7 de julho de 2021

Aquecimento Congresso USP: Reflexões sobre o futuro da Contabilidade

por Sérgio de Iudícibus

É importante reconhecer que, se o desenvolvimento da teoria e dos trabalhos teóricos não tem sido o ideal nestes últimos anos, também não se deve renunciar ao futuro promissor da pesquisa teórica. Há muito a construir, todavia, e temos que acelerar demais a fim de estarmos em paz com que a sociedade exige e espera dos teóricos e pesquisadores. Temos que observar que as pesquisas empíricas não têm faltado. Talvez não tenhamos sabido tirar desses milhares de trabalhos uma tendência central, ou talvez essa não exista.

Reflexões sobre o futuro da Contabilidade

 

Em primeiro lugar, pensadores e teóricos precisam se unir mais e estreitar seus relacionamentos. No Brasil, devido à iniciativa de alguns idealistas, temos tido repetidos simpósios nacionais de Teoria da Contabilidade. Diga-se que, sempre, o conteúdo das palestras tem se ligado às necessidade práticas da contabilidade. E muitos relacionamentos têm sido feitos com o trabalho das agências reguladoras. Teoria sim e cada vez mais, mas sempre tentando melhorar a prática e não tentando fazer ciência pela ciência, sem relacionamento com a utilidade da teoria que se afirma na melhora da prática.

A fraqueza dos teóricos e pensadores é que trabalham relativamente isolados em departamentos de universidades. Muitas vezes, pelo menos nos países menos abastados, tais universidades não dispõem de verbas para poder mandar seus professores para congressos internacionais e até nacionais. Por outro lado, esses teóricos pouco aparecem nas revistas mais acreditadas, tendo em vista que essas quase só aceitam trabalhos empíricos.

Entretanto, há uma gama muito grande de assuntos e tópicos para os quais é importante dedicar nossa atenção como teóricos e pesquisadores. Vamos citar alguns deles, sem a pretensão de sermos exaustivos:

1) Contabilidade Para Intangíveis Criados Internamente
2) Capital Intelectual
3) Pesquisas históricas
4) Contabilidade Gerencial e Teoria da Contabilidade
5) Pesquisas empíricas sobre a adequação das normas IFRS
6) Relato Integrados à Luz da Teoria da Contabilidade
7) Filosofia da Contabilidade

Tendo em vista a enorme diferença de valor das marcas das grandes empresas em relação a seu patrimônio líquido contábil, surge a dúvida se não se deveria voltar a pesquisar a contabilização, mesmo que em relatórios suplementares, de intangíveis criados internamente, entre os quais o goodwill e, também, investir-se tempo e esforços para caracterizar no balanço alguns itens da estrutura de capital intelectual. Pelo menos o capital humano deveria ser considerado como ativo. Já existiram tentativas bem sucedidas no passado para tal avaliação, como se calcular o valor presente dos salários futuros levando-se em conta a mobilidade no emprego etc.

O Brasil, principalmente, precisa se conhecer melhor com relação à história de sua contabilidade, desde a chegada da Corte portuguesa ao Brasil em 1808. Há um grande campo para pesquisas históricas, as de verdade, ou seja consultando documentos originais nos arquivos. Temos tido poucos trabalhos, entre os quais se destacam os do prof. Álvaro Ricardino.

Uma grande carência em nossos livros de teoria consiste na não inclusão da contabilidade gerencial no amplo guarda chuva conceitual de um livro de teoria. Temos que determinar se, de fato, a contabilidade gerencial tem que ser tratada, pelo menos seus princípios gerais, num livro de teoria ou, então, se não, esquecer de vez essa preocupação e deixar a gerencial totalmente desvinculada.

Já no que se refere às pesquisas empíricas sobre a adequação das normas IFRS à obtenção de certos parâmetros como previsão do valor das ações, se, de fato, a adoção das normas no Brasil diminuiu o custo de capital no mercado acionário, se, como consequência da adoção das normas aumentou o influxo de capital de risco estrangeiro nas empresas brasileiras, e outros muitos estudos. Esse assunto é de uma riqueza exploratória fantástica. Trata-se de verificar, através de pesquisas sérias, se a adoção das normas, com todos os custos que a envolveu, entregou, de verdade, todos os benefícios que se proclamam. Nosso feeling é positivo, mas é preciso provar.

Fala-se muito, atualmente, sobre Relato Integrado, que seria um conjunto de informações e indicadores envolvendo todos os setores da entidade e que vai muito além dos tradicionais relatórios contábeis. Essa busca e estudo acirrado sobre o assunto revela, em parte, a insatisfação dos administradores com relação a certos parâmetros do IASB/FASB de privilegiar apenas provedores de recursos. Esses estudos vêm sendo desenvolvidos mais por praticantes da contabilidade e muito pouco pelos teóricos e pensadores. A fim de atribuir ao estudo de assunto tão complexo e variado uma coerência conceitual é importante a participação dos melhores pensadores e pesquisadores.

Por último e não menos importante, é absolutamente necessário repensarmos toda a Teoria da Contabilidade à luz dos conceitos básicos de natureza filosófica e epistemológica. A própria função da pesquisa acadêmica e sua relação com a prática precisa ser mais profundamente estudada. Percebe-se que temos atuado menos do que o necessário em algumas áreas e quase nada em outras.

É preciso entender que os teóricos, em nível mundial, pelo menos os normativos, têm ficado algo encantados, nos últimos anos, com a audácia quase temerária dos órgãos reguladores e não aportaram as contribuições efetivas que seriam necessárias. Não adianta criticar sem nada apresentar de relevante e de novo. Certamente esses órgãos estariam sempre de braços abertos para contribuições conceituais de efetivo valor e alcance.

Se essa sensação for verdadeira é obrigação dos teóricos investir nesse caminho. Afinal, da mesma forma que os antigos navegadores, na falta da bússola, se utilizavam das estrelas para não se perderem na apavorante escuridão da noite, a teoria tem a mesma missão, qual seja, na falta de parâmetros regulatórios ou para se chegar a esses, ser uma espécie de bússola, guia e inspiração para os praticantes da contabilidade.

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Uma resposta para “Aquecimento Congresso USP: Reflexões sobre o futuro da Contabilidade”

  1. Avatar Alexandre Franco Godoi disse:

    Fantástico texto do Profº Iudícibus. Certamente, ainda há muito campo para trabalhos teóricos no meio acadêmico, embora cada vez menos esse tipo de abordagem tenha recebido destaque em teses, dissertações e artigos científicos. Os principais periódicos da área contábil deveriam ser mais flexíveis e abrir espaços para reflexões teóricas. Há certo exagero na publicação de pesquisas empíricas e carregadas de econometria. Entendo a importância deste tipo de pesquisa, porém não devemos renegar as pesquisas exclusivamente teóricas. Nosso país possui excelentes pesquisadores e professores que estão na ativa e com muito ainda para contribuir por meio de reflexões teóricas para nossa ciência contábil.

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  • Sérgio de Iudícibus
    Sérgio de Iudícibus

    É professor titular aposentado (Emérito) do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/ USP). Atualmente, é professor do Mestrado em Ciências Contábeis e Financeiras da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro do Conselho Curador da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (FIPECAFI). Foi Visiting Professor da Universidade de Kansas, nos EUA, quando, em 1986, ministrou, no Mestrado dessa instituição, as disciplinas Contabilidade Gerencial e Seminários de Teoria da Correção Monetária Contábil. Associou seu nome a uma importante etapa da evolução da Contabilidade no Brasil, quando, em 1962, juntamente com outros pioneiros, iniciou a mudança do ensino e da pesquisa em Contabilidade, lançando as bases de uma linha de pensamentos mais voltada para as necessidades do usuário da informação contábil. Exerceu, em várias gestões, a Chefia do Departamento de Contabilidade e Atuária da FEA/USP, bem como foi seu Diretor entre 1979 e 1983. Também exerceu a função de Diretor de Fiscalização do Banco Central do Brasil.