10 de janeiro de 2019

Inclusão de fato ou apenas em nível de discurso?

por Patricia Itala Ferreira

“Professora, aconteceu uma coisa muito ruim comigo e preciso conversar com você. Preciso conversar com alguém que me ajuda a entender o que aconteceu e o que posso fazer.”  Foi assim que começou uma conversa muito triste que tive com um ex-aluno agora no final do ano de 2018. Quando conversamos, o aluno me relatou um episódio de preconceito que ele e mais duas colegas de universidade sofreram durante uma entrevista de seleção. Não entendi até agora se o preconceito foi em relação por conta de etnia ou classe social, talvez até uma mistura de ambas. Tristeza e revolta me definem quando constatei isso. Orientei o aluno a procurar o núcleo de assistência jurídica da universidade para verificar o que poderia ser feito legalmente, pois, ao que me consta, houve um crime. Afinal, existe mesmo inclusão ou é apenas em nível de discurso?

A Constituição Federal de 1988, no seu art. 5° inciso XLII, determina que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito de reclusão nos termos da lei”.

Art. 3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: (…).

“– IV Promover o bem estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 5° – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a prosperidade…(…).
– XLI A lei punirá a qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais.”

Tentei entender melhor o que aconteceu aos alunos e pedi mais informações, como, por exemplo, nome da empresa, nome do agressor, entre outras. Qual não foi a surpresa ao saber que os três estudantes foram vítimas de preconceito e de assédio moral por parte de um profissional que atua em uma empresa de recrutamento e seleção de executivos!

Uma mistura de emoções tomou conta de mim como ser humano, como psicóloga, profissional de RH e de educação. Retomei vários conceitos que tem sido muito comentados nos âmbitos educacional e profissional como inclusão e diversidade. Eu mesma escrevi há algum tempo um artigo sobre “A importância da diversidade nas organizações: foco em processos seletivos” e de fato acredito e defendo a necessidade de quebrar paradigmas e modelos mentais arcaicos que tenham foco em aspectos outros que não a competência da pessoa para exercer uma determinada função.

Vou retomar aqui o conceito de diversidade nas organizações: trata-se de possuir um conjunto de trabalhadores com qualidades diferentes, pertencentes a grupos culturais também diversos. A diversidade abrange aspectos como gênero, origem, etnia, estado civil, religião, idade, deficiência física e tantos outros que destacam grupos distintos de pessoas.

Como profissional de recursos humanos, defendo a importância da diversidade. Como professora comprometo-me a deixar claro em minha sala de aula o que o conceito significa e trazer a tona questões relacionadas à preconceito, inclusão e discriminação. Como ser humano, compartilho minha indignação com o ocorrido e aproveito para pedir desculpas ao aluno que conversou comigo e a todos que já tenham sofrido algum preconceito em processos seletivos ou no mercado de trabalho de uma forma geral.
Pedi permissão ao aluno para escrever esse artigo, pois seria mais uma forma de eu tentar contribuir para explicitar e tentar mudar essa situação.

Fica meu desejo que em 2019 consigamos ser mais humanos e inclusivos. Finalizo o artigo com um trecho da fala do meu ex-aluno:

“Nesta perspectiva, o sentimento é de não deixar este mal-estar de lado e fingir que nada aconteceu. Porque sim aconteceu. Sinto dor e tristeza ao ver que minha classe social e minha cor ainda são mais importantes do que minhas qualificações acadêmicas. Devemos intervir e não nos calar e muito menos tampar os olhos para este tema que ainda é tão presente em nossa sociedade. O racismo existe e devemos nos impor para exigir mudanças, pois “o silêncio, o não dito, é outra característica do racismo à brasileira”(MUNANGA, 2017, p.40).”

Que fique o caso como reflexão e a esperança de que possamos não nos omitir diante de casos como esse. Feliz 2019 para nós! Que seja um ano com mais humanidade, com menos retórica e com menos preconceito.

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  • Patricia Itala Ferreira
    Patricia Itala Ferreira

    Concluiu em 1993 a graduação em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e, posteriormente, em 1997, tornou-se Mestre em Administração de Empresas pela mesma universidade. Há mais de 20 anos atua em projetos de consultoria em gestão de pessoas e educação corporativa. É professora da PUC-Rio, em cursos de graduação e pós-graduação, nas modalidades presencial e a distância. É também tutora da FGV Online e da pós-graduação em Gestão da Educação a Distância na UFF e da pós graduação em educação empreendedora, uma parceria do Departamento de Educação da PUC Rio com o SEBRAE. Autora dos livros Clima organizacional e qualidade de vida no trabalho (GEN | LTC, 2013), Atração e seleção de talentos (GEN | LTC, 2014), Gestão por competências (GEN | LTC, 2015) e Comunicação Empresarial (Atlas, 2016), em parceria com Gustavo Malheiros e do curso online Psicologia Aplicada à Administração (GEN | Atlas, 2018). Finalista do Prêmio Ser Humano da ABRH 2014 e ganhadora da premiação em 2015 e 2016 na categoria trabalhos acadêmicos.