21 de março de 2019

Quais serão as top habilidades do futuro? Pense, criticamente!

por Martha Gabriel

Discutimos anteriormente a importância de nos tornarmos profissionais exponenciais para conseguirmos navegar no ambiente sócio tecnológico emergente. Para tanto, o caminho é criarmos uma simbiose humano-tecnológica em que cada parte contribua com o seu melhor, resultando em um novo ser, um homo digitalis: capacitado, integrado e preparado para esse futuro. Já sabemos “o que” está acontecendo e “onde” devemos chegar – nos resta saber o “como”. A partir desse episódio, passamos a abordar esse “como”: Quais habilidades devemos desenvolver? Quais são as mais importantes? Quais as habilidades do futuro? Como realizar a transformação necessária para chegarmos lá? Quais são os desafios e como superá-los? Logicamente, isso é assunto para vários episódios, assim, vamos começar pelo começo 🙂 First things first!

Habilidades do Futuro

 
Existem inúmeras habilidades humanas essenciais para nos tornarmos um profissional exponencial. Desenvolver uma ou outra é um início, mas conforme vamos adquirindo mais dessas capacidades, as habilidades se somam, e a sua união e complementariedade criam a verdadeira simbiose e a sinergia necessária para atuarmos cada vez com mais sucesso no mundo digital. No entanto, para começar nossa transformação, precisamos iniciar por alguma delas, certo? Como escolher? A questão aqui é: qual é a top habilidade para o futuro? Por onde começar? Na minha opinião, a habilidade que se destaca de todas as outras e deveria ser a primeira a lapidarmos e melhorarmos o máximo possível, pois é a fundação para o desenvolvimento das demais, é o pensamento crítico! Explico…

Muitos apontam como principal habilidade humana para o futuro a criatividade, considerando-a como aquilo que nos distingue dos robôs. Sem sombra de dúvidas, a criatividade é importantíssima para o futuro (e vamos aborda-la em um próximo episódio), mas, na realidade, a criatividade sozinha, sem ação, sem método, sem pensamento crítico não resolve nada. Além disso, há tempos que a criatividade não é mais uma habilidade exclusiva de seres humanos: máquinas têm se tornado gradativamente mais criativas, e, em alguns casos, vencendo a criatividade humana. Ainda, especialmente porque as máquinas passaram a ser criativas também, nós humanos precisamos intensificar nossa criatividade atuando em conjunto com elas – por isso, no artigo “Como não ser substituído por um robô” listo também a criatividade: porém, não de forma isolada, mas em conjunto com as demais habilidades.

Outro conjunto de habilidades que argumento nos meus livros, e que especialmente nos diferenciam dos robôs atualmente são os 3 E’s — Emoção, Empatia e Ética. Entretanto, sem pensamento crítico, essas habilidades podem ficar sem direcionamento e não gerarem resultados. Por exemplo, se sinto empatia em relação ao outro, mas não consigo pensar criticamente para encontrar caminhos para ajuda-lo, essa empatia não lhe foi útil. O mesmo acontece com emoção e ética – elas são valiosas quando aplicadas adequadamente, caso contrário, como a criatividade, não resultam em soluções necessárias.

Outra habilidade essencial óbvia para o futuro é a nossa capacidade de nos digitalizamos, ou seja, abraçarmos a tecnologia, nos misturarmos com ela, criando o processo de simbiose incorporando suas habilidades para nos ampliar, nos exponencializar. No entanto, como podemos escolher quais tecnologias devemos incorporar ou não, se não temos pensamento crítico?

Assim, realmente existem diversas e importantes habilidades para o futuro, e trataremos cada uma delas aqui nos próximos episódios, mas, acredito que a pedra angular, a fundação, a habilidade número um para chegarmos lá é o pensamento crítico: é ele o nosso principal instrumento não apenas para desenvolver as demais habilidades que precisamos, mas, também, para nos direcionar e extrair sentido do mundo cada vez mais complexo que se apresenta. Ele é nossa bússola, nossa carta de navegação e descobertas no mundo incerto, ambíguo, complexo e acelerado em que vivemos. Além disso, até que as máquinas atinjam o grau da geral inteligência humana (AGI – Artificial General Intelligence) – algo esperado para os próximos 40 a 50 anos (ver imagem a seguir) –, o pensamento crítico (envolvendo a utilização de todas as capacidades humanas juntas) é uma das principais habilidades que nos distingue dos computadores, e é principalmente, aquela que determinará o nosso futuro: as nossas decisões para nos desenvolvermos e convivermos com eles.

Quais serão as top habilidades do futuro? Pense, criticamente!

Admitindo, portanto, que o pensamento crítico é um recurso valioso e essencial para o profissional do futuro, detectamos um desafio fenomenal no contexto atual: paradoxalmente, conforme precisamos cada vez mais de pensamento crítico, ele tem se tornado cada vez mais escasso. Vejamos…

A Era da Estupidez

 
A maior vantagem competitiva da humanidade ao longo da história tem sido a inteligência –não somos os mais rápidos, os mais fortes ou os mais antigos habitantes do planeta, mas, graças à inteligência, temos dominado não apenas os demais seres, mas também, e principalmente, o ambiente e leis naturais que o regem. Voamos sem termos asas naturais; enxergamos estrelas, mesmo nascendo com olhos incapazes de fazê-lo; viajamos nas profundezas dos oceanos sem possuir guelras ou nadadeiras; isso, dentre as infindáveis conquistas que alcançamos durante a nossa existência. Assim, conforme evoluíamos, mais inteligentes e poderosos nos tornávamos…. século a século, década a década, ano a ano… até a segunda metade do século XX, quando a situação muda — desde então, a inteligência geral do ser humano parece estar diminuindo, e isso é preocupante. Mas, como percebemos que isso está acontecendo?

Desde a sua criação, em 1905, o teste de QI tem sido o instrumento mais utilizado para medir a inteligência humana. Sabemos que a inteligência não é algo simples de mensurar e quantificar, pois se apresenta de múltiplas formas e utiliza diversos tipos de recursos para se manifestar – sejam eles naturais ou artificiais. Assim, fica claro que o QI não indica as várias dimensões da inteligência ou o valor de um indivíduo, e nem é capaz de determinar o seu sucesso na vida. No entanto, apesar das críticas e limitações que apresenta, ele consegue medir a cognição básica do ser humano: a sua capacidade de executar as funções mentais elementares que formam a fundação para todas as outras. Portanto, ele funciona como um mínimo denominador comum da inteligência, e, por isso, pode ajudar a enxergar a evolução (ou involução) da inteligência.

Durante o século XX, estudos apontam que o QI aumentou consistentemente no mundo todo, em média três pontos por década – fenômeno conhecido como “Efeito Flynn”. No entanto, evidências na mensuração do QI em pessoas no Reino Unido, Dinamarca e Austrália mostram declínios na última década, indicando uma reversão do processo, batizada de “Efeito Flynn Reverso”. A situação se agrava em um estudo realizado pela Universidade de Hartford, que aponta que o QI já vem diminuindo há muito mais tempo.

Quais serão as top habilidades do futuro? Pense, criticamente!

Existem diversas explicações tanto para o crescimento quanto para a queda do QI no século XX. Inúmeros fatores contribuíram para o Efeito Flynn, especialmente as melhorias nas condições ambientais – nutrição, saneamento, saúde, educação, etc – melhorando o nosso desenvolvimento geral, inclusive, a inteligência. Por outro lado, os pesquisadores da Universidade de Hatford argumentam que fatores ambientais são forças externas que mascararam os índices do declínio biológico interno humano, que teria atingido o seu máximo potencial de inteligência em 1950, e vem caindo a partir de então. Além disso, eles defendem também que quanto maior se tornar a população global, menos inteligente seremos, prevendo uma queda aproximada de 8 pontos nos próximos cem anos – essa tendência se deve ao fato de que pessoas mais inteligentes têm tido menos filhos, diluindo a taxa de propagação genética dos QIs mais altos.

Outra justificativa para a queda do QI está relacionada com a evolução da tecnológica: com o avanço tecno-social, a vida tem se tornado mais fácil e segura, não requerendo melhorias de inteligência para garantir a sobrevivência. Por exemplo, um erro de análise durante a caça de animais para alimentação na pré-história poderia significar a morte; hoje, um equívoco durante uma compra no supermercado tende a ser insignificante em nossas vidas.

Algumas linhas mais radicais acreditam que o auge da capacidade cognitiva pura do ser humano (analisar, enfrentar e superar um problema desconhecido) já aconteceu muito antes da revolução digital — há cerca de cem anos, segundo o pesquisador Michael Woodley, ou, até mesmo, há milhares de anos, de acordo com o biólogo Gerald Crabtree. Isso faz sentido, se considerarmos que o avanço tecnológico gradativamente simplifica e facilita a nossa vida, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, por outro lado, também causa um aumento de complexidade no mundo – o resultado é que o indivíduo passa a ter cada vez mais dificuldade para conseguir compreender e dominar sozinho os processos ao seu redor, diminuindo a visão holística e capacidade de solucionar problemas inéditos, criando segmentação e especialização.

Some-se a isso tudo a fragmentação, onipresença e avalanche informacional a que estamos submetidos no século XXI, dissipando e sobrecarregando a nossa atenção. Como consequência, temos prestado cada vez menos atenção às coisas — que são cada vez menores e fragmentadas, e nos distraem constantemente – e precisam, assim, ser cada vez mais simples e fáceis de entender. Não é à toa que a música tem se tornado mais homogênea e menos complexa e que os discursos políticos têm se nivelado com o de crianças, como mostrado a seguir, em um estudo realizado pela Universidade Carnegie Mellon, nos USA.

Quais serão as top habilidades do futuro? Pense, criticamente!

Assim, uma série de evidências parece suportar a polêmica constatação de Umberto Eco em 2015, que “as redes sociais deram voz aos imbecis”, apontando para algo que intuitivamente talvez também nós tenhamos percebido, e que esteja na raiz de inúmeros problemas atuais – em média, estamos regredindo intelectualmente: vivemos a era dos distraídos, a era da polarização, a era da estupidez.

Pensamento Crítico

 
Se enfrentamos, por um lado, um impacto negativo na inteligência básica da humanidade, por outro, a situação se agrava ainda mais, pois o contexto tecnológico atual tende a: 1) nos seduzir para pensarmos menos e; 2) nos sobrecarregar, dificultando a tomada de decisão. Em outras palavras, comprometendo o pensamento crítico.

Apesar de estarem intimamente relacionados, pensamento crítico não é sinônimo de inteligência – enquanto a inteligência fornece um conjunto de habilidades cognitivas que permitem pensar racionalmente para alcançar uma meta, o pensamento crítico é a disposição e a capacidade de usar essas habilidades cognitivas. Por serem recursos extremamente valiosos para o sucesso de um indivíduo, a busca por melhorias nos níveis de inteligência e pensamento crítico é o santo graal para o futuro. Sabemos que existem formas para se ampliar tanto um quanto o outro. No entanto, melhorar a inteligência é mais difícil, pois ela tem raízes fortes na genética. O pensamento crítico, por sua vez, pode ser mais facilmente ensinado e praticado – suas raízes estão na educação e cultura, que fomentem o exercício e utilização das nossas capacidades cognitivas para racionar e alcançar objetivos.

Assim, podemos dizer que o pensamento crítico é a disciplina no uso das habilidades cognitivas da inteligência focada em metas específicas – consiste de metodologia para capturar dados (observação, experiência, expressão verbal ou escrita, argumentos) com a melhor qualidade possível, para formar julgamento (análise) e gerar ação (mudança para alcançar a meta). Dentre as diversas técnicas para desenvolver e aprimorar o nosso pensamento crítico, destaco as seguintes:

1. Ceticismo amável

 
Ceticismo não é a atitude de não acreditar em nada, e sim, o questionamento para validar (ou não) pensamentos, fatos, opiniões ou crenças estabelecidas. Nesse sentido, o ceticismo requer evidências que suportem as crenças, evitando tentativas falaciosas de persuasão (o “amável” fica por conta da forma como se deve obter essas evidências, sem a necessidade de agressão, violência ou polarizações, que além de ineficientes, são também contra produtivas). Ceticismo é o filtro de entrada de informações do pensamento crítico.

2. Empenho na superação de vieses cognitivos

 
Um dos principais inimigos do pensamento crítico são as crenças que temos enraizadas no nosso próprio sistema cognitivo, denominadas vieses cognitivos. Elas são extremamente perigosas porque não percebemos que elas existem, e assim, elas funcionam como um inimigo invisível e poderoso dentro de nós, contaminando a nossa visão de mundo. Para podermos combate-los, precisamos conhece-los: viés de confirmação, efeito priming, efeito halo, viés de retrospectiva (hindsight bias), entre outros.

3. Fundamentação em lógica, argumento e retórica

 
Para pensar criticamente, é necessário validar, analisar e avaliar os encadeamentos de pensamentos para escolher a melhor solução. Os instrumentos utilizados para tanto são a análise lógica de argumentos, e a retórica, que permite a extração e refinamento de dados e argumentação. Portanto, para formar pensamento crítico, precisamos ser letrados e treinados para exercitarmos esses três fundamentos.

4. Repertório

 
Por mais que sejamos letrados em lógica, argumentação e retórica, se não tivermos repertório não temos como aplicá-los. O repertório informa o pensamento crítico em vários níveis, e quanto maior ele for, mais amplo se torna esse pensamento. Assim, o repertório é o ingrediente secreto fundamental para o pensamento crítico – ele alimenta o método na geração de resultados.

5. Conjunto de atitudes e valores

 
Essa é a régua com a qual balizamos o pensamento na busca de uma meta. Quanto mais amplo e aberto for o nosso conjunto de valores e atitudes, maior o alcance do pensamento crítico. Valores precisam ser cuidadosamente selecionados e pensados para que se tornem faróis de direcionamento e não prisões limitantes, como os vieses cognitivos. Questionar e revisitar valores e atitudes para revalidá-los ou descarta-los são características importantes do pensamento crítico.

Pense criticamente, logo exista futuramente 😉

Que tal fazermos uma reflexão rápida agora, analisando como está o nosso pensamento crítico e como usar as reflexões acima para melhora-lo? Essa é a habilidade fundamental para conquistarmos as demais habilidades essenciais do profissional exponencial.

Pensar criticamente traz ainda benefícios adicionais — não apenas ajuda a preparar para o futuro, como também favorece o bem-estar e longevidade dos seus praticantes.

Mais conteúdo no livro Eu, Você e os Robôs
 
Fonte: https://www.linkedin.com/

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  • Martha Gabriel
    Martha Gabriel

    É considerada uma das principais pensadoras digitais no Brasil, referência em inovação, transformação e educação digitais. Autora de dois best-sellers e finalista do Prêmio Jabuti, é também premiada palestrante keynote internacional, tendo realizado mais de 70 apresentações no exterior, além de 4 TEDx. É uma das palestrantes mais requisitadas do Brasil, realizando mais de 100 palestras por ano. Apresentadora da websérie “Caminhos da Inovação” da Desenvolve SP e do Mundo Digital e “SEBRAE Digital” na Rádio Jovem Pan. Rankeada entre os 50 profissionais mais inovadores do mundo digital brasileiro pela ProXXIma, entre os Top 50 Marketing Bloggers mais influentes do mundo pelo KRED e Homenageada Especial do Prêmio Profissional Digital ABRADi 2017. Executiva e consultora nas áreas de business, inovação e educação. Engenheira pela Unicamp, pós-graduada em marketing pela ESPM-SP e em design pela Belas Artes-SP, mestre e Ph.D em artes pela ECA-USP e educação executiva pelo MIT. Professora de pós-graduação na PUC-SP, no TIDD – Tecnologias da Inteligência e Design Digital, de MBAs, e de Faculty Internacional da CrossKnowledge. Sócia da Martha Gabriel Consulting & Education e da startup Nethics Educação.