21 de julho de 2021

Histórias de “O dólar furado”

por Alexandre Póvoa

Ao retirar do bolso a nota de estimação de 1 dólar, logo escuto a lamentação:

“Como não lembrar do legendário Giuliano Gemma, protagonista de um dos mais famosos filmes de faroeste da história, com o título em minha homenagem? Apesar de minha inegável importância, confesso que nos tempos de hoje eu, travestido de minha cor verde já meio desbotada, estou vivendo uma fase de dúvidas.

O papel-moeda foi ‘inventado’ nos idos do fim do Renascimento no século XVI, depois da prevalência do escambo e da circulação de ouro e prata como meios de pagamento. Nos EUA, até a Guerra de Secessão (1861-65), cenário do filme ‘O Dólar Furado’, várias formas de moeda conviviam desordenadamente. A partir dessa época, todas as principais moedas mundiais passaram a ser emitidas mediante lastro total ou parcial em ouro (o chamado padrão-ouro). A unificação de emissão de dólares via Federal Reserve só ocorreria em 1913, pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

Dado que a Inglaterra saiu debilitada daquele confronto, assumi o comando de referência de valor no mercado, em detrimento da libra esterlina e até hoje reino soberano. No famoso encontro de Bretton Woods, em 1945, objetivou-se a flexibilização de políticas monetárias nos diversos países, tanto em termos de padrão-ouro quanto em relação às taxas de câmbio. Continuei ganhando importância central, com tudo passando a ser atrelado a mim.

No começo do século, a Argentina representou a mostra de meu prestígio, já que o país tentou me adotar como lastro de sua moeda. Que culpa eu tenho se os argentinos acreditavam que podiam manter a paridade fixa, apresentando índices de produtividade bem menores que os americanos e com a alta volatilidade nos fluxos financeiros mundiais? Tinha que dar errado.

Nos tempos de inflação no Brasil, todos me queriam. Era um tal de paralelo, comercial, turismo, cabo, quase tive uma crise de identidade. Estranho entender como um país renuncia à sua moeda, que deveria sempre ser tratada como um símbolo nacional intocável. Apesar do desprezo temporário naquele período de ‘covardia dos juros altíssimos’ entre 1994 e 1998 (câmbio controlado em bandas), tudo voltou ao normal em 1999. Virei de novo objeto de desejo em 2002, como refúgio das eleições presidenciais, mostrando como esses movimentos são cíclicos.

Mas a partir daí, começa minha via crucis. Em 2003, caí de novo em desgraça no Brasil e tive que aturar muita nota e, imaginem, até a moeda Real (R$) tripudiando em cima da minha fraqueza. Até aí não liguei muito, porque já estou acostumado com esses momentos de euforia em países emergentes. Finalmente (antes tarde do que nunca …), o Banco Central brasileiro parece ter reconhecido a minha importância com seu objetivo de acumular reservas internacionais (350 bilhões de dólares, sendo que 85% em dólar, em junho de 2021). Nesse momento, por causa do desajuste fiscal do governo e de um dos diferenciais de juros mais baixos da história em relação aos países desenvolvidos, eu voltei a me fortalecer, apesar da agressividade do Banco Central em repetidos e volumosos leilões de swap cambial. Entre 2012 e 2021, saí da paridade de 2 reais para 5 reais/dólar. No Brasil de hoje, todos os modelos de estimação de taxa de câmbio me colocam ao redor desse valor. No entanto, como incluir na conta a ameaça permanente ao teto de gastos, pandemia, crescimento fraco do PIB em 2022 e uma Treasury de 10 anos potencialmente acima de 2% a.a.? Por outro lado, o Copom finalmente parece ter acordado para os riscos de inflação, o que vai elevar o diferencial de juros.

Em uma viagem no começo do século, tive o desprazer de acompanhar o meu portador em uma escala em Paris. Melhor tivesse sido na Espanha ou na Itália, nações amigas e alinhadas. Pois é, caí logo na França, país que não é muito simpático a nós americanos. Encontro com uma nota de euro que ironicamente logo coloca: ‘Ok, os francos morreram, mas o céu é o limite para nós; daqui a pouco os europeus — de preferência os franceses —vão comprar Nova York’, em uma desagradável referência à disparada de 35% da moeda europeia em relação ao dólar desde meados de 1999 até 2008. Além disto, gabou-se o euro, ‘em pouco tempo seremos a nova referência mundial de valor’. Vejam só, nasceu anteontem e já quer se comparar em termos de confiabilidade com o secular dólar dos EUA. Morreu pela boca. Hoje o euro, comprando 1,19 dólar, está virtualmente na mesma cotação (1,17 dólar) da época do lançamento da moeda europeia em 1999.

Outro dia cheguei no Japão na carteira de um empresário e logo na casa de câmbio do aeroporto um iene me gozou dizendo que ‘o meu tempo já havia acabado’. É duro ter que ouvir isso desse tipo de moeda dado que, em 1982, cheguei a comprá-la na paridade 1 dólar/277 ienes. Hoje a relação está em torno de 1 dólar/110 ienes, ou seja, a moeda japonesa valorizou-se 150%. Logo o Japão, que tentou desafiar economicamente os EUA nos anos 80, mas que desde lá não encontrou mais o seu rumo.

Logo eu, que tive Alan Greenspan, Ben Bernanke, Janeth Yellen e Jerome Powell como meus protetores nos últimos anos. O dólar ocupa atualmente 85% do volume de transações no mercado mundial de moedas, mostrando sua representatividade na economia internacional. Não obstante, vi o índice DXY (dólar versus uma cesta de moedas) despencar 30% de meados da década de 80 até hoje. Mas meu déficit de transações correntes está equilibrado em 3% do PIB, após alcançar um recorde negativo de 6% ao final de 2005. Perdi um pouco meu reinado, com o déficit fiscal histórico indo a 15% do PIB pós-covid 19. Tal como Giuliano Gemma, em ‘O Dólar Furado’, saco a minha arma, mas não sei qual é a melhor vingança. Torcer para que eu me deprecie mais rapidamente, colocando em risco a inflação americana e antecipando uma alta de juros pelo Fed (desestabilizando o mundo em termos de aversão ao risco); ou que eu me aprecie bastante, ameaçando o crescimento (cujo EUA são a locomotiva mundial), gerando um aprofundamento dos déficits gêmeos e tornando a bomba-relógio ainda mais perigosa … Usando um ditado bem brasileiro, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

Sempre relembrando Giuliano Gemma, a inconformada nota de 1 dólar volta à minha carteira, onde provavelmente prefere ficar escondida por um bom tempo.

FONTE: CAPITAL ABERTO

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  • Alexandre Póvoa
    Alexandre Póvoa

    É economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós-graduado em Finanças pelo IBMEC e MBA pela Stern School of Business (New York University) – com bolsa de estudos do Banco Mundial –, atua em gestão de recursos há mais de trinta anos. Ex-atleta profissional de basquetebol, trabalhou em instituições renomadas como Banco Inter-Atlântico, Fundação Eletros e Banco Morgan Stanley Dean Witter. Exerceu o cargo de Diretor de Investimentos do ABN AMRO Asset Management no Brasil, onde os fundos de investimento se notabilizaram pela excelência de gestão. Posteriormente, juntou-se ao Grupo Modal, onde foi Diretor Superintendente. Também fundou a Canepa Asset Brasil com sócios estrangeiros, gestora de sucesso na qual se dedicou como CEO. Como economista e na área de gestão de recursos, é um dos profissionais mais reconhecidos do mercado, tendo sido eleito quatro vezes, em pesquisa promovida pela Revista Investidor Institucional, o “Melhor Gestor de Fundos do Brasil”, nos segmentos de renda variável e multimercados. Póvoa dedica-se a sua empresa Valorando Consultoria, prestando assessoria a empresas e investidores, além de ministrar cursos e palestras por todo o Brasil. É colunista de diversos jornais e revistas.