8 de maio de 2020

Veremos o Ibovespa a 150 mil pontos?

por Alexandre Póvoa

Começo de 2020. Expectativa de recuperação do crescimento brasileiro na casa de 2% ao ano, expansão do PIB mundial em 3% anuais e política monetária relaxada no mundo inteiro. No Brasil, continuava a (eterna) aposta de fluxo contínuo para a bolsa de recursos do investidor local historicamente pouco alocado em ações (o que vinha de fato acontecendo).

Final de março de 2020. Uma pandemia toma conta de todos os cantos do planeta, obrigando as pessoas a se isolarem em suas casas para ajudar a conter a propagação de um vírus, destruindo, provavelmente por alguns meses, a atividade econômica em âmbito global. Os economistas rebaixam as projeções para o PIB de todos os países para o terreno negativo, com exceção da China, que sai de 6% para 3% ao ano. Foi a maior e mais repentina virada de humor da história, refletida na queda vertiginosa das bolsas de valores do mundo inteiro, no “empinamento” das curvas de juros, na “fuga para a qualidade” rumo ao dólar e na desvalorização das cotações das commodities e ativos de crédito.

Porém, convenhamos que qualquer previsão de PIB para 2020 e 2021, neste momento, constitui exercício de futurologia sem muito valor científico. São os economistas “invadindo” inadvertidamente a área da medicina, no sentido de que a variação do PIB daqui por diante será função da data em que a doença começar a ser controlada a nível mundial — o que nem os epidemiologistas conseguem prever com segurança.

A reação dos governos veio rapidamente, em uma combinação de política fiscal (aumento de gastos para a saúde e setores mais vulneráveis) e o relaxamento adicional das já relaxadas políticas monetárias. No caso do Brasil, a resposta apareceu mais tímida do que o esperado: metade dos 162 bilhões de reais dos pacotes anunciados por Paulo Guedes não é dinheiro novo, e sim adiantamento de gastos futuros. O foco agora deveria ser o socorro aos profissionais liberais e aos participantes da economia informal. Para estes, foram reservados apenas 15 bilhões de reais, o que parece pouco se essa pandemia se estender por mais de dois meses. E fica a dúvida: como essas pessoas receberão esse dinheiro se não há registro de seus nomes em lugar nenhum?

Além disso, o Copom reduziu a taxa Selic em apenas 0,5 ponto percentual, contrariando as recomendações de um corte mais profundo. Apesar do bom trabalho que vem sendo feito (pacote de 1,2 trilhão de reais para irrigar o mercado), não era hora de economizar ajuda e querer “ser mais real que o rei”. O Brasil já entrou em estado de calamidade pública por conta da covid-19, provendo licença temporária para o governo burlar a Lei de Responsabilidade Fiscal. Será que o Banco Central não deveria também ser autorizado a tirar uma licença de sua meta de inflação? Por que, em um cenário tão grave, não reduzir a taxa Selic em pelo menos 100 pontos-base?

Mais importante: está mais do que na hora de o BC liberar um percentual relevante dos compulsórios sobre os depósitos à vista, chamar os cinco maiores bancos do País e discutir seriamente sobre concessão de crédito para empresas e pessoas afetadas pela crise. A liberação de compulsórios de depósitos a prazo, já remunerados no BC, não incentiva os bancos a emprestar.

O risco de déficit fiscal e as expectativas de inflação um pouco mais alta são armas importantes que deveriam ser usadas ao máximo durante a crise. O prazo para terminar coincidiria com o controle da pandemia. Quando isso ocorrer, o teto de gastos deve ser retomado e a taxa Selic voltaria ao patamar de equilíbrio condizente com as metas de inflação de 2021 e 2022.

O pânico só foi parcialmente contido até agora pelos trilhões de dólares despejados no mercado mundial nas últimas semanas. Mesmo assim, em certos momentos, os mercados de juros longos, de crédito e de câmbio ficaram disfuncionais, exigindo intervenção dos bancos centrais. A bolsa brasileira, apesar de altamente volátil e de ter disparado os limites de baixa diversas vezes, funcionou dentro de suas regras. Fica a pergunta que vale alguns milhões de reais: depois da correção de mercado e um rebote de curto prazo, está na hora de comprar bolsa a 76 mil pontos, NTN-B 2055 a IPCA mais 4,65% ao ano, título do Tesouro prefixado 2031 a 8,70% ao ano e real a uma taxa de câmbio de 5,02 reais por dólar?

Muito difícil afirmar onde está ponto de inflexão. A faca ainda está caindo e quem colocou a mão no meio do caminho já se machucou bastante. Apesar de os preços começarem a chamar a atenção, o mercado pode piorar ainda. Façamos um exercício. Trabalhando com uma queda média de lucros das empresas de 30% em 2020, uma recuperação para 20% em 2021 e 2022, um crescimento nominal de longo prazo de 6% ao ano, taxa de desconto de 14% a partir de uma NTN-B longa remunerando a IPCA mais 5% na perpetuidade, chegamos ao valor justo do Ibovespa a 50 mil pontos. Olhando esses números, não é impossível que o índice volte a cair mais 35% do patamar atual para “colocar no preço” todo o cenário negativo para este ano. Vai depender do humor nos próximos dias em relação à extensão da pandemia e à volta da atividade econômica.

Nos demais mercados, uma NTN-B 2055 acima de IPCA mais 5,5% ao ano e um título prefixado 2031 com taxa superior a 10% ao ano parecem níveis convidativos para um carregamento de dois anos. A grande dúvida é o câmbio, que parece ter mudado de patamar.

Se, por um lado, a crise global do novo coronavírus pegou os mercados nas máximas históricas e tem provocado violentos estragos em todos os ativos do mundo em uma intensidade e velocidade nunca antes vistas, a boa notícia é que, diferentemente de outras intempéries, um rebote de preços significativo deve ocorrer também de forma rápida. Passado o auge da pandemia mundial, em alguns meses restarão trilhões de qualquer moeda espalhados pelo mundo, juro virtualmente zero e preços convidativos, em uma economia que deve se recuperar velozmente de um nível muito baixo que deverá ser atingido nos próximos dois meses. Porém, dados os ferimentos graves, continuaremos a viver um curto prazo neuróticos nos mercados e vamos demorar um bom tempo para recuperar os preços da virada do ano de 2020.

FONTE: Capital Aberto

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  • Alexandre Póvoa
    Alexandre Póvoa

    É economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós-graduado em Finanças pelo IBMEC e MBA pela Stern School of Business (New York University) – com bolsa de estudos do Banco Mundial –, atua em gestão de recursos há mais de trinta anos. Ex-atleta profissional de basquetebol, trabalhou em instituições renomadas como Banco Inter-Atlântico, Fundação Eletros e Banco Morgan Stanley Dean Witter. Exerceu o cargo de Diretor de Investimentos do ABN AMRO Asset Management no Brasil, onde os fundos de investimento se notabilizaram pela excelência de gestão. Posteriormente, juntou-se ao Grupo Modal, onde foi Diretor Superintendente. Também fundou a Canepa Asset Brasil com sócios estrangeiros, gestora de sucesso na qual se dedicou como CEO. Como economista e na área de gestão de recursos, é um dos profissionais mais reconhecidos do mercado, tendo sido eleito quatro vezes, em pesquisa promovida pela Revista Investidor Institucional, o “Melhor Gestor de Fundos do Brasil”, nos segmentos de renda variável e multimercados. Póvoa dedica-se a sua empresa Valorando Consultoria, prestando assessoria a empresas e investidores, além de ministrar cursos e palestras por todo o Brasil. É colunista de diversos jornais e revistas.