2 de setembro de 2020

O mundo, o Brasil e a COVID

por Alexandre Póvoa

Máscaras, álcool em gel, distanciamento social. Desde março, estamos vivendo um período de crise nunca antes vista pela nossa geração, tempos estranhos. Será que muita coisa ainda está por vir? Qual será o novo normal? No mundo, 19 milhões de casos com 700 mil óbitos provocados pela COVID 19. No Brasil, 3 milhões de casos com 100 mil mortes registradas. Um Maracanã e meio lotado.

A discussão entre isolamento social x “contaminação” em massa virou uma espécie de Fla-Flu, onde cada lado tem seus cabos eleitorais. O Presidente Bolsonaro, por exemplo, sempre foi contra o isolamento social, a não ser para grupos de risco. Certamente por isso o Governo Federal ficou tão ausente da liderança do combate à crise e talvez nossos resultados sejam os piores do mundo. Esse debate sempre foi sem sentido, já que as pessoas precisam estar confiantes para consumir e as fábricas para investir. É indiferente se estão nas ruas ou em casa.

A doença atingiu de forma diferente os diversos cantos do globo. A China foi o primeiro país a ser afetado e, por suas características políticas, pôde fazer um controle muito bem feito – testes em massa, isolamento social, impedimento de circulação de pessoas – medidas muito difíceis de serem implementadas em outros locais (sobretudo em democracias). Agora, a China está mostrando uma recuperação em “V” puxada pela indústria, que tem uma participação na economia maior do que em outros países. A maior parte do impacto do vírus parece ter ficado no passado, o crescimento deve rondar os 3% a.a. em 2020 e voltar à média de 6,5% a.a. em 2021.

Há exemplos de países que foram muito bem no controle da pandemia: Nova Zelândia, Coréia do Sul e Vietnã. Cabe ressaltar, no entanto, que as dificuldades de conter o vírus são diretamente proporcionais ao tamanho do país: não dá para comparar o grau de complexidade de implementação de políticas de saúde em massa em grandes nações como Brasil e EUA em relação a outros territórios menores como Uruguai, Colômbia e Costa Rica, que também são apontados como casos de sucesso na contenção da COVID.

A Europa também pode ser apontada como uma região onde o bom controle do coronavírus (dentro do possível em uma área tão grande e com países com realidades tão distintas) irá render frutos à recuperação econômica. Depois de um segundo trimestre trágico em termos de contração – -12,1% a.a. na Zona do Euro (destaque negativo para a Espanha por conta do turismo) – as autoridades passaram a ser muito mais agressivas na distensão monetária com a atuação do BCE e do fundo de recuperação europeu. Os números do terceiro trimestre têm saído acima do esperado. Apesar de a Europa ser um continente onde as perspectivas de longo prazo (produtividade baixa, envelhecimento da população) não são animadoras, uma recuperação cíclica parece estar encomendada.

Já os EUA têm sofrido mais com a pandemia e deve sofrer uma retração ao redor de 6% a.a. (há uma enorme dispersão nas estimativas) em 2020. No segundo trimestre, a economia caiu a uma incrível taxa anualizada de 33%. O setor de serviços, maior parte da economia norte-americana, está sofrendo mais do que o segmento industrial, que é a base, por exemplo, da economia chinesa. Portanto, é bem mais provável que a retomada nos EUA seja em formato “U”. A enorme liquidez e a taxa de juros virtualmente zero do FED e o efeito-renda da alta das bolsas ajudarão bastante na recuperação do PIB, que deve se recuperar parcialmente na casa dos 4% a.a. em 2021.

No Brasil, a receita não foi muito diferente – um pacote monetário (taxa SELIC a 2% a.a.) e fiscal (teremos um déficit primário de 11% do PIB em 2020). Para se ter uma ideia da magnitude, os R$ 700 bilhões gastos em subsídios econômicos até agora como políticas compensatórias correspondem ao total de economia com a Reforma da Previdência para os próximos dez anos. O teto de gastos está no limite (com políticos já querendo “flexibilizá-lo”). Mesmo com a pandemia ainda incomodando do ponto de vista humano, os indicadores de curto prazo – sobretudo os de confiança, arrecadação de impostos e vendas no varejo – podem ser considerados bons vis a vis à crise. Porém, o risco está aumentando quando percebemos que encerraremos o ano com aproximadamente 95% de relação Dívida/PIB. Por isso, se o Governo, apesar das pressões políticas, quiser recuar dos estímulos econômicos concedidos, retirará um percentual relevante (4-5 pontos de contração fiscal) do PIB, o que torna improvável a recuperação em V. Mas tudo dependerá do comportamento da inflação.

Estamos em um terreno altamente estimulativo e enquanto a inflação não reagir, a economia pode rebotar, mesmo sem o fiscal ajudando. No meio da discussão fiscal, aparece a proposta de uma CPMF (com o nome que o Governo quiser dar), que só atrapalha a eficiência do sistema, mesmo que seja para conceder um alivio para as empresas do depósito do FGTS de 8% para 6% da folha, da redução da contribuição patronal para o INSS de 20% para 15% dos salários, além da diminuição do repasse ao Sistema S. A proposta de CPMF (0,2% sobre transações financeiras), diversamente do propalado por seus defensores, é diferente do debate aberto em vários países europeus, onde o objetivo é tributar os gigantes de tecnologia. Para reduzir impostos sobre a folha, será inevitável um aumento de carga, que poderia vir da elevação da alíquota de I.R. e a tributação de lucros e dividendos.

Já o BC vive o dilema de espaço para baixar ainda mais a taxa SELIC se for levado em consideração somente a meta de inflação (projeção abaixo do centro em 2021 e 2022) versus a prudência de exagerar na dose em um país com o lado fiscal altamente comprometido.
Olhando o mercado financeiro, nossa bolsa, em um ambiente de recuperação econômica e sem inflação, é altamente beneficiada. Apesar da crise, as empresas captaram cerca de R$ 300 bilhões em títulos privados nos últimos 18 meses, reduzindo o seu custo de capital, o que pode colaborar na retomada do investimento. Adicionalmente, em 2020, já houve 21 IPOs que levantaram R$ 52,5 bilhões, com potencial de dobrar essa marca no ano. O investidor de renda fixa, com o custo de oportunidade reduzido, está migrando gradativamente para fundos multimercados e de renda variável. Aliás, pela “primeira vez na história”, as pessoas físicas ganharam dinheiro em cima dos estrangeiros no processo de recuperação do Ibovespa de 65 mil para 100 mil pontos, dado que os locais promoveram entrada líquida enquanto os gringos tiveram saída líquida de recursos no período.

A curva de juros está “empinada” com 2% a.a. na parte curta e 7% na parte mais longa (2031). O mesmo ocorre com as NTN-Bs (-0,7% de 2021 e 3.7% de 2055). Se olharmos o copo meio cheio, concluímos que o mercado reconhece e aprova a política estimulativa do BC e naturalmente aguarda no médio prazo uma retomada dos juros para um nível normal de longo prazo. Porém, o copo meio vazio aponta para a ponta mais longa da curva refletindo o “prêmio fiscal” do Brasil.

Já o dólar teve valorização acima de 30% em 2020 e muitos questionam se não houve um exagero no movimento. Alguns investidores preconizam que seria hora de vender dólares. Discordo, dado que o risco fiscal brasileiro chama a atenção. O diferencial de juros nunca esteve tão baixo no Brasil em relação aos países desenvolvidos e exatamente esse risco fiscal “empurra” os estrangeiros para fora do país, pressionando o dólar.

Fim do texto, coloquemos nossas máscaras e lavemos as mãos com álcool em gel novamente e vivamos o “novo normal”, torcendo para que a tão esperada vacina chegue logo.

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  • Alexandre Póvoa
    Alexandre Póvoa

    É economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós-graduado em Finanças pelo IBMEC e MBA pela Stern School of Business (New York University) – com bolsa de estudos do Banco Mundial –, atua em gestão de recursos há mais de trinta anos. Ex-atleta profissional de basquetebol, trabalhou em instituições renomadas como Banco Inter-Atlântico, Fundação Eletros e Banco Morgan Stanley Dean Witter. Exerceu o cargo de Diretor de Investimentos do ABN AMRO Asset Management no Brasil, onde os fundos de investimento se notabilizaram pela excelência de gestão. Posteriormente, juntou-se ao Grupo Modal, onde foi Diretor Superintendente. Também fundou a Canepa Asset Brasil com sócios estrangeiros, gestora de sucesso na qual se dedicou como CEO. Como economista e na área de gestão de recursos, é um dos profissionais mais reconhecidos do mercado, tendo sido eleito quatro vezes, em pesquisa promovida pela Revista Investidor Institucional, o “Melhor Gestor de Fundos do Brasil”, nos segmentos de renda variável e multimercados. Póvoa dedica-se a sua empresa Valorando Consultoria, prestando assessoria a empresas e investidores, além de ministrar cursos e palestras por todo o Brasil. É colunista de diversos jornais e revistas.