25 de junho de 2020

O que seria o Novo Normal?

por Tadeu Cruz

Algum tempo atrás o CEO de uma empresa americana, para a qual dávamos consultoria de melhoria de processos, me perguntou:

– Prof. O senhor conhece algum MBA EAD? Eu estou sem tempo para frequentar um presencial e por isso penso em fazer um EAD.

– Olha, até conheço uns dois ou três muito bons, mas… (sempre existem mas), se você está sem tempo para frequentar um MBA presencial, pode se dar mal, muito pior, fazer um EAD. No presencial você frequenta as aulas, senta na cadeira em frente ao professor, presta atenção às aulas e faz parte de um grupo que na pior das hipóteses elegerá algum coordenador, que não você, que ficará com as tarefas mais pesadas. O EAD é muito mais exigente. Você terá que estudar sozinho, assistir aulas, on-line ou acessando vídeos e fazer muitos, muitos trabalhos, e a grande maioria você os fará sozinho.

– É, não tinha pensando desta forma professor, mas mesmo assim vou encarrar o MBA EAD.

Na época indiquei um MBA em Administração da FGV do Rio de Janeiro. O meu amigo CEO morava em Santos e trabalhava em São Paulo.

Resumindo, ele fez o MBA EAD e ao final me disse:

– Prof. o senhor tinha total razão, e ainda bem que me alertou. O MBA foi muito, mas muito mais puxado do que qualquer um presencial.

Por que contei este caso? Porque O NOVO NORMAL, isto é, nossa vida quando o pior desta pandemia tiver passado, será muito mais virtual do que fora até aqui. Muito do que fazíamos presencialmente não mais será feito como antes e isto exigirá de todos nós uma nova postura, um novo olhar, uma nova abordagem tanto em termos pessoais como profissionais.

Por exemplo, se processos organizacionais simplificados, racionalizados, bem gerenciados já eram importantes no mundo físico, no velho normal, para qualquer instituição, qualquer empresa, agora o serão muito, muito mais imprescindíveis. e por uma razão muito simples. Se presencialmente processos organizacionais já são difíceis de serem documentados, melhorados, executados e gerenciados, imagine, então, processos completamente virtuais!

E você vai me dizer:

– Mas, professor, hoje existem tecnologias que facilitarão muito a execução dos processos virtuais. Tecnologias como Inteligência Artificial, Robotic Process Automation Softwares, Electronic Document Management Systems, Knowledge Management Systems, Data Warehouse Softwares, Supply-Chain Management Systems, Efficient Consumer Response Systems, Enterprise Content Management Suites, Business Processes Management Systems, entre tantos outros.

É verdade! Nossa situação atual está, incomparavelmente, mais bem servida de tecnologias do que qualquer outra esteve no passado, mas… (ele de novo), por melhores e mais “inteligentes” que sejam tais tecnologias, elas ainda estão longe de fazer o nosso trabalho de documentar, pensar em melhorias, redesenhar e gerenciar processos organizacionais.

Mas mesmo se fossem verdadeiramente “inteligentes” do que o são atualmente, há ainda outras encrencas a serem resolvidas para que nossa vida, no NOVO NORMAL, dê certo.

Por exemplo, na quarentena do COVID-19, todas as escolas, do maternal ao superior, fecharam as aulas presenciais e passaram a ter aulas EAD, Ensino Domiciliar a Distância. Até aí tudo bem, não é?

Não!

Principalmente porque faltou infraestrutura que suportasse a grande demanda de recursos de TI, tais como Serviços de Clound Computing, que não estavam preparados para a sobrecarga, faltou largura de banda, que se estreitou, também, por conta da grande demanda ocasionada por todo mundo estar de quarentena e muitas vezes faltou a própria banda larga.

E aqui tivemos na prática o que eu e outros pensadores temos alertado sempre que vemos os especialistas alardeando as maravilhas das novas Tecnologias da Informação: as desigualdades sociais, estruturais, educacionais, tecnológicas.

Os exemplos que apareceram na televisão mostraram como estamos longe de atingirmos um patamar razoável de desenvolvimento, IDH.

As desigualdades estiveram presentes nas periferias das grandes cidades. No estado mais rico da federação uma grande quantidade de alunos ficou sem poder acessar a plataforma on-line que a secretaria estadual de educação disponibilizou para estudo.

Pior aconteceu com os estudantes que vão prestar o ENEM deste ano. E olhe que nem foi preciso ir aos grotões deste imenso País, as periferias das grandes cidades já escancaravam as desigualdades.

Agora, se com casos concretos, como todos estes, impactando o desenvolvimento educacional, as realidades já são distintas e complexas, o que podemos esperar, então, do nosso NOVO NORMAL, e como ele será normal e igual para todos?

Temos grandes desafios pela frente, até que o NOVO NORMAL seja apenas NORMAL. Serão necessárias novas abordagens organizacionais, comportamentais, e principalmente educacionais.

Por exemplo, quem sabe possamos implantar escolas que se preocupem mais com o futuro do que com o passado. Algo como está sendo feito na Finlândia e na Dinamarca. Algo como vem sendo feito há mais de 100 anos em Summerhill School. Os currículos das nossas escolas não privilegiam os rebeldes, não estimulam os inquietos, os desbravadores, os inquisidores;

Nossas escolas, e as ainda existentes em muitos países, levam as crianças a pensarem em si mesmas como “Another Brick In The Wall”. Claro, isto é culpa dos governos, de todos os governos, que centralizam o que deve ser ensinado, em detrimento do que deveria ser ensinado para incluir os novos cidadãos nas novas realidades.

Daí que quando nos deparamos com uma pandemia, que nos força à uma quarentena sem fim, e nos impões um NOVO NORMAL, o medo toma conta de todos!

FONTE: TADEU CRUZ

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  • Tadeu Cruz
    Tadeu Cruz

    É Graduado em Administração de Empresas e em Filosofia pela Universidade São Marcos (1982). Especializado em System Software e em Data Communication Software pelo Cologne International Training Centre (Colônia, Alemanha) (1980). Especializado em System Engineering pela Hewlett Packard de México (1987). Mestre em Engenharia de Produção – Pesquisa Operacionale Gerência da Produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE-UFRJ) (2005). Professor de diversas universidades em cursos de graduação e pós-graduação. Ex-professor do curso de Engenharia de Produção da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Autor de 25 livros técnicos (3 em coautoria, sendo 1 em inglês), 6 livros de poesias e 1 livro de contos. Participou de mais de 140 cursos de extensão e especialização na Itália, França, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Argentina e México. Possui 43 anos de vivência e experiência em Tecnologia da Informação e da Comunicação, e 33 anos de vivência e de experiência em Qualidade e Desenvolvimento Organizacional. Trabalhou como consultor de Tecnologia de Informação e da Comunicação e de Gerência de Processos e Projetos no Uruguai, Chile, Argentina, Alemanha, Angola, Moçambique, Paraguai, Venezuela e Estados Unidos. Criador da Metodologia DOMP™ para mapeamento, análise, modelagem, implantação e gerenciamento de processos de negócio, utilizada em empresas localizadas em vários países e referenciada em dezenas de trabalhos acadêmicos.