22 de novembro de 2017

Panorama geral das pesquisas contábeis no Brasil

por Sérgio de Iudícibus

Com certeza, as décadas de 1960 a 1980 foram as melhores e mais criativas nos Estados Unidos, para a Contabilidade, tanto sob o ponto de vista dos grandes trabalhos e autores conceituais, como da pesquisa empírica. No Brasil, houve um retardo, na parte empírica, que somente começou a ganhar mais vulto a partir do final da década de 1990. No lapso de tempo indicado, não somente maior parte dos textos conceituais foi imaginada, iniciada ou produzida como, na vertente empírica/positiva, impõe-se o seminal trabalho de Ball e Brown (1968), seguido por inúmeros trabalhos positivistas. A partir do sucesso do FASB e IASB, alguns anos após sua criação, tem havido certo declínio no número e qualidade dos trabalhos normativos. Ao mesmo tempo, o mainstream dos artigos e pesquisas positivas aumentou em quantidade, embora nem sempre em qualidade e criatividade.

Os pesquisadores e pensadores talvez nunca pesquisaram tanto, abordando grande variedade de assuntos como de uns anos para cá. Cerca de 95% das pesquisas realizadas, todavia, é de caráter empírico, pelo menos nos Estados Unidos e no Brasil. Os assuntos principais pesquisados são: pesquisas que relacionam variáveis contábeis e de mercado, gerenciamento de resultados, value relevance, conservadorismo, comportamento de analistas e auditores perante variáveis contábeis, as mais variadas pesquisas empíricas relacionando comportamentos de players do mercado, sendo muitas delas baseadas no modelo de Feltham e Ohlson (1995). Mais recentemente tem havido utilização da metodologia da teoria positiva em assuntos de ordem institucional e social etc. Ressalta-se, ainda, a recente inclusão nas pesquisas contábeis de trabalhos baseados em metodologias diversas da positivista, tendo sido utilizados paradigmas diversos, tais como o interpretativismo, a teoria crítica e os movimentos pós-modernistas (incluindo-se nesses os pós-estruturalistas).

Para avaliar a efetiva contribuição dessa enorme quantidade de pesquisas, seriam necessárias centenas de especialistas em epistemologia especialmente treinados para esse mister. Todavia, a impressão puramente pessoal que se tem é que, salvo raras exceções, as contribuições ao avanço real da ciência contábil são poucas e muitas vezes se notam pesquisas semelhantes com resultados contrastantes derivantes das diferentes amostras escolhidas e de como foram selecionadas. Há centenas, milhares de pequenos acréscimos de conhecimento, mas não sabemos em que direção está indo o saber científico global. As pesquisas atuais, principalmente as positivistas, têm contribuído apenas marginalmente com o avanço do conhecimento distanciando-se cada vez mais da prática e muito pouco têm auxiliado para a evolução da prática contábil.

Na década de 1920 havia grandes saltos de qualidade, como nos trabalhos de Paton (1922), de outros grandes nomes da contabilidade e assim se continuou até a década de 1980, parece que a enorme quantidade de trabalhos empíricos acrescida desde então deixou os grandes normativistas atônitos em traçar as tendências.

Já se afirmou em palestras que as pesquisas contábeis são como os afluentes que formam o grande rio da Teoria. As características desses grandes afluentes são tão variadas que não se consegue determinar claramente a característica dominante do rio Teoria (e aqui invocamos o já dito anteriormente, essa enorme diversidade leva à existência das teorias intermediárias, e não de uma teoria geral).

É claro que, também, via de regra, os textos de teoria não são abrangentes, tratando prevalentemente de Teoria da Contabilidade Financeira, deixando de lado a contabilidade gerencial.

Então, há dois conjuntos de pessoas trabalhando de forma continua e nem sempre coligada: os professores, pesquisadores espalhados pelo mundo afora os quais, premidos pela necessidade de publicar ou perecer, publicam milhares de trabalhos, quase sempre empíricos, de cuja avaliação qualitativa é extremamente difícil se caracterizar a qualidade e a direção: para onde estamos indo? Por outro lado, um punhado de profissionais altamente capacitados principalmente em entender o grande número de operações contábeis que existem neste mundo econômico tão complexo e que, com a débil luz de suas lamparinas conceituais (estruturas regulatórias) normatizam todos os aspectos da vida contábil, algumas vezes tornando o conjunto de normas tão grande e variado que se pergunta se não se está voltando à codificação tipicamente latina, como no caso do FASB.

É forçoso reconhecer que alguns pensadores e teóricos têm ficado algo desnorteados, nos anos mais recentes, pela verdadeira avalanche de normas emitidas pelos órgãos reguladores/normatizadores. Não se repetem, com muita frequência, trabalhos normativos e conceituais de grande fôlego. Há que se considerar, inclusive, que teóricos e pensadores normalmente estão alocados a universidades e, tendo em vista a excessiva preferência dada aos trabalhos empíricos, a fim de obter reconhecimento e serem bem pontuados não podem se dar ao luxo de investir tempo e esforços em trabalhos de alta envergadura conceitual (o que os órgãos reguladores realmente mais precisariam): a recompensa pode ser a perda do emprego. Lamentavelmente, no Brasil atual é extremamente penoso conseguir investir em trabalhos conceituais, pois raramente serão publicados. Não o sendo, a CAPES inferniza as coordenações dos cursos (de Pós-graduação) atribuindo conceitos baixos aos cursos e essas coordenações tornam a vida dos pesquisadores quase insuportável com suas exigências de pontuação. E esse círculo vicioso se instalou: não se publicam trabalhos conceituais (normativos, para não fugir do lugar comum), pois, a nosso ver erroneamente, são considerados como não científicos, e isso leva os pensadores a não fazer esse tipo de pesquisa. Por outro lado, as pesquisas empíricas continuam a todo vapor.

A comunidade contábil não é composta somente por acadêmicos pesquisadores, tampouco por elaboradores, reguladores e auditores. Ela é a soma desses dois lados. Mas nos parece que há uma cisma entre esses dois mundos que tem sido incrementada diariamente pelo pensamento acadêmico do publique ou pereça: os trabalhos acadêmicos cada vez mais bem fundamentados metodologicamente e cada vez mais distantes da realidade prática, gerando um conhecimento acadêmico exclusivo para a academia; e a prática, até mesmo por não ter respaldo da academia, desenvolve as normas contábeis sem seu apoio.

Da mesma forma que quase não se encontram trabalhos acadêmicos voltados para a Teoria da Contabilidade, e raríssimos são os voltados efetivamente para a discussão das normas, ficando no máximo na descrição dos efeitos de sua aplicação no mercado, também não se verifica no mundo prático a fundamentação das decisões normativas respaldadas por trabalhos acadêmicos. Um tanto pela aridez da linguagem científica muito pouco palatável para os não iniciados e outro tanto pela efetiva falta de utilidade prática dos resultados obtidos, esse distanciamento entre a academia e a prática é nítido… e prejudicial para ambos os lados.

Fonte: Revista Universo Contábil, ISSN 1809-3337, Volume 11, nº 1 (2015). Texto desenvolvido em parceria com o professor Eric Aversari Martins.

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  • Sérgio de Iudícibus
    Sérgio de Iudícibus

    É professor titular aposentado (Emérito) do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/ USP). Atualmente, é professor do Mestrado em Ciências Contábeis e Financeiras da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro do Conselho Curador da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (FIPECAFI). Foi Visiting Professor da Universidade de Kansas, nos EUA, quando, em 1986, ministrou, no Mestrado dessa instituição, as disciplinas Contabilidade Gerencial e Seminários de Teoria da Correção Monetária Contábil. Associou seu nome a uma importante etapa da evolução da Contabilidade no Brasil, quando, em 1962, juntamente com outros pioneiros, iniciou a mudança do ensino e da pesquisa em Contabilidade, lançando as bases de uma linha de pensamentos mais voltada para as necessidades do usuário da informação contábil. Exerceu, em várias gestões, a Chefia do Departamento de Contabilidade e Atuária da FEA/USP, bem como foi seu Diretor entre 1979 e 1983. Também exerceu a função de Diretor de Fiscalização do Banco Central do Brasil.