30 de junho de 2021

A falta de gestão de riscos é a antessala da crise

por GEN.N&G

A última semana de maio foi palco de alguns eventos negativos que representam crises graves. Neles, ficou patente como as empresas que não levam a sério a prevenção de acidentes e não têm uma cultura, nem uma área de gestão de riscos, acabam envolvidas por eventos graves, causando a morte e ferimentos em muitas pessoas.

O descaso com a vida aparece em toda a sua crueza em organizações que demonstram não ter qualquer cuidado, preparação, nem alternativas para enfrentar crises graves. Torna-se ainda pior, quando os acidentes acontecem em organizações cujo core business é cuidar, proteger e curar as pessoas, como os hospitais, creches, colégios; ou entreter, quando se trata de atrações turísticas.

Na sexta-feira (28), um incêndio praticamente destruiu o hospital Nestor Piva, em Aracaju, especializado em atendimento de infectados por Covid. 72 pacientes precisaram ser retirados às pressas. A fumaça e o fogo se espalharam rapidamente, o que resultou na morte de quatro mulheres. Ficou evidente que o hospital não tinha plano de emergência para abrigar os pacientes, no caso de evento grave como esse e consequente comprometimento das instalações. Uma medida básica de gestão de riscos que todos os hospitais, postos de saúde ou congêneres deveriam ter.

Até porque incêndios estão se tornando recorrentes nesses estabelecimentos no Brasil. Neste caso, o incêndio praticamente inviabilizou qualquer alternativa de aproveitar, a curto prazo, alguma parte do hospital, o que agrava ainda mais o atendimento de pacientes de Covid, na capital sergipana.

Em outubro de 2019, um incêndio atingiu o Hospital Badim, no Rio de Janeiro, pertencente à rede D’Or, resultando na morte de 22 pacientes, a maioria idosos. Cenas de pacientes sendo retirados em macas, atrelados a equipamentos hospitalares e estendidos no chão, na calçada da frente do hospital, pareciam cenas de guerra. Esse improviso naturalmente levou muitos idosos à morte.

Um ano depois, foi o Hospital federal Bonsucesso, no Rio de Janeiro, que incendiou. A falta de um plano de gestão de riscos acabou também causando a morte de 16 pacientes logo nos primeiros dias após o incêndio. Essas pessoas morreram, muito provavelmente, não da doença pela qual foram internadas, mas pelas consequências do incêndio no hospital. São eventos graves ocorridos pela falta de manutenção e de um exercício básico, em qualquer prédio residencial ou público: a prevenção de incêndios ou acidentes correlatos, algo que não é tão difícil de acontecer, principalmente nas unidades públicas.

Eventos semelhantes aconteceram recentemente no exterior. Em abril na Índia, um incêndio num hospital para pacientes de Covid matou 18 pessoas. Em 25 de abril, da mesma forma, incêndio em hospital de Bagdá (Iraque) causou a morte de 82 pacientes e profissionais, incluindo 28 pacientes intubados com Covid. O que demonstra não ser um deslize exclusivamente brasileiro. Mas evidencia que esses estabelecimentos devem ter um risco estrutural, que vai além do atendimento propriamente dito dos pacientes.

Ganância e irresponsabilidade derrubam o teleférico

Em Stresa, pequena e belíssima cidade à beira dos Alpes, na Itália, localizada à beira do Lago Maggiore, quase na fronteira com a Suíça, o teleférico da cidade, que levava turistas ao monte Mottarone, despencou e acabou rolando montanha abaixo. O popular teleférico turístico conecta em 20 minutos a cidade de Stresa com aquela montanha, que culmina a quase 1.500 metros e oferece uma vista privilegiada dos Alpes e do lago Maggiore. O teleférico esteve fechado entre 2014 e 2016 para trabalhos de manutenção e fechou, novamente, desde o início da pandemia. Reabriu recentemente. Dos 15 passageiros, 14 morreram, incluindo crianças. Um menino de 4 anos é o único sobrevivente, em estado grave.

Três dias após o acidente, três pessoas foram presas, o dono da empresa e dois operadores, porque a apuração das autoridades constatou que o freio de segurança do Teleférico foi desligado, porque precisaria de manutenção e atrasaria o início das operações da atração turística. A pressa e a ganância acabaram caracterizando um crime, como definiu a polícia. A irresponsabilidade dos mantenedores do Teleférico demonstrou um desprezo pela vida das pessoas. O governo italiano e o da província de Piemonte lamentaram o ocorrido pela terrível perda de pessoas que vieram para se divertir, exatamente no momento em que o país está abrindo, aos poucos, setores turísticos para permitir uma retomada da economia, após um ano de pandemia.

Por que as crises acontecem

Não é só na Covid, como acontece no Brasil, que o negacionismo mata. Quando se trata de gerenciamento de crises, grande parte das empresas não coloca esse tema na pauta, porque acredita que não terá crises. É uma autossuficiência irresponsável. Confiam no acaso, como se estivessem imunes a acidentes. Esquecem que 80% das crises vêm de dentro das organizações. De causas provocadas pela própria estrutura interna, por erros ou omissões de empregados e da própria diretoria.

Incêndios como os que aconteceram nesses hospitais, no Museu Nacional, em 2018, no Ninho do Urubu (centro de treinamento do Flamengo); na boate Kiss, em Santa Maria; no Museu da Língua Portuguesa, em 2015, em São Paulo, alguns com centenas de mortes, foram eventos que aconteceram por relaxamento nas medidas de prevenção que empresas ou instituições semelhantes precisam ter. Com os mecanismos de alarme e prevenção de incêndios existentes atualmente, é inconcebível que as pessoas estejam morrendo pela imperícia e irresponsabilidade dos administradores dessas unidades.

FONTE: Comunicação e Crise

Mais conteúdo no livro Gestão de Crises e Comunicação

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