5 de maio de 2020

Como preparar seu orçamento pessoal para enfrentar a crise do coronavírus (Covid-19)

por Edson Cordeiro da Silva

Pergunta: Houve redução ou postergação temporária de salário ou a perda do seu emprego?

 
Ninguém sabe por ora qual a real dimensão da pandemia do novo coronavírus e ainda não é possível mensurar o impacto que terá sobre os sistemas de saúde, nas empresas e nas economias das pessoas.

A atual crise do coronavírus deixou milhares de trabalhadores de diversas categorias e atividades sem empregos ou os que ainda estão empregados, com uma proposta de redução ou postergação temporária de salários, infelizmente.

Quanto aos que foram desligados terão a difícil missão de se recolocar em um mercado de trabalho bastante complexo e incerto, considerando o impacto da crise do coronavírus no caixa das empresas e a incerteza política e econômica do País neste momento, inclusive com uma alta taxa de desempregados formais, bem como os informais que representa uma grande maioria de trabalhadores na estatística do mercado atual.

Para enfrentar essa situação do Covid-19, vamos analisar as opções e prioridades da lista abaixo, como uma sugestão para reflexão pelas pessoas que estão passando por um momento tão difícil em suas vidas pela redução ou postergação do salário e o pior de tudo, a perda do empregado, neste momento de tamanha crise de saúde, sanitária e econômica no Mundo.

Sugestões para reflexão. Vamos lá.

 
1-Reserva financeira emergencial– Caso você tenha uma reserva financeira guardada como uma aplicação financeira ou poupança, deve utilizá-la para pagamentos de compromissos neste momento. Certamente os custos de qualquer linha de crédito bancário vão exceder os retornos potenciais que esse dinheiro lhe traria parado numa aplicação de pouco risco.

1.1 Contingências: Sempre que possível, é importante que cada família tenha o hábito de fazer uma reserva financeira mensal (economia) no seu fluxo de caixa doméstico, para um período de cobertura de no mínimo três meses de renda mensal obtida, visando eventuais contingencias ou crises (como por exemplo, doenças, pandemias, obras emergenciais, troca de bens essenciais, desemprego, etc.)

1.2 Nota: Isto também se aplica no fluxo de caixa (necessidade de capital de giro) dos microempresários, considerando as peculiaridades de sua atividade operacional em relação aos seus prazos médios de giro de estoques, recebimento dos clientes e pagamentos aos fornecedores.

2- Se você não possui uma reserva de emergência, busque liquidez em ativos substituíveis. Por exemplo, venda ou troca do carro por um modelo mais simples, ou vendendo bens que não agregam valor ou renda e possui custo fixo alto.

3- Fique ligado nas possibilidades de renegociação de prazos e eliminação de juros e multas de pagamentos das contas a pagar cotidianas no orçamento doméstico.

4- Os cinco maiores bancos do país anunciaram que podem dar carência de até 60 dias nas parcelas de suas linhas de crédito, inclusive alguns deles oferecem empréstimos pessoais (e a micro empresas para capital de giro) também com juros de 1% ao mês (analisar a real necessidade de obtenção deste empréstimo) com prazo de pagamento de 20 anos dando um imóvel como garantia imobiliária.

5- Equalização de dívidas: Uma boa alternativa é contatar o seu banco em busca de negociação com dívidas de cartão de crédito e/ou empréstimo pessoal para quitar as dívidas do cartão ou cheque especial. Normalmente conhecido como troca de dívida, porém, por outra dívida com menor taxa de juros e um prazo maior.

6- Outra opção é a obtenção de empréstimos consignados nos bancos ou em outras instituições financeiras autorizadas a atuar pelo Banco Central do Brasil com custo financeiro mais barato. Outra modalidade de negociação bancaria é a chamada portabilidade de empréstimo ou financiamento de ativo entre os bancos nas negociações de dívidas com pessoas físicas para redução do custo financeiro e aumento de prazos.

7- Negocie sua despesa de aluguel com seu locador negociando uma redução de 30% do valor do aluguel ou uma postergação temporária de pagamento de 50% nos próximos 04 meses. A boa pratica é que seu custo de locação ou da prestação da casa própria, não ultrapasse a 30% de sua renda líquida mensal.

7.1 O argumento mais forte para solicitar e sensibilizar o locador para a redução do aluguel ou postergação seria uma conversa equilibrada e honesta para alinhamento dos interesses neste momento tão difícil para todos.

8-Separe e entenda as contas do seu orçamento doméstico mensal entre despesas fixas e variáveis relevantes, para efeito de análise visando redução parcial ou corte imediato de gastos supérfluos, bem como a postergação de compras de bens e serviços não essenciais.

9-Outra medida importante é eliminar os desperdícios nas contas de água, gás, luz, telefone, internet, entre outras. Usar, sempre que possível, novas tecnologias ofertadas pelo mercado com energias alternativas para redução de custos.

9.1 Caso os custos de manutenção e reparos anuais de seu imóvel estejam muito caros, pela idade do imóvel, seria um momento importante para uma avaliação dos custos e benefícios para estudar a viabilidade de aquisição de um imóvel mais novo.

10-Troca de imóvel– Análise cautelosa do valor das despesas mensais realizadas com condomínio, IPTU, seguro do imóvel, caso sejam de valor relevante, em relação ao impacto e comprometimento na renda atual da família que reside no imóvel, principalmente se estiverem aposentados (Use sempre o bom senso).

11- Reveja seus gastos com transporte próprio, como combustível, IPVA, seguro, DPVAT e manutenção periódica. Analise algumas opções de transporte coletivo como Metro, ônibus expresso, Urbe, entre outros para reduzir os custos.

12-Reveja os gastos escolares como mensalidade dos colégios, cursos extras, material, uniformes, transporte e outros, para discutir outras alternativas que sejam mais viáveis economicamente neste momento de crise. Seja cauteloso, use sempre o bom senso e equilíbrio nas discussões e decisões.

12.1 Os Cursos profissionalizantes e específicos de Ensino a distância – EDA são mais baratos que os cursos presenciais, logicamente, quando for aplicável.

13- Tente mudar seus hábitos: As compras de alimentos de valor mais caro, devem ser substituídas, sempre que possível, por outras marcas mais acessíveis (não significa comprar produtos de qualidade inferior) nos supermercados, lojas ou feiras, visando uma adequação orçamentaria familiar, tendo em vista a atual realidade que estamos vivendo, inclusive se estiver ainda desempregado.

13.1 Após a liberação controlada da quarentena Covid-19 pelas autoridades competentes, administre melhor sua agenda contínua de almoços e jantares com amigos e parentes fora de casa, para economia temporária de despesas no orçamento familiar.

14- Postergue suas férias, se possível, bem como as viagens internacionais (para nacionais) para um outro período, logicamente, se houver recursos.

15- Criatividade: Uma outra alternativa, seria a pessoa identificar uma outra fonte de receita para suplementar a perda do salário temporária e/ou do desemprego atual. A requalificação profissional é uma alternativa ou, dependendo da atividade exercida pelo profissional, uma proposta de compartilhamento(rateio) de custos de atividades entre outros parceiros.

16- O Home office, as mídias e ferramentas digitais, hoje abriram uma grande oportunidade de novas colocações no mercado de trabalho, trazendo a empregabilidade para milhares de pessoas com qualificação profissional.

17- Para os profissionais liberais e os micro empresários, a adoção do Espaço de Coworking também poderia trazer uma boa redução de custos e melhor networking no mercado de trabalho de atuação e de relacionamentos.

18- A definição da escolha e decisão do que não pagar temporariamente por falta de recursos imediatos, não significa incentivar ninguém a dar calotes financeiros ou quebrar regras contratuais existentes.

18.1 Caso não tenha jeito e você não consiga negociar nenhum tipo de carência e não tenha dinheiro para pagar todas as suas contas, recomendo que faça uma escolha inteligente do que não pagar.

• Preste atenção nos contratos e nas previsões de multas e juros por atraso de pagamento.
• No caso dos boletos bancários, o custo do atraso é definido por lei como um multa de 2% do valor total, mais 1% ao mês em juros.
• É mais vantajoso para você atrasar um boleto do que entrar no cartão de crédito ou cheque especial. Os juros do boleto bancário são muito mais baratos.
Decisão e o bom senso: se tiver que escolher qual boleto atrasar, não deixe de pagar a conta do cartão de crédito ou outra dívida muito onerosa até você ter tempo de poder negociar com outro banco a carência, redução da taxa de juros e o prazo de pagamento. Os juros do cartão provavelmente estão em torno de 7% a 10% ao mês. Porém, a decisão é individual.

19. Finalizando, sugiro também conversarem com seus empregadores, advogados e/ou representantes sindicais, para alinhamento de interesses sobre as medidas editadas pelo governo federal de n.º 936, 928 e 927 que trata das relações de trabalho entre empregados e empregadores, inclusive pela existência de diversas dúvidas trabalhistas, operacionais e questionamentos jurídicos em andamento no STF.

Conclusão sobre orçamento e crise do coronavírus

 
Consideramos que ninguém sabe, por ora, qual a real dimensão da pandemia do Covid-19 e ainda não é possível mensurar o impacto que terá sobre os sistemas de saúde, nas empresas e nas economias das pessoas. As pessoas deverão fazer uma análise cuidadosa de seu fluxo de caixa familiar (doméstico), como foi acima detalhado, quanto ao comprometimento de suas rendas e qualidade de seus gastos, bem como um forte combate ao desperdício.

Uma ferramenta de controle poderia ser uma simples planilha de fluxo de caixa diário, relacionando suas rendas, gastos e saldo bancário. Uma coisa muito importante é a disciplina na execução da planilha de controle e ajustes dos gastos (quem não quiser usar uma planilha, use um simples caderno ou agenda para controle dos gastos diários com impacto no fluxo de caixa doméstico).

Outro aspecto importante é que o orçamento doméstico (familiar) seja consolidado(único) para facilidade de controle financeiro e ou ajustes por motivo eventual ou extraordinário.

Gostaria de lembrar, que em época de tamanha crise e incertezas no Brasil e no Mundo, o CAIXA ainda é o Rei em nossa casa. Fique atento e participativo na discussão e implementação das MP’s 936,928 e 927 do governo federal acima citadas.

Finalizado, gostaria de deixar minha modesta contribuição aos brasileiros tão sofridos com a crise do Covid-19 e considerando as incertezas políticas e econômicas atuais.

Façam uma reflexão sobre a QUALIDADE dos seus gastos em seu orçamento familiar, bem como buscar novas oportunidades de rendas suplementares para ajudar no equilíbrio do orçamento familiar. E combata os desperdícios.

A palavra de ordem é ECONOMIZAR, porém, a sabedoria é ter um bom controle do seu FLUXO DE CAIXA FAMILIAR.

Logicamente, existem outros casos especiais que não foram abordados nesta lista de ajuda para reflexão, que não é exaustiva. Analise se cada sugestão tem aplicabilidade em sua vida neste momento tão complexo e difícil de planejamento e tomada de decisões familiares.

Finalmente, as decisões devem ser discutidas e tomadas em conjunto com sua família, com calma, equilíbrio e sabedoria, num momento tão difícil como a crise do coronavírus no Brasil e no Mundo.

Boa sorte, espero ter ajudado a todos os interessados.

Um abraço.

Mais conteúdo no livro Como Administrar Fluxo de Caixa

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  • Edson Cordeiro da Silva
    Edson Cordeiro da Silva

    Edson Cordeiro da Silva, Graduado em Contabilidade e Economia, Doutor, Mestre em Sistema de Gestão pela Escola de Engenharia de Produção (Latec) da Universidade Federal Fluminense (UFF), com MBA em Finanças e Mercado de Capitais e Pós-graduado em Ciências Contábeis pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). Ex-diretor do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF), Ex-Vice Presidente da ANEFAC-RJ (1991\1992), ex-diretor do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (IAIB/Ibracon- RJ), ex-Auditor Independente-Pessoa Física (CVM) 1984, ex-membro efetivo da Câmara de Fiscalização (1990/1993) do Conselho Regional de Contabilidade - CRC-RJ, ex-membro da Associação dos Peritos Judiciais do Estado do Rio de Janeiro, ex-membro do Conselho Empresarial de Varejo e Governança Corporativa da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ, membro da Academia Nacional de Economia-ANE (cátedra nº 050), e Certificate of Membership – The Institute of Internal Auditors Inc. New York (1978). Possui experiência de mais de 20 anos em cargos de gerência e diretoria nas áreas de Controladoria e Finanças em empresas de grande porte nas atividades de Varejo, Serviços, Seguros, Indústria, Mercado de Capitais, Governo e Informática. Atua também como consultor financeiro nas áreas de Finanças, governança corporativa, Gestão Empresarial, Controladoria e Projetos para Investimentos. Ex-Professor colaborador da Universidade Federal Fluminense-UFF, credenciado junto ao Curso de MBA - Desenvolvimento Gerencial Avançado com ênfase em Gestão de Negócios para ministrar a disciplina Governança Corporativa. No período de 1986 á 2000 foi Diretor de Controladoria do GRUPO GLOBEX UTILIDADES S/A (Companhia de capital aberto) e de 2001 á 2006, foi Diretor Financeiro da IPLANRIO (Empresa Municipal de Informática S/A.) e Presidente do Conselho Fiscal da RIOURBE (Empresa Municipal de Urbanização S/A). Conselheiro de Administração certificado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, IBGC, SP, 2010. Atualmente trabalha como consultor na empresa Petróleo Brasileiro S/A – PETROBRÁS na Diretoria de Governança e Conformidade-DGC na área de Governança Corporativa. Autor dos livros: Como Administrar o Fluxo de Caixa das Empresas, 9ºedição 2005/16, Governança Corporativa nas Empresas, 4ªedição 2006/16, Relação com Investidores-(RI) e Governança Corporativa nas empresas, 1ª. edição, 2012, publicados pela Editora GEN/ATLAS.