividades que exigem o estilo pragmático e nas quais provavelmente encontraremos pessoas com esse estilo são as seguintes:

  • Execução de planos, como a construção de qualquer edificação com base em uma planta e um orçamento.
  • Administração quotidiana de um empreendimento, com ênfase na solução de problemas de curto prazo.
  • Operação de um procedimento de trabalho, especialmente de forma contínua, como a elaboração de documentos ou a manutenção de um processo industrial.
  • Realização de transações comerciais e controle da execução de contratos.

As pessoas com temperamento pragmático enfatizam a realização de tarefas e o atendimento das prioridades quando trabalham em equipe. São descritas como pessoas ativas e detalhistas, em quem se pode confiar para que as coisas aconteçam conforme planejado. Elas fazem suas lições de casa e se preocupam com a viabilidade das proposições dos colegas. O estilo pragmático é determinante do sucesso de uma equipe nas fases de planejamento operacional, implementação e execução, quando é preciso pensar e agir para produzir resultados. Sem pragmáticos, uma equipe pode ficar no mundo das ideias e tornar-se incapaz de pensar na implementação.

Uma equipe formada ou dominada por pragmáticos, no entanto, corre o sério risco de avançar vigorosamente, para desenvolver projetos que não se sabe para onde vão.

Estilo analítico

 
O estilo analítico traduz-se na busca de informações concretas para tomar decisões. É combinação dos traços da percepção e da racionalidade. Os analíticos são racionais cartesianos que tentam extrair conhecimentos da observação da realidade, dividindo-a em partes e identificando relações de causa e efeito, para melhor entendê-la. A pessoa com esse estilo procura examinar todos os ângulos de um problema antes de tomar uma decisão ou assumir um compromisso. Os analíticos são determinantes para o sucesso da preparação do projeto, quando é necessário fazer projeções corretas de custo e prazo, com base em informações realistas. Certas pessoas preferem viver no mundo analítico. Gostam da investigação e são planejadores cuidadosos, que enfatizam o entendimento dos problemas que devem resolver. O estilo analítico revela-se no hábito de fazer perguntas. Por quê? Isso é informação ou opinião? Quando não conseguem aceitar as respostas, os analíticos também podem tornar-se críticos ou desafiadores, que questionam as imperfeições da realidade.

Os desafiadores tornam-se disfuncionais quando criticam por criticar, sem fornecer alternativas. Ao exagerar, eles tornam-se incômodos e acabam atrapalhando, em vez de ajudar a equipe. O desafiador pode ser apreciado por sua franqueza, mas ele, às vezes, não sabe quando é hora de parar e pressiona demais os colegas.

Exemplos de atividades que exigem o estilo analítico e nas quais provavelmente encontraremos pessoas com esse estilo e com tendência ao comportamento desafiador são as seguintes:

  • Pesquisa, em particular pesquisa científica.
  • Planejamento operacional de projetos.
  • Revisão e julgamento de trabalhos, como num júri ou banca de avaliação.
  • Levantamento, consolidação e interpretação de dados, especialmente em grandes volumes, para a identificação de tendências.

Em uma equipe, os analíticos desempenham o papel de cientistas que fazem as pessoas raciocinarem com base em informações concretas. Eles querem conhecer as justificativas e a lógica das decisões e não aceitam a autoridade como sinônimo da verdade.

Os analíticos que enfatizam o questionamento fazem os colegas pensarem criticamente sobre todos os aspectos do trabalho da equipe: as tarefas, os objetivos e a maneira como os integrantes se relacionam. Um crítico tem predisposição para discordar do líder e incentiva a equipe a exercitar a autocrítica. Por causa disso, o crítico impede que a equipe se acomode e enfraqueça.

Uma equipe sem essa contribuição tende a se apegar às tradições e a ignorar informações relevantes. As equipes sem desafiadores, ou que rejeitam o comportamento do desafiador, tendem à inércia e à estagnação. É arriscado, no entanto, ser desafiador. Nos regimes autoritários, eles são os primeiros a serem perseguidos.

Estilo interpessoal

 
O estilo interpessoal combina os traços da intuição e da percepção. É a capacidade de trabalhar com os processos humanos dos projetos. Os interpessoais enfatizam as relações humanas e buscam o entendimento e o consenso, como forma de conseguir resultados. No processo de resolver problemas, os interpessoais procuram montar uma rede de acordos, que viabilizem as decisões.

A pessoa orientada para as relações humanas é um comunicador. Ela ouve bem e facilita a participação alheia, a resolução de conflitos, o consenso e o surgimento de um clima amigável e descontraído. Ela está mais preocupada com a qualidade do relacionamento humano do que com a execução das tarefas ou a realização dos objetivos. Às vezes, no entanto, enxerga o processo como finalidade em si mesma.

Exemplos de atividades que exigem o estilo interpessoal e nas quais provavelmente encontraremos pessoas com esse temperamento são as seguintes:

  • Processos de formação e desenvolvimento de equipes.
  • Processos de negociação, mediação e resolução de conflitos.
  • Decisões coletivas.
  • Liderança.

Uma equipe sem comunicadores tem dificuldades em seus processos interpessoais. O estilo interpessoal é determinante em todas as fases de um projeto, como uma competência dos integrantes da equipe e do líder.

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  • Antonio Cesar Amaru Maximiano
    Antonio Cesar Amaru Maximiano

    É professor e pesquisador do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. É também Coordenador de Programas e Projetos da Fundação Instituto de Administração (FIA). Administração Geral, Administração de Projetos, Qualidade Total e Recursos Humanos são suas áreas de atuação no ensino e na pesquisa.