1 de março de 2019

O segredo do profissional do futuro? X, de eXponencial!

por Martha Gabriel

Ao longo das nossas carreiras e desenvolvimento profissional, todos nós enfrentamos desafios e medos saudáveis, que podem ser usados como excelentes indicadores para o nosso aprimoramento. Quando ocorrem profundas transformações no mundo que reconfiguram as estruturas do trabalho (como as revoluções tecnológicas), os medos e desafios se ampliam e generalizam, indicando que todo o mercado precisa se aprimorar e evoluir.  Prestando atenção às perguntas mais frequentes no cenário profissional e educacional da atualidade, podemos destacar a predominância da preocupação com o profissional do futuro: “Quais são as habilidades humanas necessárias no século XXI?”, “O que precisamos saber e fazer hoje para termos sucesso amanhã?”, “Seremos substituídos por robôs e inteligência artificial?”, “Qual o papel dos humanos no futuro do trabalho?”, e assim por diante — essas perguntas revelam uma das principais dores (e desafios) existenciais da humanidade na era digital: lidar com a aceleração da obsolescência do conhecimento.

É curioso notar que essa inquietação geral sobre o prazo de validade da formação e da educação é inédita na história da humanidade — até recentemente, nos sentíamos tranquilos e seguros porque sabíamos a resposta para “dominar” o futuro e construir a carreira e a vida: bastava fazer os cursos mais adequados para os nossos objetivos profissionais, e pronto, estávamos capacitados. O desafio era apenas escolher entre os inúmeros cursos, sempre disponíveis para qualquer tipo de demanda de formação.

Confiávamos em especialistas em educação, que criavam a nossa jornada de sucesso — cursos superiores, MBAs e de especializações específicas –, caminho certeiro para o “passaporte” vitalício de profissional qualificado. Era possível planejar uma formação que durava o suficiente para nos garantir até a aposentadoria. Isso funcionou bem até o final do século passado, quando o mundo demorava décadas para mudar e impactar os conhecimentos e comportamentos profissionais necessários para atuarmos durante toda a carreira.

Obsolescência do Conhecimento

 
A partir do início do século XXI, com a aceleração no ritmo de mudança causada pelo crescimento exponencial da tecnologia, a informação no mundo passa a aumentar drasticamente e mudar constantemente, tornando os seus prazos de validade cada vez menores. E, assim, conforme a tecnologia avança, a situação vai se agravando, pois o conhecimento adquirido vale cada vez menos! Observe na imagem a seguir o ritmo de obsolescência do conhecimento: quanto mais técnico, mais rapidamente perde valor.

O segredo do profissional do futuro? X, de eXponencial!

Por mais impactantes que pareçam, os dados do gráfico acima já são antigos — de 1996. De lá para cá, a velocidade da obsolescência tem se intensificado gradativamente, justificando a inquietação geral cada vez maior sobre a formação, educação e desenvolvimento de habilidades profissionais e humanas para o futuro. Passamos a perceber que a fórmula de ontem não resolve mais os problemas inéditos de hoje; que os conhecimentos e atitudes que nos trouxeram até aqui não são mais suficientes (e, muitas vezes, são inúteis e inadequados) para nos levar para o futuro. A nossa formação passada não funciona mais como rocha segura e estável sob os nossos pés, mas, ao contrário, é instável e traiçoeira como areia movediça. Os nossos conhecimentos, formações e conquistas anteriores não conseguem mais garantir os nossos sucessos futuros.

De acordo com um estudo do Gartner no ano passado, apenas 20% da força de trabalho hoje possui as habilidades necessárias para desempenhar suas funções e alavancar a sua carreira. E, paradoxalmente, enquanto a transformação digital torna-se cada vez mais essencial para a sustentabilidade de qualquer negócio, o relatório nota que 70% dos empregados não possuem os conhecimentos suficientes para embarcar no processo de transformação, e que 80% não possuem nem os conhecimentos nem as habilidades essenciais para conduzir o negócio depois de transformado. Até mesmo a vida útil de segredos e assuntos confidenciais está encolhendo em função dos avanços tecnológicos: no passado, um segredo governamental durava mais de 25 anos; hoje, em função de hackings e vazamentos informacionais, esse tempo tem diminuído consideravelmente.

Promoção Volta às Aulas

A demanda por novas habilidades profissionais

 
Desse contexto de escassez de capital humano qualificado emerge o “apagão de talentos” que tem assolado as empresas na última década, aumentando o turnover, como no exemplo da imagem a seguir:

O segredo do profissional do futuro? X, de eXponencial!

Esses números apenas reforçam aquilo que já sabemos há mais de uma década: estamos passando por um momento crítico na evolução humana, em que existe um descompasso evidente entre as capacitações e habilidades profissionais presentes no mercado e as atividades demandadas pelo trabalho emergente da 4ª revolução industrial. Por um lado, o mercado sofre de uma escassez sensível de cursos adequados e profissionais preparados para atuar no mundo digital que se apresenta, cada vez mais complexo e exponencial; por outro lado, conforme a transformação digital avança na sociedade e nas empresas, a demanda por esse tipo de profissional aumenta. A equação não fecha!

Estamos nos perdendo no ciclone da complexidade e nos afogando no oceano da mudança, que continuam crescendo e nos impactando de forma implacável, criando dois problemas principais de qualificação profissional: 1) Para o indivíduo: dificuldade de entender o que está acontecendo, manter o foco e conseguir traçar um plano de atualização; 2) Para o mercado: desafio de conseguir criar novos cursos para uma quantidade crescente de capacitações inéditas necessárias, e, ainda, antes que elas mudem. As formações existentes — sejam de graduação, pós, extensão, curta duração ou qualquer outro tipo de curso — também sofrem para conseguir se atualizar na velocidade demandada.

Nesse contexto, fica claro que as ferramentas e os métodos usados tanto na formação escolar quanto profissional tornaram-se ineficazes no cenário atual. Até mesmo a educação continuada não consegue mais dar conta do ritmo de transformação que se impõe.

Mundo Exponencial

 
Sabemos, portanto, o que não está mais funcionando, e isso é um bom começo. No entanto, para resolver o problema, não é suficiente saber apenas o “que” não funciona — precisamos também entender o “porquê” (causas estruturais que mudaram o funcionamento), para então, conseguirmos descobrir o “como” para soluciona-lo (estratégia para funcionar novamente).

Vamos ao “porquê” da crise de capacitação profissional 😉 Por que precisamos urgentemente mudar nossa formação profissional?

A revolução digital tem causado uma transformação profunda no trabalho intelectual, da mesma forma que as revoluções tecnológicas anteriores afetaram drasticamente o trabalho braçal. Vivemos uma mudança de paradigma produtivo cognitivo — as tecnologias digitais estão impactando o cérebro humano da mesma forma que a máquina a vapor fez com os nossos músculos nos séculos passados (o que causou a mudança do paradigma produtivo mecânico de então).

Vejamos: quando as locomotivas surgiram, tornou-se inútil tentar competir com elas usando cavalos. Comprar 10 cavalos para tentar vencer um carro ou um trem, não apenas é ineficiente, mas, também, menos produtivo — no novo paradigma, o aumento na quantidade de cavalos não causa mais um retorno positivo no processo. No entanto, quando você é da elite dominante do conhecimento sobre cavalos, ou possui um negócio bem sucedido de cavalos, você não quer deixar para trás todo o esforço e investimentos de tempo e dinheiro que fez para chegar no topo, certo? Quem não se desapegou dos cavalos (paradigma antigo) e se transformou, quebrou. Assim, quando um paradigma muda, as regras também mudam, e todo o conhecimento adquirido sobre o paradigma anterior não tem mais valor — fazer mais daquilo que funcionava não apenas não melhora o resultado, mas, pelo contrário, pode prejudica-lo.

Analogamente, as “locomotivas” cognitivas da nossa era digital são as tecnologias computacionais inteligentes que geram e processam volumes gigantescos de informação (big data) em altíssima velocidade, com ritmo de crescimento exponencial. O “cavalo” de hoje é o nosso cérebro biológico, que evolui lenta e linearmente e, não consegue, portanto, competir apenas tentando aumentar e acelerar a quantidade de conhecimentos adquiridos.

Já atingimos o ponto de retorno decrescente desse tipo de estratégia: estudamos cada vez mais, mas estamos cada vez menos aptos para atuar nesse cenário (vide apagão de talentos, mencionado anteriormente). Esse ritmo tem nos conduzido a um colapso cognitivo biológico — o tempo de validade, a eficiência e produtividade do que sabemos é cada vez menor, enquanto o esforço e a velocidade necessária para a aprendizagem é cada vez maior.

Assim, estamos nos sentindo impotentes perante o futuro que se apresenta porque temos tentado absorver a explosão tecnológica exponencial com ferramentas de capacitação lineares. O paradigma mudou, as regras mudaram — profissionais lineares não conseguirão ter sucesso no ambiente tecnológico exponencial. Precisamos abandonar a mentalidade linear (que foca no acúmulo de conhecimento) e desenvolver a mentalidade exponencial que busca as habilidades que nos tornem exponenciais: transformem os nossos esforços em resultados exponenciais, articulando o conhecimento disponível em cada instante e se apropriando das capacidades e velocidade tecnológicas existentes, ao invés de tentar competir com elas. O futuro é desse profissional exponencial!

O Profissional do futuro é exponencial

 
E, como se tornar esse profissional? Acredito que o único caminho para isso é o desenvolvimento de uma simbiose cognitiva entre humanos e tecnologias digitais, da mesma forma que fomos criando simbioses mecânicas com inúmeras outras tecnologias durante a nossa evolução — ao invés de nos esforçarmos para desenvolver pernas biológicas cada vez mais rápidas, aprendemos a “pilotar” pernas tecnológicas mais eficientes, como bicicletas e carros (que se tornaram sistemas simbióticos homem-tecnologia). Mesmo não possuindo asas, passamos a “voar” simbioticamente com o avião. Portanto, no cenário atual, para nos tornarmos exponenciais, precisamos aprender a “pilotar” a tecnologia exponencial, em um processo simbiótico, colaborativo, em que cada parte contribui com o seu melhor, gerando um resultado sustentável maior, sinergético.

Assim, paradoxalmente, a mesma tecnologia que está criando esse contexto crítico é também a solução para superá-lo: ao abraçá-la e nos misturarmos com o seu poder exponencial que emerge, alavancamos o nosso potencial e nos tornamos profissionais exponenciais.

Fonte: https://www.linkedin.com/

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  • Martha Gabriel
    Martha Gabriel

    É considerada uma das principais pensadoras digitais no Brasil, referência em inovação, transformação e educação digitais. Autora de dois best-sellers e finalista do Prêmio Jabuti, é também premiada palestrante keynote internacional, tendo realizado mais de 70 apresentações no exterior, além de 4 TEDx. É uma das palestrantes mais requisitadas do Brasil, realizando mais de 100 palestras por ano. Apresentadora da websérie “Caminhos da Inovação” da Desenvolve SP e do Mundo Digital e “SEBRAE Digital” na Rádio Jovem Pan. Rankeada entre os 50 profissionais mais inovadores do mundo digital brasileiro pela ProXXIma, entre os Top 50 Marketing Bloggers mais influentes do mundo pelo KRED e Homenageada Especial do Prêmio Profissional Digital ABRADi 2017. Executiva e consultora nas áreas de business, inovação e educação. Engenheira pela Unicamp, pós-graduada em marketing pela ESPM-SP e em design pela Belas Artes-SP, mestre e Ph.D em artes pela ECA-USP e educação executiva pelo MIT. Professora de pós-graduação na PUC-SP, no TIDD – Tecnologias da Inteligência e Design Digital, de MBAs, e de Faculty Internacional da CrossKnowledge. Sócia da Martha Gabriel Consulting & Education e da startup Nethics Educação.