2 de setembro de 2020

O ‘banho-maria’ e o Brasil

por Fábio Giambiagi

Faz parte do meu trabalho receber investidores. No caso de alguns, de tanto vir ao país (há os que viajam para o Brasil duas ou três vezes por ano), alguns acabam tendo simpatia pela nossa terra e procuram se informar acerca de hábitos locais e, eventualmente, arranham o português.

Há anos, um desses investidores mais simpáticos, que vinha todos os anos e era, de certa forma, um amigo do país, chegou ao meu escritório todo feliz, por ter conseguido entender o significado da expressão “banho-maria” — dita com sotaque.

Pelo “Aurélio”, a expressão significa o “processo de aquecer ou cozinhar lentamente qualquer substância mergulhando em água fervente o vaso que a contém”. Também quer dizer em ritmo lento, em compasso de espera.

Na ocasião, reagi com perplexidade, e ele me explicou, com o olhar de estrangeiro, que “o ‘banho-maria’ explica o Brasil”. Pedi para ele detalhar, e me disse que no Brasil tudo era adiado na base do “banho-maria”. Fui sendo dominado por certo nacionalismo e, irritado, disse que me parecia que estava exagerando. Educadamente, ele parou de argumentar e fomos almoçar. Eis que, na conversa, volta e meia eu me pegava explicando um detalhe de nossas particularidades que sempre envolvia uma protelação. Era necessário aprovar um projeto de lei que tramitava há meses? Teria que esperar por causa da realização das eleições meses depois. Quando eu falava isso, meu interlocutor exclamava: “Again (outra vez). Banho-maria!”. E depois? Depois seria necessário esperar passar o réveillon. De novo: “Banho-maria!”. E em janeiro? Aí então seria preciso esperar passar o carnaval. E ele: “Banho-maria!”. Antes de chegar a sobremesa, eu fora obrigado a reconhecer que meu amigo tinha um ponto forte…

Poucas coisas caracterizaram tanto o Brasil dos últimos 25 anos como a ausência de qualquer senso de urgência. Boa parte dos temas da agenda discutida em 2019 se referia a pontos que o país vinha debatendo há anos — sem tomar decisão.

A reforma previdenciária vinha sendo debatida desde o governo FHC. A tributária, tradicionalmente, despertava bocejos entre os jornalistas, por ser aquele tipo de assunto que era sempre falado, sem que se chegasse a qualquer resultado. E o mesmo se aplica a outros temas.

Numa apresentação recente, para contrastar nossa inércia com o que aconteceu no mundo nas últimas duas ou três décadas, mostrei a imagem do que eram algumas cidades de expansão recente, como Xangai ou Dubai, em 1990 e o que são hoje. O contraste entre essa pujança e nossa inércia paquidérmica dá vontade de chorar.

Em 1989, Mário Covas, quando se lançou candidato à Presidência, apresentou sua proposta de promover no país um “choque de capitalismo”. A ideia era tirar a economia de sua “zona de conforto” e promover um grande avanço da eficiência, mediante a aprovação de um conjunto de leis modernizantes e da implantação de um ambicioso programa de abertura econômica. É sinal de nosso atraso que, mais de 30 anos depois, a iniciativa continue sendo inteiramente atual.

O Brasil já perdeu muitos anos à toa. O leitor deve ter reparado que, no debate sobre a Previdência, a oposição se limitou à tática obstrucionista de tentar evitar a aprovação da reforma numa semana, de procurar adiar o segundo turno para depois do recesso, a votação dos destaques para a semana posterior etc. Era uma aposta no “banho-maria”!

Ano passado, algumas coisas pareciam estar começando a mudar. Tivemos avanços legislativos importantes, e a reforma da Previdência foi um marco. Restava continuar com a agenda e compensar o tempo perdido. Foi então que apareceu o coronavírus com suas urgências, e as reformas foram — mais uma vez — adiadas. E assim nossa vida vai passando, e o país fica cada dia mais atrasado. Enquanto isso, debatemos a cloroquina. E a reforma tributária, mas que provavelmente ficará para ano que vem — em fases. Como diria meu amigo gringo, “banho-maria!”. O Brasil dá desespero. Ele tem jeito?

FONTE: O GLOBO

Mais conteúdo no livro Reforma do Estado Brasileiro

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  • Fábio Giambiagi
    Fábio Giambiagi

    Economista, com graduação e mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ex-professor da UFRJ e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Funcionário concursado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desde 1984. Ex-membro do staff do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington, ex-assessor do Ministério de Planejamento, ex-Coordenador do Grupo de Acompanhamento Conjuntural do IPEA; ex-Chefe do Departamento de Risco de Mercado do BNDES e ex-Superintendente de Planejamento do BNDES. Atualmente, é gerente do Departamento de Pesquisas Econômicas do BNDES. Autor ou organizador de mais de 30 livros sobre Economia Brasileira. Colunista regular dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo.