10 de setembro de 2020

A Gestão da Aprendizagem no contexto da pandemia

por Hong Yuh Ching

Lançamos no início deste ano, às vésperas da quarentena, o livro Gestão da Aprendizagem: casos práticos. Apresentamos ao longo do livro, com base na proposta do Assurance of Learning (AoL), os conceitos e práticas essenciais para se ampliar a efetividade do processo de aprendizagem dos alunos. Além disso, trouxemos casos práticos de diferentes áreas e perfis de alunos para exemplificar como este conjunto de boas práticas pode em diferentes contextos ser útil e efetivo.

Hoje, neste momento de quarentena, quando fomos obrigados a migrar de forma radical o processo de ensino e aprendizagem para o ambiente virtual, gostaríamos de discutir o que muda (ou não) neste processo. Apresentaremos a seguir como cada uma das etapas do processo de Gestão da Aprendizagem é ou não afetado por esta necessária migração.

A gestão da aprendizagem no contexto da pandemia

 

Definição dos Objetivos de Aprendizagem

 
Considerando a sequência de etapas que sugerimos para a Gestão da Aprendizagem, temos primeiro a definição dos objetivos de aprendizagem. Apresentamos no Capítulo 1 do livro, que a definição dos objetivos de aprendizagem deve levar em conta o contexto. Assim, na migração para o ensino à distância você deve levar em consideração as condições que o seu público tem ou não de seguir o curso no contexto online.

Na maior parte das escolas, devido ao caráter urgente da parada e retomada das aulas, não foi possível fazer um levantamento preciso destes cenários. No entanto, ao longo do tempo todos aprendemos que é importante entender qual a qualidade da conexão de internet que o seu público possui, a qualidade dos equipamentos como computadores, celulares ou tablets, nível de privacidade que os discentes possuem em suas residências para acompanhar as aulas e conteúdos, assim como, nível de autonomia e disciplina dos discentes, além de questões emocionais e de saúde que podem também interferir no processo.

Estes foram os fatores que na nossa experiência prática mais pareceram afetar a condição dos alunos no acompanhamento dos cursos. Portanto, estes seriam os fatores que poderiam implicar em uma revisão dos seus objetivos de aprendizagem, uma vez que, os objetivos definidos anteriormente podem não ser mais atingíveis.

Caso você não possua informações sobre essas condições do seu corpo discente, vale fazer um levantamento através de questionários online ou até mesmo de um acompanhamento mais próximo ao longo das aulas e contatos individuais, visto que algumas questões podem ser sensíveis e delicadas.

Além disso, vale também uma reflexão sobre o conteúdo. Muitos professores e professoras tiveram dificuldade em manter o mesmo conjunto de conteúdos que estavam propostos para seus cursos no contexto presencial para o online. Muitas vezes as dificuldades tecnológicas fazem com quem o aproveitamento da carga horária proposta seja mais desafiador. Em outros casos, docentes e discentes relatam perceber o tempo do online de maneira diferente, além da já conhecida “zoom fatigue”. Certamente alinhar bem os seus objetivos e os conteúdos que poderão ser abordados em uma disciplina ou curso é crucial para seu sucesso.

O conteúdo pode a primeira vista parecer desvinculado da decisão de um curso virtual ou não, mas há fatores de recursos e contexto que interferem. Pensemos novamente na qualidade de acesso à internet que possuem, qual o acesso a livros e materiais necessários para seu aprendizado, uma vez que as bibliotecas se encontram fechadas em sua maioria, etc. Portanto é provável que o conteúdo planejado tenha que, de alguma forma, ser readequado para a garantia de aprendizado do aluno, mas agora em diferentes condições.

Alinhamento entre Objetivos e Resultados

 
Na etapa seguinte, de alinhamento de objetivos e resultados, definem-se atividades associadas aos objetivos de aprendizagem, elas são estratégias de ensino que possibilitam a aprendizagem dos alunos. Por exemplo, quando uma atividade em grupo pode ajudar? Ou qual a duração ideal de uma aula? Como dar feedback? Como dissemos, ficar plugado no computador ou outro aparelho é mais cansativo que uma sala de aula, logo a distribuição entre aulas expositivas e discussões em grupo deve ser a mesma? Dinâmicas mais ativas podem garantir maior interesse dos alunos neste novo formato?

Essas são sem dúvida, questões que precisam ser feitas e sobre as quais devemos refletir. As boas práticas do ensino remoto têm demonstrado que é necessário ainda mais pensar e trabalhar a interação dos alunos ao longo das aulas, devido a facilidade de dispersão.

Recomenda-se que haja algum tipo de interação a cada 15 minutos. Nesse sentido, longas exposições não são recomendadas. Além disso, vale repensar as interações síncronas e assíncronas. Dado o cansaço que se relata em longos períodos conectados, valorize o tempo de seus alunos e faça de maneira assíncrona tudo aquilo que não necessita de toda a classe online ao mesmo tempo. Por exemplo, grave suas exposições e apresentações, disponibilizando antecipadamente aos alunos. Deixe para os momentos síncronos os debates, análise de casos, etc.

Outro fator importante neste momento, e que pode restringir a aprendizagem do aluno, é o grau de segurança que o professor tem no emprego de algumas dinâmicas. Quão familiarizados estão com o ambiente virtual? As dinâmicas de aprendizagem podem ser transportadas para o mundo virtual, mas é necessário conhecer minimamente as ferramentas disponíveis no mundo virtual para se conseguir fazer esta passagem. No entanto, não se limite, busque conhecer e experimentar novas ferramentas e dinâmicas.

Os alunos estão abertos a experimentação e sabem que nesse momento a inovação não é uma escolha, mas uma necessidade. Claro que as instituições de ensino devem buscar preparar seus professores e oferecer a eles treinamentos, conteúdos e espaços de troca sobre o que tem funcionado ou não. É hora de inovar não só em sala de aula, mas também na preparação dos professores. O contexto do ensino à distância é novidade para a maior parte das escolas, universidades, professores a alunos. Vamos todos juntos!

Resultados

 
As técnicas de apuração dos resultados do processo de aprendizagem devem ser repensadas também para o contexto online. Os tradicionais modelos de prova que se preocupam com as possibilidades de “cola” ficaram muito fragilizados. A menos que se possua ferramentas tecnológicas que reproduzam este cenário, bloqueando a possibilidade de consulta dos alunos à fontes externas, controle do tempo de resposta, entre outros, não é possível garantir que o aluno não estejam de alguma forma “forjando” os resultados.

Além disso, os momentos de avaliação são sempre tensos e a pandemia somada aos desafios tecnológicos podem aumentar ainda mais essa tensão (será que minha internet vai funcionar no horário da prova? E se o computador travar?). Por tanto, vale repensar à luz deste cenário novas ferramentas de avaliação. Será que não podemos dar mais ênfase a ao Diagnóstico Somativo ao invés do Diagnóstico Final? Talvez substituir a prova em sala por trabalhos ao longo do curso ou disciplina e, por exemplo, usar ferramentas de gamificação nestes trabalhos? Enfim, cada disciplina apresentará um desafio diferente e que deve ser repensado.

Avaliação dos Resultados e o Fechamento do Loop

 
As fases finais do processo de Gestão de Aprendizagem talvez sejam as menos afetadas. As etapas de avaliação dos resultados e fechamento do loop seguem intactas no “como fazer”, porém certamente ganham ainda mais relevância, uma vez que, a mudança e o ajuste ao novo contexto se fazem como regra.

Havia uma possibilidade de o online não se estender para o segundo semestre de 2020, porém se estendeu. Então, sem dúvida, esta seja será necessário considerar sua experiência no primeiro semestre para repensar seu curso ainda para o ensino à distância.

Além disso, quais são os aprendizados que nós professores e professoras levaremos na volta para o presencial? Como nossos cursos irão mudar ou não? Enfim, reflexões que sem dúvida são necessárias e que não poderemos deixar de fazer, sobretudo se levarmos o processo de Gestão da Aprendizagem a sério.

Os Impactos do EAD Estruturado na Emergência da Pandemia

 
Não podemos deixar de discutir aqui também os impactos dessas mudanças às pressas e que nem sempre deram conta da diversidade dos públicos discentes. Sabemos que nas diversas regiões do país e nas diversas classes sociais os impactos foram diferentes e que alguns grupos de estudantes precisarão de reforços ou não poderão ser aprovados e seguir seus estudos como gostariam. Esperamos que professores e instituições de ensino possam se organizar para também dar conta desses grupos e permitir a eles acesso a um processo de aprendizagem de qualidade e efetivo, ainda que em caráter de reforço e dentro de suas capacidades tecnológicas e cognitivas.

Esperamos, também, que o impacto desta mudança radical seja minimizado ao longo do tempo, com professores e alunos se acostumando ao ambiente virtual e podendo usá-lo da melhor forma.

Não temos dúvida que já estamos descobrindo as vantagens deste formato, sendo, talvez, a mais gritante a diminuição das distâncias que permite estarem na mesma “sala” pessoas de cidades e até países diferentes. Quando esta situação de exceção acabar, provavelmente muitos cursos continuarão integralmente ou parcialmente virtuais, aprenderemos a usar o que trazem de melhor, mas nunca deixaremos de cuidar do que realmente importa, o aprendizado efetivo dos alunos.

Enfim, os passos para a Gestão da Aprendizagem descritos em nosso livro continuam os mesmos, seja no ambiente presencial, virtual ou híbrido, deve-se, porém, ter o cuidado em adaptar, e usufruir o que há de melhor em cada um dos casos.

texto por Hong Ching, Lígia Vasconcellos, Amanda Gross 

Mais conteúdo no livro Gestão da Aprendizagem

newsletter

LEIA TAMBÉM:

 

Tags: , , , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • Hong Yuh Ching
    Hong Yuh Ching

    Formado em Administração pela FGV/SP, especialização em finanças por CEAG/FGV, Mestrado em Contábeis pela PUC/SP e Doutorado em Engenharia pela Unicamp. Professor titular do Centro Universitário FEI, desde inicio de 2010 ocupa cargo de Coordenador do curso de ADM, campus SBC. Autor de diversos livros e artigos em periódicos nacionais e internacionais. Suas linhas de pesquisa são em finanças, sustentabilidade e educação em gestão.