1 de julho de 2020

Gentrificação, tendência ou utopia?

por Tadeu Cruz

Tenho, há algum tempo, me dedicado a pesquisar e a pensar sobre o tema que atende pelo nome genérico de smart cities. Dentro deste grupo de conceitos, métodos e tecnologias, um, em especial, tem me chamado a atenção por conter, em seu conceito uma mudança que irá impactar sobremaneira o modo como as pessoas vivem nas grandes cidades: a gentrificação.

Mas o que é gentrificação?

 
Entenda-se por gentrificação o processo de revitalização dos espaços urbanos ou a aparente substituição de paisagens de caráter popular por construções típicas de áreas nobres. Trata-se de um processo em que o espaço geográfico urbano se transforma e se ressignifica, sobretudo em função da valorização acentuada e do enobrecimento de uma área antes considerada periférica.

Na maioria das vezes as áreas periféricas de uma cidade se formam de maneira não planejada por meio de invasões, de grilagens de áreas públicas, por meio de expansões descontroladas de loteamentos imobiliários ilegais em áreas afastadas. Esses locais, sem infraestrutura básica (como saneamento, asfalto e transporte público de qualidade), sofrem pela sua distância em relação aos principais centros urbanos da cidade.

Com o tempo, estas concentrações vão se adensando e, com isto, forçando o poder público a levar toda infraestrutura necessária para que aquelas áreas se tronem dignamente habitáveis. É nesse contexto que a gentrificação ocorre, pois as áreas antes desvalorizadas passam a ter um custo muito alto, ao passo em que a população residente nesse local é gradativamente substituída por um perfil comercial ou de grupos sociais mais abastados. Com isso, a paisagem modifica-se, e as zonas, que antes eram só guetos, barracos e pobreza, transformam-se em condomínios, prédios e casas de médio e alto padrão.

Um exemplo nítido do processo de gentrificação no Rio de Janeiro é a favela do Vidigal. Historicamente formada a partir de invasões sem infraestrutura alguma, o Vidigal foi aos poucos se transformando, recebendo novas casas e apartamentos de luxo, dentro de condomínios horizontais e verticais, formadas por pessoas ricas que buscam a área visando à bela visão do alto do morro. Com isso, o Vidigal vai conhecendo uma maior valorização de seus espaços, com a substituição do perfil de moradores e, consequentemente, das estruturas que os cercam.

É neste contexto que têm sido discutidas as tecnologias que compõem o conceito de Smart Cities, pois tais tecnologias podem ser implantadas a um custo menor do que nos grandes centros urbanos, onde a infraestrutura existente, e o adensamento urbano, elevarão os custos de implantação de tais tecnologias por precisarem ser removidos ou ajustados.

O que é uma smart city?

 
Segundo a união Européia, Smart Cities são sistemas de pessoas interagindo e usando energia, materiais, serviços e financiamento para catalisar o desenvolvimento econômico e a melhoria da qualidade de vida.

Uma Cidade inteligente (smart city) é uma área urbana que usa tipos diferentes de sensores eletrônicos da Internet das Coisas (IoT) para coletar dados e usá-los para gerenciar recursos e ativos eficientemente. Incluindo dados coletados de cidadãos, dispositivos que são processados ​​e analisados ​​para monitorar e gerenciar sistemas de tráfego e transporte, usinas de energia, redes de abastecimento de água, gerenciamento de saneamento básico, detecção de crimes, sistemas de informação, escolas, livrarias, hospitais e diversos outros serviços para a comunidade.

Smart é um adjetivo que hoje está presente em praticamente tudo que compramos e consumimos. Tudo é Smart. A “smart city” é certamente um dos conceitos “smart” que mais mexem com a imaginação de todos nós.

Claro, para que alguma coisa (IoT) seja considerada smart é necessário que preencha alguns requisitos que só serão encontrados nas novas Tecnologias da Informação; modernidades tais como Bots, IA, redes neurais, etc., etc. Como, por exemplo, os semáforos instalados em Roterdã, que em dias chuvosos priorizam os ciclistas em detrimento dos automóveis.

Mas, uma coisa é falarmos de Roterdã, com uma população urbana próxima dos 2 milhões de habitantes, distribuídos por 116.99 km² e de como os holandeses a transformaram numa smart city, outra é falarmos de Nova Deli, capital da Índia, com uma população de quase 50 milhões de pessoas, e que figura nas estatísticas como a maior aglomeração urbana do mundo, estendendo-se por uma área de mais de 33,5 mil km², o que a torna a mais extensa região metropolitana do mundo. E eu nem falei do trânsito caótico de Nova Deli.

Como podemos deduzir, por meio deste exemplo comparativo entre Roterdã e Nova Deli, “smart city” não pode ser reduzida a uma única definição, a uma ideia simplista de implantação e utilização de novas tecnologias, tão na moda entre as elites das categorias profissionais, incluindo-se aí a Academia.

Tenho defendido em vários artigos que o que se ouve nos congressos sobre novas tecnologias e novas tendências de utilização destas tecnologias em centros como São Paulo, Nova Iorque, etc., tem que ser devidamente entendido no contexto de cada realidade, de cada cidade.

Por exemplo, embora o Vidigal tenha se expandido para a Barra da Tijuca, bairro de alto poder aquisitivo, ela mesma, a favela do Vidigal, ainda continua sem o mínimo de infraestrutura e presença do poder público.

É preciso, também, levar em consideração o nível de educação e a maturidade da consciência cidadã de cada habitante em cada país e cidade.

Por exemplo, na maioria das cidades brasileiras os motoristas não respeitam as faixas de pedestre, não utilizam a seta do veículo quando vão virar à direita ou a esquerda, param em vagas exclusivas para idosos e deficientes, etc., etc., etc., e são os mesmos que embevecidos ouvem as palestras dos novos evangelistas nos congressos e seminários.

Antes de pensarmos em adotar novas Tecnologias da Informação é preciso fazermos um esforço muito grande para nos reeducarmos.

Smart cities só serão exequíveis, desde que uma série de pré-requisitos tecnológicos sejam cumpridos, quando a humanidade, a grande maioria, pensar e se comportar como uma coletividade, pois, por incrível que pareça, ainda somos muito egoístas.

FONTE: TADEU CRUZ

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  • Tadeu Cruz
    Tadeu Cruz

    É Graduado em Administração de Empresas e em Filosofia pela Universidade São Marcos (1982). Especializado em System Software e em Data Communication Software pelo Cologne International Training Centre (Colônia, Alemanha) (1980). Especializado em System Engineering pela Hewlett Packard de México (1987). Mestre em Engenharia de Produção – Pesquisa Operacionale Gerência da Produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE-UFRJ) (2005). Professor de diversas universidades em cursos de graduação e pós-graduação. Ex-professor do curso de Engenharia de Produção da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Autor de 25 livros técnicos (3 em coautoria, sendo 1 em inglês), 6 livros de poesias e 1 livro de contos. Participou de mais de 140 cursos de extensão e especialização na Itália, França, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Argentina e México. Possui 43 anos de vivência e experiência em Tecnologia da Informação e da Comunicação, e 33 anos de vivência e de experiência em Qualidade e Desenvolvimento Organizacional. Trabalhou como consultor de Tecnologia de Informação e da Comunicação e de Gerência de Processos e Projetos no Uruguai, Chile, Argentina, Alemanha, Angola, Moçambique, Paraguai, Venezuela e Estados Unidos. Criador da Metodologia DOMP™ para mapeamento, análise, modelagem, implantação e gerenciamento de processos de negócio, utilizada em empresas localizadas em vários países e referenciada em dezenas de trabalhos acadêmicos.