2 de março de 2021

Como as organizações se manterão competitivas após a pandemia?

por Arão Sapiro

Que lições nos traz a crise da pandemia? Já sabemos qual é o novo normal! Mas, não sabemos como será a nova bonança, depois da tempestade! Uma coisa é certa, no novo tempo, apesar dos castigos, apesar dos perigos, da força mais bruta, da noite que assusta, estaremos atentos, estaremos mais vivos, estaremos na luta.

Pela primeira vez, na jornada da humanidade deveremos aprender a fazer menos, a escolher melhor e a nos preservar, nós e nossas organizações.

Há 10.000 anos inventávamos a agricultura e deixávamos de sermos ser caçadores-coletores e pudemos pela primeira vez, enquanto espécie, nos fixarmos. Daí, evoluímos em comunidades, em aldeias, tribos, cidades, metrópoles, nações, impérios.

Sempre numa lógica de crescimento, por conta de recursos, até então inesgotáveis. Com a Revolução Industrial, passamos a procurar o crescimento pelo menor custo, ou seja, com mais produtividade e mais tecnologia. Mas isso tem um preço! As populações aumentaram, o meio ambiente foi agredido, a acumulação e concentração de riquezas tornaram a sociedade humana demais injusta e cruel.

Os riscos do descontrole, são revelados pela dificuldade de gerenciar a pandemia. A esperança, uma característica humana que tem nos permitido aturar as crises e prosperar, parece que teve um choque de realidade e sabemos agora que algo precisa ser feito.

Nesse contexto, que competências deverão estar presentes e desenvolvidas em nossas organizações?

Anteriormente, as empresas buscavam maximizar as quantidades produtivas produzidas e a padronização. Com isso obtinha-se o menor custo unitário por produto. A partir de um sistema hierárquico rígido evitava-se qualquer atraso no processo ou contestação. Existia um jeito certo de se fazer as coisas, e esse jeito deveria ser alcançado do modo mais rápido e intensivo.

Toda a economia baseada na tecnologia disponível na época atuou assim. Não só o setor produtivo, mas também os mercados eram conquistados via massificação. O ensino também teve este enfoque, qual seja, a transmissão de um conhecimento padronizado ao maior número de pessoas, a partir de uma estrutura rígida. Os conceitos-chave eram quantidades e padronização.

Porém, tudo no universo têm seu ciclo de vida. Cada estágio dos ciclos apresenta características diferentes, mas todos os sistemas dividem características comuns a cada estágio. Grosso modo, estes estágios seriam de gestação, crescimento, maturidade e declínio ou extinção. Estaríamos vivendo o declínio ou a extinção do modelo que começa com a Revolução Industrial?

Estamos, atualmente, somente na quarta década da economia baseada na informação. Demoramos muito para entender a necessidade de novos modelos organizacionais e de gestão. O problema é que tais modelos só se cristalizam na fase madura do ciclo de vida de um determinado sistema socioeconômico. Assim, apesar de nossa vontade, possivelmente levaremos mais uma década até o amadurecimento destes modelos.

De qualquer maneira, a economia de da informação atingirá a maturidade muito mais rapidamente que o tempo levado pela economia industrial anterior para atingir o mesmo estágio. Claramente, lidamos com a informação como crianças, ainda. Ou de modo peralta, como se fosse uma festa, como o que ocorre nas redes sociais, ou como alunos aplicados, mas ainda muito curiosos, não sabendo bem onde tanta informação nos levará.

É o momento de perguntarmos o que os administradores e suas organizações devem fazer para se manter competitivos e líderes. Como deve ser conduzida a sociedade para prepará-la ao novo tempo que já está batendo à porta.

Tais questões são de uma relevância transcendental, pois a busca da vantagem competitiva pelas organizações tem sentido somente dentro de um contexto histórico, isto é, no qual toda ação definida ou executada hoje, determinará o sucesso futuro, não só da organização, mas, dada a qualidade integradora da tecnologia dos sistemas informacionais, também determinará a situação de satisfação e bem-estar de toda sociedade humana.

É essa análise que permite, por um lado identificar os vários arranjos organizacionais que estão tomando forma, a partir de alianças e acordos em todos os níveis, e cruzar os arranjos identificados com os fatores competitivos apresentados presentes e que devem ser considerados pelo Planejamento Estratégico. A análise leva, também, a especular sobre o futuro. Que novos arranjos devem surgir, a partir de quais novos fatores competitivos, dadas as tendências detectadas?

Conforme o biólogo e pensador Alfred Russel Wallace, o homem é o único animal capaz de uma evolução dirigida e intencional, pois ele sabe construir ferramentas. Sem estas ferramentas não teríamos a possibilidade de superar a natureza e tentarmos um processo de criação e reprodução além daqueles previstos pelas estruturas naturais. Já para Drucker , o computador é a ferramenta que melhor expressa uma visão de mundo analítico e conceitual, a partir de dados. Mas, acontece que a informação a partir de dados também é o princípio organizador do processo biológico. O processo que não é analítico, ou seja, o todo não é a soma das partes, mas as partes são integradas não linearmente de modo a formar um todo. Nós não ouvimos “G”, “A”, “T”, “O”, mas sim GATO. Os sons das letras são bits. O processo biológico parte da percepção do todo.

O desafio humano, enfim é fazer a integração das partes e chegar no todo, é realizar a análise e a conclusão ao mesmo tempo. É o que acontece na nova computação quântica que se assemelha a grandes organismos vivos, máquinas genéticas trabalhando a informação por processos químicos e não mais mecânicos, baseadas na chamada bioinformação.

Essa realidade impactará as organizações que tenderão a ser mais assemelhadas a seres vivos, menos estruturadas, mas mais reagentes ao ambiente. A grande vantagem competitiva passará a ser o conhecimento integrado e a capacidade de difusão deste conhecimento. Os produtos que tiverem esta carga de informação representarão valor. O conceito contraintuitivo de gestão como o experimentado pela Netflix, nos da uma amostra do que vem por aí!

Isso vai significar também uma grande alteração no ambiente formal em que vivemos. A famosa frase “a função determina a forma”, terá sua aplicação maximizada, ou seja, toda atuação social será uma resposta aos objetivos funcionais propostos, deixando a estrutura como algo irrelevante, embutido dentro de grandes sistemas computacionais.

Nesta nova sociedade onde os padrões de tempo e espaço serão diferentes, as relações funcionais entre homens e organização serão imediatas. A grande preocupação será sempre a próxima geração, que terá a responsabilidade de assumir e levar adiante o progresso infinito. O home office é um prenúncio, também uma amostra do que vem por aí?

Mais conteúdo no livro Planejamento Estratégico

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  • Arão Sapiro
    Arão Sapiro

    Professor de cursos de graduação e pós-graduação em administração e engenharia de produção. É graduado e mestre pela EAESP-FGV – Escola de Administração de Empresas de São Paulo – Fundação Getúlio Vargas, com certificados de Educação Contínua pela FEA-USP e de Ensino do Método de Estudos de Casos pela Harvard Business School. Suas especialidades profissionais estão focadas em quatro áreas de competência: liderança, planejamento estratégico, mudança & engajamento e negociação & mediação. Realizou nos últimos 25 anos programas de treinamento e conduziu projetos de Desenvolvimento Organizacional, alinhados com os conceitos de Learning Organization, sempre com base em valores humanos e metodologias interativas. Ele tem grande experiência em consultoria graças à trabalhos realizados para organizações governamentais e privadas, nacionais e multinacionais, e sem fins lucrativos. Possui habilidades avançadas de treinamento, comunicação e apresentação, lidando com grupos e desenvolvendo projetos de trabalho em equipe. Com certeza, seu perfil é caracterizado por uma aparência confiante, confiável e autônoma, Coautor do livro Planejamento Estratégico – Fundamentos e aplicações, com Idalberto Chiavenato, em sua edição 3º e publicada em espanhol, também. Revisor técnico do trabalho de Philip Kotler, Administração de Marketing. Autor de inúmeros artigos, ensaios e pesquisas sobre seus temas focais. Como conferencista viajou pelo Brasil, Angola e Estados Unidos, falando em congressos e seminários, abordando temas relacionados à mediação estratégica, change management e cultura de confiança (trust). Criador do INSEC- Instituto de Estudos para a Cooperatividade, uma sociedade civil de interesse público, cujo objetivo é promover as práticas de cooperação entre as organizações e seus stakeholders (partes interessadas), buscando incentivar a competitividade de uma forma construtiva e de longo prazo, com uma visão que vai além do foco de lucro no curto prazo. Atualmente, vem se destacando como facilitador certificado em sessões de mediação, que é uma das práticas chamadas de Resolução Alternativas de Conflitos – RAD, pelas quais se busca promover a comunicação não-adversial e colaborativa, tratando os conflitos, a partir de uma visão positiva e como meio de transformação e evolução, objetivando a harmonia das relações e o respeito aos bons costumes, de modo a manter os relacionamentos duradouros e prósperos, entre as partes, construindo um mundo melhor.