17 de março de 2021

As fases históricas de um gestor de recursos

por Alexandre Póvoa

O mercado financeiro, a cada dia, a cada novo evento, vai testando os gestores de recursos ao limite. A necessidade de reciclagem permanente e certa “flexibilidade” intelectual tornou-se quase uma obrigação. Temos que tomar muito cuidado para que o “prazo de validade” de nossos conceitos não expire rapidamente.

Nos meus tempos de estudante de Economia, quando ouvíamos falar em mercado financeiro, logo a associação direta era com imperfeição, grandes arbitragens e ganhos fáceis e restritos a um grupo de investidores locais, já que a presença estrangeira, pelo menos nos pregões, era muito escassa no Brasil. Época longínqua de 80% de inflação ao mês.

Naqueles tempos românticos, era comum ouvirmos “lendas” de pessoas físicas que literalmente moviam mercados. Na bolsa, por exemplo, quantas vezes não escutamos histórias do tipo “estão puxando as cotações de Telebrás (em SP) ou Vale do Rio Doce (no RJ) para forçar o exercício de uma determinada opção”. Os volumes operados eram baixos e as ações só eram negociadas em nosso país, o que facilitava muito qualquer estratégia de manipulação arquitetada por algum player relevante.

Como gestores, às vezes éramos passageiros de certos movimentos. Hoje, tal possibilidade parece uma realidade muito distante, a não ser que houvesse uma “combinação” (na prática impossível) com os investidores espalhados pelo mundo, dado que as ações de algumas empresas são até mais negociadas em NY do que no pregão da B3, a única bolsa que sobrou no Brasil.

O primeiro grande choque para uma nova realidade veio em 1994 com a crise do México. Naquela época, pela primeira vez, inaugurava-se o conceito de globalização. Investidores externos começavam a explorar oportunidades nos mercados emergentes de forma mais organizada e o que acontecia no exterior definitivamente passava a pesar mais decisivamente no desenvolvimento do mercado local.

A partir daí, os mercados emergentes viraram, literalmente, um investment case. Os gestores descobriam a existência de mercados de maior retorno e volatilidade e que serviriam como um bom instrumento de diversificação.

O dinheiro farto encobriu, durante algum tempo, os enormes déficits em transações correntes da Ásia, a caótica reestruturação da Rússia pós-queda do muro de Berlim, a megalomania argentina e a desordem fiscal turca e brasileira.

E deu no que deu. Os Tigres Asiáticos, a Rússia, o Brasil, a Turquia e a Argentina “quebraram” no final do século XX, cada um obedecendo a sua forma, timing e estilo. Na época, o fenômeno da Internet, com suas inexplicáveis precificações de crescimento futuro, também contribuiu para apimentar ainda mais as crises. Os gestores experimentaram a depressão e a euforia. A internacionalização do mercado financeiro já era nítida e a presença de grandes fundos de derivativos alocando recursos em todas as partes do mundo começava a ficar mais frequente.

A insolvência do famoso fundo Long Term Capital Management, tocado por Myron Scholes e Robert Merton – deve ser lembrada como um símbolo daquele momento de transição. Afinal, se dois renomados ganhadores de Prêmios Nobel pelo trabalho sobre precificação de derivativos paradoxalmente podem perder rios de dinheiros com ativos russos, o que dizer de “mortais gestores”? O gestor de recursos que não se adaptou naquela época à premente demanda de entender um pouco mais a realidade de outros países e dos fluxos potenciais de investidores internacionais para qualquer mercado (bolsa, câmbio, juros e dívida externa), certamente reduziu suas chances de sobrevivência até hoje. Além disso, surgia com força um novo “paraíso acadêmico” a ser desvendado pelos analistas – a China – que mudou completamente o mapa referencial da economia mundial.

Nos últimos dez anos o gestor de recursos está tendo que passar por mais um de seus inúmeros “cursos práticos de pós-graduação”. Depois da crise bancária norte-americana e a debácle europeia, os bancos centrais e governos tiveram que agir para evitar o pior. A taxa de juros zero no mundo, marca desse século nos países desenvolvidos, é um grande quebra- cabeça. Aliás, desde quando, olhado isoladamente, o Brasil poderia imaginar ser um país de 2% a.a. de taxa básica?

Enfim, todos aplaudem essa história de políticas monetária e fiscal super-relaxadas, mas no fundo não têm a menor ideia de como cuidar no futuro de déficits monstruosos produzidos ao redor do globo. Então, os gestores vão vivendo um dia após o outro, já que o longo prazo parece não importar. As curvas de juros longas empinadas mostram a incerteza que paira entre os gestores. A apreciação das bolsas, no horizonte mais curto, parece um destino inexorável nesse mar de dinheiro em que ainda vivemos. O dólar, ainda muito valorizado do mundo, deve perder espaço caso tenhamos uma saída benigna da situação de caos fiscal em que nos encontramos.

Enquanto isso, os agentes de mercado vão reduzindo suas expectativas de crescimento do PIB brasileiro para 2021 e 2022 e aumentando as estimativas de inflação. A constante ameaça ao teto de gastos assusta bastante. Qual será a resposta das agências de rating caso esse teto não seja respeitado? Adicionando, com o IGP-M em doze meses acumulado na casa de 29% (e o consequente risco de passthrough), o real depreciado e a Treasury de 10 anos norte-americana caminhando para os 2% a.a., qual será a função reação do Banco Central?

Enfim, cabe ao gestor de recursos hoje operar esses sinais às vezes contraditórios que confrontam o curto, médio e longo prazos. A caravela mundial está tombada para um lado há mais de uma década e será custoso colocá-la no prumo sem ferimentos. Almoços grátis podem existir na literatura, mas nunca em mesas de operações, onde erros de compra e venda podem custar muito caro.

Mais conteúdo no livro Valuation - Como precificar ações

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  • Alexandre Póvoa
    Alexandre Póvoa

    É economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós-graduado em Finanças pelo IBMEC e MBA pela Stern School of Business (New York University) – com bolsa de estudos do Banco Mundial –, atua em gestão de recursos há mais de trinta anos. Ex-atleta profissional de basquetebol, trabalhou em instituições renomadas como Banco Inter-Atlântico, Fundação Eletros e Banco Morgan Stanley Dean Witter. Exerceu o cargo de Diretor de Investimentos do ABN AMRO Asset Management no Brasil, onde os fundos de investimento se notabilizaram pela excelência de gestão. Posteriormente, juntou-se ao Grupo Modal, onde foi Diretor Superintendente. Também fundou a Canepa Asset Brasil com sócios estrangeiros, gestora de sucesso na qual se dedicou como CEO. Como economista e na área de gestão de recursos, é um dos profissionais mais reconhecidos do mercado, tendo sido eleito quatro vezes, em pesquisa promovida pela Revista Investidor Institucional, o “Melhor Gestor de Fundos do Brasil”, nos segmentos de renda variável e multimercados. Póvoa dedica-se a sua empresa Valorando Consultoria, prestando assessoria a empresas e investidores, além de ministrar cursos e palestras por todo o Brasil. É colunista de diversos jornais e revistas.