13 de agosto de 2019

Como pensar (e preparar) uma nova carreira

por Rafael D'Andrea

Como escolhemos nossa profissão? O que nos faz rever essa escolha? O que vem mudando em relação ao trabalho na maturidade? Como optar por uma nova carreira? Essas foram algumas das questões que inspiraram o empresário e consultor Rafael D’Andrea em sua pesquisa de Mestrado em Desenvolvimento Humano e Psicologia Organizacional (Coaching) pelo Insead (França-Singapura). Recebida com distinção, sua tese foi adaptada para o livro Reinventando-se depois dos 50 anos de idade, que trata justamente da transição de carreira na chamada pós-aposentadoria. Esse foi também o tema de sua palestra no último encontro do programa Visão Mais Perto, no dia 18 de junho. Acompanhe os principais aspectos abordados por D’Andrea que destaca o valor do autoconhecimento nesse estimulante recomeço:

Como pensar (e preparar) uma nova carreira

 

O estudo e o livro

 
“São muitas as razões que levam uma pessoa após os 50 anos a começar uma nova carreira. A vontade de mudar mesmo quando se tem uma trajetória de sucesso, a chegada da aposentadoria e a necessidade de se manter economicamente ativo, a busca pelo reencontro com um sonho de infância, o desejo de empreender… Na minha tese de Mestrado, mergulhei nas experiências reais de executivos e empresários de sucesso, de várias nacionalidades, a fim de descobrir suas motivações para essa ‘aventura’ e entender as explicações para o êxito ou o fracasso de suas tentativas. Depois, resolvi compartilhar esses resultados em um livro que pudesse ajudar o número crescente de pessoas que estão vivendo essa situação.”

A “carreira-bônus”

 
“Meu maior interesse é aquilo que chamei de ‘carreiras-bônus’ que são as trilhas profissionais completamente novas, iniciadas no momento de pós-carreira principal dos participantes da pesquisa, todos com idade superior a 50 anos. Apesar de muito variadas, as motivações têm em comum o desejo de um envelhecimento mais produtivo e estimulante, sobretudo em um cenário de aumento significativo da longevidade.”

Os principais achados

 
“No levantamento de dados para minha pesquisa, alguns achados foram muito importantes. São eles: o paradigma da aposentadoria mudou (a maioria quer passar longe da ideia de ‘pendurar as chuteiras’), é possível fazer uma transição radical de carreira com êxito após os 50 anos, muitas pessoas estão refletindo sobre essa possibilidade, é preciso empreender uma jornada de autoconhecimento para descobrir o melhor caminho a seguir, o planejamento é essencial (e quanto mais cedo se começa a pensar no ‘plano B’, melhor!) e, sim, existem boas práticas a seguir nesse momento.”

A escolha ideal

 
“Observando as experiências de meus entrevistados, identifiquei seis aspectos determinantes na escolha da carreira-bônus:

  1. Estar alinhada com um propósito ou significado pessoal
  2. Ter rotina flexível
  3. Oferecer a emoção de novos desafios, conteúdos e relacionamentos
  4. Ser divertida
  5. Ter consistência com os valores do indivíduo
  6. Preservar a autoimagem da pessoa

Nas dezenas de conversas que tive para a elaboração de minha tese, percebi que as escolhas podem ser diferentes conforme os diversos tipos de pessoas, mas todos tinham em comum a vontade de aprender coisas novas. Esse fator, portanto, também é indispensável!”

Oportunidades corporativas

 
“Apesar de algumas empresas, como Unilever e Vivo, estarem abrindo espaço para profissionais mais experientes, ainda há muita resistência à formação de equipes multietárias. Isso ocorre porque, infelizmente, os recrutadores dão ênfase excessiva aos conteúdos e conhecimentos exigidos para uma determinada função, deixando de lado as habilidades e competências de candidatos mais maduros. A realidade é que, hoje, os conteúdos mudam muito rapidamente e, por isso, é preciso valorizar a capacidade de aprender e se adaptar a novos desafios. Na verdade, esse cenário deve mudar no Brasil, até por conta das necessidades trazidas pela redução da natalidade e o aumento da longevidade. Dados norte-americanos já indicam que 60% das pessoas que passaram da idade legal de se aposentar continuam trabalhando.”

Autoconhecimento

 
“A definição de uma nova carreira exige muita reflexão. Isso passa, por exemplo, pela organização das narrativas pessoais. Ou seja, retomar a própria história, o que influenciou a tomada de decisão da minha primeira carreira, o que realmente eu queria ou não ser ‘quando crescer’, as habilidades que tenho e quero continuar a praticar, as habilidades que não tenho e gostaria de desenvolver, as competências que já possuo e posso transferir para minha nova carreira… Nesse momento, conectamos muitos pontos de nossa trajetória e fazemos grandes descobertas.”

Por aproximação e afastamento

 
“Ao buscarmos uma transição de carreira, temos duas motivações básicas: de aproximação e de afastamento. A primeira tem a ver com o que eu quero me tornar, o que busco para mim. A segunda está relacionada ao que eu não quero mais para minha vida. As duas são igualmente importantes e devem ser amplamente analisadas na hora de pensar em uma nova trajetória. Outro aspecto fundamental é ter uma ‘rede de segurança’, alguma reserva e um bom planejamento financeiro, para fazer essa transição com mais tranquilidade, no tempo certo.”

Os três “knows”

 
“Três competências, portanto, são muito valiosas: o know how (aprender e desenvolver os conhecimentos necessários à nova carreira), o know why (descobrir o propósito e a motivação para a mudança) e o know whom (identificar quem são as pessoas que podem ajudar e criar um novo networking, pois muitos dos relacionamentos profissionais anteriores podem não ser úteis na nova fase). Mesmo com todas as dicas e informações, é bom estar preparado para possíveis frustrações, já que não há trabalho perfeito e nem há mal em aprender com os erros.

Fonte: Jornal Mirante

Mais conteúdo no livro Reinventando-se Depois dos 50 Anos de Idade

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  • Rafael D'Andrea
    Rafael D'Andrea

    É graduado em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, especializado em Marketing pela Universidade da Califórnia-Berkeley (EUA) e em Economia pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas. É também mestre em Psicologia Organizacional Clínica pelo INSEAD (Singapura), palestrante, professor e coach. É diretor e fundador do Grupo Toolbox, consultoria focada em trade e shopper marketing, disciplina que lecionou em escolas de negócios, tais como INSPER, Fundação Getúlio Vargas e Fundação Instituto de Administração. Ainda nessa área, coordenou publicações que são referências no mercado. Como consultor e coach, vem aplicando um método baseado no apoio, encorajamento e questionamento de modelos mentais, percepções e experiências que influenciam as decisões de carreira de executivos e empresários, contribuindo significativamente com indivíduos e empresas na realização de transformações organizacionais. Desde 2014 também atua como advisor o governo da Nova Zelândia para empresas com interesses comerciais na América do Sul.