21 de janeiro de 2020

A pressa sempre foi inimiga da perfeição!

por Tadeu Cruz

Face aos dois terríveis desastres com o 737 MAX 8 fico a me perguntar se teremos uma verdade absoluta como resposta sobre as causas e as falhas inerentes ao fantástico novo modelo ou se teremos apenas verdades relativas, paliativas, arranjadas pela Boeing.

Por que a pressa em liberar um modelo tão criticado em diversos pontos por inúmeros especialistas ao redor do mundo?

Os testes de segurança da Boeing para o novo sistema de controle de voo instalado nos aviões de modelo 737 MAX tinham diversas falhas, afirmou o jornal “The Seattle Times”, segundo a agência de notícias Reuters. A análise feita pela fabricante sobre o novo sistema, chamado MCAS (Maneuvering Characteristics Augmentation System) subestimou o poder do equipamento, informou o jornal, citando engenheiros atuais e passados da Agência Federal de Aviação dos EUA (FAA).

E sabe o que a fabricante respondeu?

Após a publicação, a Boeing emitiu um comunicado afirmando que a FAA concluiu que o MCAS do modelo 737 MAX cumpria todos os requisitos de certificação e regulação, e que ele foi certificado de acordo com os mesmos requerimentos e processos da FAA que governam a certificação de todas as novas aeronaves.

Em resumo ele disse: está tudo bem com o MCAS!

E quase 400 mortes em vão!

E por que a Boeing não prestou atenção aos inúmeros relatórios que alertavam para os problemas vivenciados por experientes pilotos americanos sobre os problemas com o avião? O modelo ultramoderno é um sucesso de vendas, mas agora está sob suspeita.

Pois é.

O que terá motivado a Boeing a liberar um software tão complexo quanto o de gerenciamento de manobras sem exaustivos testes? E não me venham dizer que eles passaram por exaustivos testes porque a realidade, quase 400 mortos, e as declarações da fabricante estão desmentindo isto. Terá o software sido construído com metodologia Agile? Ou terá o processo de construção sido negligenciado em função da urgência, da pressão comercial?

Há algum tempo, tivemos outro exemplo de desastre na fabricação de equipamentos ultramodernos, o Galaxy Note 7, que superaquecia a bateria e explodia queimando as pessoas. Foram meses de espera acompanhados de teorias vindas de todos os cantos, mas finalmente a Samsung emitiu uma explicação oficial sobre a natureza do problema: baterias ruins.

Quando um produto tem uma falha de projeto que coloca o usuário em perigo, a empresa responsável deve fazer uma campanha de recall ou, como foi o caso da Samsung, recolher as unidades. Depois disso, costuma-se esperar (ou torcer) para que o assunto caia no esquecimento.

Mas o caso do Galaxy Note 7 atingiu proporções muito grandes. Aeroportos e companhias aéreas de todo o mundo davam avisos sobre a proibição de uso do aparelho e até mesmo de mantê-lo ligado no modo avião. À Samsung não cabia outra opção que não fosse investigar o problema e se pronunciar a respeito.

Finalmente em janeiro de 2017 a Samsung emitiu um relatório final e conclusivo sobre o problema, causa e soluções. O estudo afirmava que algumas das baterias de íon-lítio estudadas registraram curtos-circuitos internos e que algumas não tinham membranas de isolamento por erros no processo de fabricação. (grifo meu).

A investigação foi realizada ao longo de um mês pela própria companhia tecnológica sul-coreana e outras três organizações: as consultoras americanas UL e Exponent, e a empresa alemã de inspeção técnica e certidão TÜV Rheinland. Segundo o responsável de sua divisão de telefonia celular da Samsung, Koh Dong-jin, a publicação do relatório responde à necessidade de que a companhia “recupere a confiança” do consumidor após um fiasco que fez a empresa perder cerca de 6,1 trilhões de wons (perto de US$ 5,209 bilhões).

Koh explicou que investigadores e engenheiros recriaram processos de carga e descarga com cerca de 200 mil dispositivos e 30 mil baterias de íon-lítio para detectar e analisar os erros.

Pois bem, não quero me alongar. Vou voltar ao título do artigo: A pressa sempre foi inimiga da perfeição! E nos dias atuais parece que estamos sempre correndo, muito, queimando etapas, “simplificando” processos no afã de vencermos o tempo e não nos deixarmos ser vencidos por ele.

Mas como disse o Tiago, meu filho, dia destes, num seminário sobre gerenciamento de tempo, nós não podemos gerenciar o tempo, podemos e devemos gerenciarmos a nós mesmos, usando o tempo que temos para fazermos melhor o que precisamos fazer. Então concluo que a falha está em, justamente, pensarmos que se reduzirmos atividades estaremos reduzindo o tempo, quando na verdade seria melhor fazermos melhor cada atividade e o processo, consequentemente, seria melhorado com o um todo.

Desta forma, é de se supor que todo esforço para reduzir, eliminar, juntar atividades de qualquer processo deve ser cuidadosamente analisado e cuidadosamente realizado, para que não se corra o risco de colocar no mercado um produto com vicio redibitório.

A indústria automobilística está cheia de exemplos, pois todos os dias somos surpreendidos por convocações, recalls, parta troca de peças defeituosas.

Me preocupa ouvir que documentação de processo não é necessária, que documentação de sistemas não é necessária, que documentar solicitações de usuários, clientes, não é necessário, que tudo isto é pura perda de tempo.

A falta de documentação nos impede de buscarmos e conhecermos as causas de qualquer problema, quer no produto, quer no processo. E lembre-se, tanto para bens quanto para serviços.

“As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo”. Arthur Schopenhauer.

FONTE: TADEU CRUZ

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  • Tadeu Cruz
    Tadeu Cruz

    É Graduado em Administração de Empresas e em Filosofia pela Universidade São Marcos (1982). Especializado em System Software e em Data Communication Software pelo Cologne International Training Centre (Colônia, Alemanha) (1980). Especializado em System Engineering pela Hewlett Packard de México (1987). Mestre em Engenharia de Produção – Pesquisa Operacionale Gerência da Produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE-UFRJ) (2005). Professor de diversas universidades em cursos de graduação e pós-graduação. Ex-professor do curso de Engenharia de Produção da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Autor de 25 livros técnicos (3 em coautoria, sendo 1 em inglês), 6 livros de poesias e 1 livro de contos. Participou de mais de 140 cursos de extensão e especialização na Itália, França, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Argentina e México. Possui 43 anos de vivência e experiência em Tecnologia da Informação e da Comunicação, e 33 anos de vivência e de experiência em Qualidade e Desenvolvimento Organizacional. Trabalhou como consultor de Tecnologia de Informação e da Comunicação e de Gerência de Processos e Projetos no Uruguai, Chile, Argentina, Alemanha, Angola, Moçambique, Paraguai, Venezuela e Estados Unidos. Criador da Metodologia DOMP™ para mapeamento, análise, modelagem, implantação e gerenciamento de processos de negócio, utilizada em empresas localizadas em vários países e referenciada em dezenas de trabalhos acadêmicos.