7 de julho de 2020

“Não existe razão para juro acima de 0%”, diz Oreiro

por José Luis Oreiro

O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou na quarta-feira (17) a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, diminuindo de 3% para 2,25% ao ano. O corte na Selic é pouco e chega com atraso, diz o economista José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), ao comentar, em entrevista ao HP, a decisão do Banco Central neste contexto de crise vivida pelo país.

Para Oreiro, o Banco Central (BC) já deveria ter reduzido a Selic para pelo menos 0% ao ano em termos reais, diante da contração sem precedentes da atividade econômica brasileira por conta do coronavírus. “Não existe nenhuma razão para se manter a taxa de juros acima de zero”, disse o economista. “Eu até defendo que os juros reais deveriam ser negativos”, acrescentou.

“Como as projeções de inflação para 2020 estão em torno de 1% ao ano, o BC já deveria ter reduzido a Selic para pelo menos 0% ao ano em temos reais, ou seja, ter uma Selic de 1% ao ano. Dado o cenário macroeconômico, que é um cenário em que as expectativas de inflação estão abaixo do piso da meta e que você tem uma contração sem precedentes da atividade econômica, não existe nenhuma razão para se manter a taxa de juros acima de zero”, disse Oreiro.

“Nós já deveríamos estar com o juro real negativo, ou seja, com uma Selic de 0% ao ano, porque com uma inflação de 1% daria um juro real de menos 1%. Quer dizer, a gravidade da queda da atividade econômica é tão grande, e ela é tão profunda e tão rápida, que de fato nós precisamos de uma taxa de juros negativa. Mas, se não der para ter uma taxa de juros negativa, nós teríamos que pelo menos ter uma taxa de juro zero, o que implicaria nas condições atuais de uma Selic de 1% ao ano e não de 2,25 ao ano”, avalia José Oreiro.

Questionado sobre os cálculos feitos pelo Infinity Asset Management, que indica que, como a taxa básica nominal está no patamar de 2,25% ao ano, o juro real brasileiro estariam em -0,78% ao ano, o professor Oreiro respondeu que o juro real brasileiro “não está negativo”.

“O cálculo não é esse. A inflação acumulada nos últimos 12 meses foi 1,88%, se a gente fizer o cálculo pela chamada “Selic backward”, quer dizer, olhando para trás a inflação acumulada nos últimos 12 meses, você tem um juro real ligeiramente acima de meio por cento positivo. Outro jeito de calcular a taxa de juros real é usando as expectativas de inflação, quer dizer, como as expectativas de inflação para 2020 estão em torno de 1% e 1,5%, isto dá juro positivo. Eu não sei de onde esse pessoal está tirando essa conta que nós estamos com o juro real negativo, não estamos não”, afirmou o professor.

No comunicado do Copom, o BC informou que o “Comitê considera que a magnitude do estímulo monetário já implementado parece compatível com os impactos econômicos da pandemia da Covid-19” e que, para as próximas reuniões, poderá haver um “ajuste residual” no estímulo monetário.

Oreiro defende que o BC pode fazer mais para enfrentar a crise da pandemia. Segundo o professor, além de reduzir a taxa de juros Selic a patamares negativos, o BC também pode reduzir o juro de longo prazo, haja vista que a Emenda Constitucional do Orçamento de Guerra, aprovada pelo Congresso Nacional, deu ao BC a possibilidade de comprar títulos públicos e privados no mercado secundário.

“A Selic é o juro curto, mas o juro longo é juro dos títulos da dívida pública com prazo superior a um ano. Então ele poderia entrar pesado comprando títulos de longo prazo para reduzir o prêmio de liquidez e com isso reduzir os juros de longo prazo. Isso é outra coisa que o BC pode fazer”, defendeu.

O economista argumenta ainda que “para chegar ao financiamento monetário do déficit púbico teria que aprovar uma Emenda Constitucional permitindo ao Banco Central comprar diretamente os títulos da dívida pública do Tesouro Nacional”.

“No momento isso é proibido pela Constituição”, explicou. “Isto já deveria ter sido aprovado pelo Congresso Nacional no Orçamento de Guerra, mais infelizmente não foi. Mas eu acho que para a gente lidar com a magnitude desta crise é muito importante que o Congresso permita durante a duração da pandemia a compra de títulos públicos por parte do Banco Central”, defendeu.

O governo brasileiro vem agindo na contramão do que está sendo realizado em diversos outros países, que lançaram estímulos para fortalecer a recuperação da atividade econômica, duramente atingida pela pandemia, como, por exemplo, Estados Unidos, que colocou o FED (Banco Central dos EUA) para comprar títulos do Tesouro americano e manter juro zero por mais três anos, e a Alemanha, que lançou mais um pacote de €130 bilhões em cortes de impostos e aumentos de gastos para aumentar a demanda e proteger suas empresas nacionais e seus empregos.

Nos últimos três meses, segundo a The Economist, a base monetária dos Estados Unidos cresceu US$ 1,7 trilhão enquanto o Federal Reserve (Fed) comprava ativos usando dinheiro novo. O Banco Central Europeu (BCE) ampliou, há duas semanas atrás, seu programa de compra de títulos de emergência de €600 bilhões para €1,350 trilhão. No Japão, o Banco Central intensificou suas compras de ações, e dentro em breve poderá ser o proprietário de mais de 20% de muitas das grandes companhias japonês.

Segundo nota do Banco Central, após reunião do Copom no dia 17/6, o Brasil tem que “perseverar” no arrocho fiscal e na “continuidade das reformas” que levaram o país ao pior resultado do Produto Interno Bruto (1%) nos últimos três anos, depois da maior recessão da história do país (2014-2016). No dia seguinte (18/6), o BC divulgou o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma “prévia do PIB”: queda de 9,73% em abril.

FONTE: JOSÉ LUIS OREIRO

Mais conteúdo no livro Macroeconomia do Desenvolvimento - Uma Perspectiva Keynesiana

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  • José Luis Oreiro
    José Luis Oreiro

    Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1992), Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio, 1996) e Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2000). Atualmente, é professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), Pesquisador Nível IB do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e líder do grupo de pesquisa “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. Foi presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) no período 2013-2015. Tem cerca de 100 artigos publicados em revistas científicas no Brasil e no exterior, como no Journal of Post Keynesian Economics, Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, Investigación Económica, Revista de la Cepal, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos.