3 de fevereiro de 2021

Origem e evolução da Análise Fundamentalista de Investimentos

por Juliano Pinheiro

A decisão por investir em ações está normalmente relacionada a uma expectativa de ganho, seja por meio da propriedade ou da comercialização dos papéis. Apesar de várias técnicas serem divulgadas como métodos vencedores para a escolha de ações, existem dois cujos resultados já foram comprovados ao longo dos anos e foram amplamente estudados: Análise Fundamentalista e Análise Técnica.

Ao final do século XIX e princípio do século XX, as grandes corretoras de bolsa tinham seus departamentos de análise compostos por profissionais de áreas exatas (estatísticos e matemáticos), que comparavam empresas do mercado através de alguns dados financeiros disponíveis. Foi neste período que surgiu a chamada Análise Fundamentalista; especificamente em 1929, durante um curso ministrado por Benjamin Graham na Universidade de Columbia em New York, intitulado “Investments”.

O que é a Análise Fundamentalista de investimentos?

 
A análise fundamentalista é o estudo de toda informação disponível no mercado sobre determinada empresa, com a finalidade de obter seu verdadeiro valor, e formular uma recomendação sobre sua compra ou venda. Este conjunto de dados e informações são avaliados objetivando obter um “preço justo” da ação que tem uma relação com seu valor de mercado. Caso o valor justo obtido seja maior que o valor de mercado, existe uma oportunidade de investimento, dado que as ações podem estar subavaliadas pelo mercado. Por outro lado, se o valor justo for inferior ao preço de mercado, os papéis podem estar superavaliados pelo mercado, indicando para uma possível estratégia de venda.

A Análise Fundamentalista revolucionou a análise de investimentos em ações e segue tendo uma grande importância nos dias atuais. As anotações e exemplos utilizados durante o curso foram cuidadosamente organizados por um dos alunos, David Dodd, e constituíram a base para a publicação em 1934 do livro The intelligent investor and security analysis, a primeira tentativa de explicação do funcionamento do mercado acionário.

A história da Análise Fundamentalista se confunde com a de seus precursores.

Quem foram os precursores da Análise Fundamentalista de investimentos?

 

Benjamin Grossbaum

 
Benjamin Grossbaum, professor da Universidade de Columbia e investidor, é conhecido como o pai da análise fundamentalista de seguridades. Propôs, em 1936, um modelo de investimento diferenciado para aquela época: descobrir o valor intrínseco da ação tendo como ponto de partida os benefícios proporcionados.

O modelo de investimento proposto por Graham é uma estratégia conservadora que propõe a compra de ações de boa rentabilidade na atualidade, sem esperar crescimento futuro, e seguindo sempre as características determinadas a seguir:

  • A empresa deve ter pagado dividendos nos últimos 20 anos.
  • Faturamento mínimo: 100 milhões de dólares.
  • A relação entre Preço de Mercado/Valor Contábil não deve ser superior a 1,5.
  • O Preço da Ação/Lucro da ação não deve ser superior a 15, calculado com a média dos benefícios dos últimos anos.
  • A rentabilidade não deve ser inferior a 2,5%.

Harry Markowitz

 
Grandes inovações foram trazidas na década de 1970 no campo de investimentos. Markowitz, com sua teoria de diversificação, inspirou modelos como o de Sharpe: o CAPM. Ainda que o CAPM estivesse mais direcionado para a gestão de carteira que para a análise, ele introduz uma etapa de valorização que complementa a análise fundamentalista clássica.

Harry Markowitz, um estudante de doutorado, apresentou sua Tese de Doutorado em 1952 na Universidade de Chicago. Contribuiu apontando que a otimização da carteira caracteriza-se por:

  • uma transação entre o rendimento esperado do título individual;
  • a contribuição deste título ao risco de carteira.

Markowitz foi o primeiro a propor a administração de carteiras de ativos, com base na relação risco-retorno e na identificação matemática da “diversificação correta”. O risco de uma carteira não é a média dos riscos dos ativos individuais. Então, para cada dado nível de risco, identificou a respectiva carteira de maior retorno, definindo assim um conjunto de carteiras que chamou de “fronteira eficiente”.

Markowitz recebeu, em 1990, o prêmio Nobel de Economia junto com outros discípulos seus, Sharpe e Miller, por suas contribuições à Teoria de Carteiras.

Willian F. Sharpe

 
Willian F. Sharpe foi pupilo de Harry Markowitz.

Em 1964, Willian F. Sharpe desenvolveu o Modelo de Precificação de Ativos (CAPM). O CAPM é um modelo que relaciona o rendimento de um ativo com o do mercado no qual é negociado. O coeficiente de regressão é o coeficiente de volatilidade Beta. A ideia de Sharpe baseia-se na tentativa de se poder calcular o coeficiente de correlação linear dos retornos dos ativos em relação a um único ativo que atuaria como uma espécie de padrão para comparações. Segundo Sharpe, a carteira de mercado deveria atribuir pesos aos ativos de risco do mercado proporcionalmente a seus pesos na economia real.

Ganhou, juntamente com Markowitz, o prêmio Nobel de economia em 1990, pela criação do CAPM.

Como se deu a evolução da Análise Fundamentalista de investimentos?

 
Na década de 1980, surgem as preocupações estratégicas da análise: posicionamento estratégico da empresa, análise das barreiras de entrada na indústria, competitividade nacional e internacional etc.

Já na década de 1990, a análise fundamentalista ganha nova dimensão com a incorporação da análise quantitativa e seus modelos econométricos. Esses modelos buscam a previsibilidade da rentabilidade futura de um valor, baseando-se em variáveis explicativas dela mesma. Nessa década, também foram desenvolvidos os conceitos sobre o mercado acionário estudado em conjunto com seus ativos, através da análise setorial.

Atualmente, diversas abordagens têm sido utilizadas para fazer análise quantitativa, entre elas estão a utilização de inteligência artificial, especialmente a aprendizagem de máquina e aprendizagem profunda (conhecidas como Machine Learning e Deep Learning), que são utilizadas para analisar dados e identificar padrões que permitem prever os retornos das ações.

Os estudos que utilizam inteligência para predição de preços de ativos do mercado são bastante variados em termos de metodologia. Porém, os algoritmos geralmente utilizados tratam os dados como uma coleção de observações empíricas feitas sequencialmente ao longo do tempo. A essa sequência de dados numéricos ordenados chama-se de série temporal. Atualmente, as técnicas de previsão de séries temporais incluem sistemas multiagentes e especialistas, análise de sentimentos baseada em notícias econômicas e políticas, modelagem de componentes e redes neurais.

O aprendizado profundo (Deep Learning) é uma subárea específica de técnicas de aprendizado de máquina, que utiliza redes neurais profundas para processar e aprender padrões sob grandes conjuntos de dados. O uso de redes profundas possibilitou aplicações relacionadas ao processamento de linguagem natural, que é o estudo das possibilidades de compreensão da linguagem humana por máquinas.

O que é discutido sobre a Análise Fundamentalista de investimentos na atualidade?

 
Para concluir, é importante destacar que alguns autores defendem a necessidade de um novo paradigma, argumentando que os processos geradores de dados de natureza econômica e financeira não consideram que as empresas constituem o ponto de convergência de várias forças econômicas, e que a nenhuma delas se pode atribuir prioridade absoluta sobre as outras. Desta forma, a análise de investimentos passou a incorporar aspectos que nem sempre estão contemplados nos índices tradicionais. Como questões relacionadas a Governança Corporativa e os aspectos ESG (Environmental, Social and Governance). ESG é um conjunto de práticas ambientais, sociais e de governança que pode ser usado para guiar investimentos e escolhas de consumo focadas em sustentabilidade.

FONTE: JULIANO PINHEIRO

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  • Juliano Pinheiro
    Juliano Pinheiro

    Juliano Lima Pinheiro É Doutor e Mestre em investimentos e mercado de capitais, professor e palestrante. Ao longo de mais de 30 anos de uma trajetória profissional abrangente, Juliano Pinheiro passou pela vivência prática como executivo em instituições financeiras e gestoras de investimento, como conselheiro em instituições representativas de mercado como Anbima e Apimec, e também pela área de ensino e pesquisa acadêmica atuando em cursos de MBA, doutorado, mestrado e graduação do Ibmec, FDC, PUC e UFMG. De 2007 a 2018, montou e foi o Diretor de Gestão da Fiere Investimentos, uma Gestora de Recursos, gerindo fundos de investimento e administrando carteiras para clientes. Detentor da Medalha Economista Paulo Camilo de Oliveira Pena em 2013, Juliano é referência na área de Mercado Financeiro e Mercado de Capitais. Atualmente é Vice Presidente Executivo do IBEF-MG, leciona na UFMG nos cursos de graduação e pós-graduação do Departamento de Ciências Contábeis e realiza palestras por todo o Brasil.