27 de abril de 2020

Resenha: História da Riqueza do Homem – Do Feudalismo ao Século XXI

por GEN.N&G

O livro História da Riqueza do Homem – Do Feudalismo ao Século XXI tem um duplo objetivo. É uma tentativa de explicar a história pela teoria econômica e a teoria econômica pela história.

A obra foi indicada no clube do livro de Gabriela Prioli, advogada criminalista, Mestra em Direito Penal pela USP, professora da pós graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie e comentarista política na CNN Brasil.

Gabriela Prioli CNN

FOTO: Divulgação

Ler o livro de Leo Huberman remete o leitor ao desenvolvimento da sociedade humana impulsionado por sangue, revoluções, traições e pactos selados, principalmente, por homens de visão. Cobrindo da Idade Média até o nascimento do nazifascismo, a saga da economia mundial, infelizmente, encerrava-se em meados dos anos 1930. Esta 22ª edição amplia-se e renova-se ao trazer dois capítulos assinados pela historiadora Marcia Guerra, cobrindo a nova era iniciada pela Segunda Guerra Mundial – fazendo desta a única edição atualizada no mundo.

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Leia o prefácio da 22ª edição do livro e veja mais detalhes:

Resenha: História da Riqueza do Homem - Do Feudalismo ao Século XXI

Por que ler Huberman hoje?

 
O momento em que esta nova edição está chegando aos leitores é muito instigante, quer do ponto de vista histórico, quer do ponto de vista econômico. É um daqueles momentos em que, fazendo pouco caso daqueles que pretendem domá-la ou conduzi-la segundo vontades particulares, a História mostra a sua face avessa aos determinismos.

Nas últimas décadas fomos bombardeados por insistentes pregadores que, dos palanques governamentais, das suas salas universitárias, das redações dos jornais e de outros tantos lugares de poder, afirmavam, acompanhando a dama-de-ferro britânica Margaret Thatcher, There is no alternative!, ou seja, nada além do livre mercado poderia assegurar o crescimento continuado da humanidade. Arautos do inatingível proclamavam que, embora a abundância não tivesse alcançado a todos, a liberdade de cada indivíduo para buscar a satisfação de seus interesses privados e de cada empresa para encontrar o caminho para obter o máximo de lucro com seus investimentos iria nos conduzir ao paraíso do consumo sempre ampliado – objetivo último da realização do ser humano.

Com maior ou menor velocidade – afinal as capacidades individuais não são as mesmas – havíamos alcançado o estágio irreversível da prosperidade garantida pela estabilidade monetária, pelo crédito facilitado e pela livre circulação de capitais e mercadorias pelo planeta. Os tempos difíceis haviam ficado definitivamente para trás.

Para os que teimavam na insatisfação frente ao ritmo sempre mais intenso do trabalho que avança pelos antigos horários livres do trabalhador, frente à substituição dos vínculos de solidariedade pela competição desenfreada, frente à incapacidade de homens e mulheres se satisfazerem pelo que são, substituída pela ávida busca de ter sempre mais, frente à intensa, e talvez irreversível, degradação ambiental do mundo em que vivemos, os apóstolos do fim da história indicavam a resignação: os tempos presentes seriam o melhor dos mundos possíveis.

Entretanto, no centro do próprio sistema começaram a emergir problemas que os detentores do poder e do capital acreditavam ter deixado aprisionados no passado: redução do consumo, desemprego, baixa das taxas de lucros, queda acentuada no valor das ações e demais papéis negociados no mercado financeiro, falências. A crise econômica se instalou e, dado o nível de articulação da economia, se mundializou.

Em setembro de 2008, com o pedido de concordata do banco de investimentos Lehman Brothers Holding Inc., gigante norte-americano do mercado financeiro, as maiores instituições financeiras mundiais revelaram-se incapazes de fazer frente à crise, e os governos dos principais países capitalistas puseram em prática estratégias para salvá-los: trilionárias injeções de dinheiro público, nacionalizações, políticas de estímulo ao consumo – velhas receitas para um mal também já experimentado: a recessão econômica mundial. Sua profundidade e sua duração ainda não estão definidas neste momento.

Todavia, já não é possível afirmar que o capitalismo globalizado está imune às recessões e que aqueles, como Karl Marx, que haviam assinalado serem as crises inerentes à lógica do sistema capitalista estavam equivocados. Como declarou George Soros, megaempresário, especulador e político liberal norte-americano: “Ando lendo Marx, e há muitas coisas interessantes no que ele diz”.

A crise atual não significa a derrota da perspectiva neoliberal, tampouco nos permite concluir que se aproxima a hora derradeira do sistema baseado na busca ilimitada do lucro privado. Mas nos estimula a reflexão. Pois, como o velho pensador alemão enfatizou, o mundo não pode ser transformado se não for entendido. E, para aqueles que querem entendê-lo, a obra de Leo Huberman continua sendo uma excelente porta de entrada.

Como disse sobre ele Che Guevara: “Huberman cumpre com perfeição a primeira tarefa de um revolucionário – ser claro”. E a clareza do autor nos acompanha em todos os capítulos de sua obra, permitindo ao leitor atribuir sentido aos complexos movimentos que acompanham a afirmação e a consolidação do capitalismo. Esse aspecto é ressaltado pelo historiador e professor da UFRJ Francisco Carlos Teixeira da Silva:

“A primeira vez que li a História da riqueza do homem foi ao final do 2.º Grau, sob sugestão do meu então professor de história Chico Alencar. Pela primeira vez, na minha cabeça, a história parecia ter um sentido, uma lógica interna que a torna bem mais que um amontoado de datas e de fatos. O rigor da descrição, densa e muito encadeada, de Leo Huberman procurava mostrar a necessidade de uma base material para o desenvolvimento histórico e, simultaneamente, a preeminência da luta de classes como fator explicativo. Até então, aluno do Colégio Pedro II, as leituras de história eram centradas em Victor Mussumeci, Bruno Giordani e, o mais sofisticado da época, em MacNall Burns. Huberman, ao contrário destes autores, possui um fio condutor, uma lógica rigorosa e um estilo de escrita agradável e, mesmo, divertida.

Nos meus primeiros anos de magistério – nos cursos Premium, Planck e GPI – recomendei e utilizei largamente o texto com meus alunos. Mais tarde, na universidade, encontrei a grande continuidade – na verdade marcada pelo marxismo desenvolvido no Ocidente e na New Left Review, entre Huberman e Maurice Dobb, cujo livro A evolução do capitalismo era base do grande debate sobre a transição do feudalismo ao capitalismo. Aos poucos, o rigor de Huberman/Dobb mostrou-se teleológico e pré-construído, buscando uma explicação a posteriori de fatos e processos pré-escolhidos. De toda forma, o livro permanece como parte fundamental do pensamento marxista no Ocidente, uma opção progressista em sua época, antipositivista e antistalinista.”

Resenha: História da Riqueza do Homem - Do Feudalismo ao Século XXI

Huberman se orgulhava de levar aos jovens estudantes e trabalhadores que o liam, muitas vezes cansados após um dia de trabalho, uma análise compreensível da dinâmica capitalista, que contemplasse o pensamento e os principais conceitos dos autores clássicos – Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx – sem ser enfadonho ou fazer pouco da inteligência do leitor. Talvez esteja aí a explicação para o sucesso que alcançou, de forma quase imediata, primeiro nos Estados Unidos e depois em várias partes do mundo, incluindo o Brasil.

Durante as décadas seguintes à sua publicação, a História da riqueza do homem foi uma obra capaz de interferir nas escolhas de vida daqueles que a liam. Como aconteceu com a, hoje, historiadora e professora da UFF Adriana Facina, que o leu, como diz, “com uns 19 anos, e ele foi fundamental para que eu tomasse uma decisão que definiu a minha vida: larguei a faculdade de Medicina e fiz mudança de curso para História. Quem me indicou foi o Mario Schmidt, professor e autor de livros didáticos de História. O livro me estimulou muito a desenvolver uma visão crítica das coisas e a ver a História como um processo”.

Influenciados pela narrativa que permitia entender o mundo em que vivíamos – marcado pelas enormes desigualdades sociais, pelas guerras e disputas políticas entre aqueles que acreditavam ser possível um futuro mais digno para a humanidade e os que, satisfeitos, queriam mais do mesmo –, muitos de nós jovens que concluíamos a leitura de Huberman, assim como Adriana Facina, definíamos que nos tornaríamos historiadores, economistas ou jornalistas.

Mais ainda, tomávamos a decisão de que valeria a pena lutar por uma outra sociedade na qual a semente semeada fosse colhida por aqueles que a haviam plantado. Durante os anos sombrios que se seguiram ao golpe de 1964, quando o controle sobre a atividade política, editorial e acadêmica limitava as discussões em sala de aula, sempre havia um professor, um primo ou amigos mais velhos que, percebendo a ansiedade nos olhos dos mais curiosos, indicavam a obra de Huberman como solução para uma parte das angústias que afligiam os jovens insatisfeitos com as explicações “oficiais”. O sentimento de que, enfim, grande parte das nossas dúvidas estava sendo esclarecida acompanhava a leitura voraz dos capítulos, que era feita sem que professor algum precisasse exigi-la. Ainda que não fossem poucos os mestres que a recomendavam.

O historiador e professor de história Chico Alencar, o mesmo que indicou o livro de Huberman a seu então aluno Francisco Carlos, recorda-se bem do impacto que a leitura lhe provocou:

“A minha formação como pessoa ganhou uma feição especial com a História da riqueza do homem. Ainda adolescente, aquele precioso livro foi esquadrinhado em cada capítulo e discutido em grupo. Sabor e saber compartilhados. Escrita fluente, bem-humorada, aguda. E atraente: ‘hoje vou cedo para casa, quero ler!’. Muitos de seus trechos foram até memorizados sem esforço. Sabidos de cor, isto é, de coração: cada página jogando nossa cabeça e emoção no mundo, solidários com os condenados da Terra. O autor contava a história da pobreza de muitos homens e mulheres, para que a riqueza de uns poucos se formasse. Para mim e tantos outros da nossa geração hoje quase sexagenária, o Leo – um norte-americano! – nos fez descobrir o sentido da História, a ideia de processo, a identificação com as lutas de outros povos. Sentíamo-nos – We, the People (título de outra obra-prima dele) – ‘fraternados’ com os servos das glebas, com os artesãos, com os ludistas quebradores de máquinas, com os operários das fábricas frias e sombrias, apesar do vapor, com todos os que travavam guerras no afã de conquistar um pouco de paz. Humanizados, historicizados! Descobrimos o contravalor da mais-valia… Há livros que fazem sucesso e depois, como personagens de novelas, desaparecem no esquecimento. Outros, mesmo datados e imensamente presos aos conceitos duais de seu tempo, se transcendem, viram marco. Mais que livro: documento. Por que falam das veias abertas, das vidas secas e da grandeza humana, com seu sonho imorredouro por justiça e igualdade. É bem o caso da História da riqueza do homem, que tanto nos enriqueceu.”

Sentimento que também é partilhado pelo economista e professor Sérgio Besserman, a quem o livro foi apresentado pelos pais e se tornou uma tradição passada de irmão a irmão:

“Meus pais eram de esquerda e eu um leitor precoce. Eles me deram a História da riqueza do homem quando eu tinha treze anos, que foi quando eu o li, fascinado, pela primeira vez. No ano seguinte foi a vez do meu irmão Marcos, um ano mais novo. E cinco anos depois eu e o Marcos demos um mês ao Bussunda, nosso irmão mais novo, para o ler. Se não lesse o pau iria comer… Todos lemos fascinados a magistral combinação de introdução ao marxismo (sem doutrinarismo), história e generosidade ao colocar o olhar na marcha da humanidade. Um livro que décadas depois continua sem igual.”

Neste boca a boca, em tempos de lançamentos editoriais muito mais modestos, o livro de Leo Huberman vendeu bem mais de meio milhão de exemplares (foram 483.900 só entre 1973 e 2009). Tamanho sucesso de público seria, por si só, uma indicação da sua relevância, de sua condição de documento, como ressalta Chico Alencar. Mas a ele devemos agregar a capacidade de produzir uma reflexão sobre o mundo e ao mesmo tempo fomentar a solidariedade, a generosidade e projetos coletivos para o amanhã, valores fundamentais em um mundo vitimado pela fragmentação resultante das políticas neoliberais.

Nesta nova edição revista e acrescida de dois capítulos, o leitor encontrará um breve panorama das tensões e propostas que marcaram a segunda metade do século XX. Ao leitor peço desculpas, desde já, pela incapacidade de escrever como Leo Huberman. Para além de seu talento inigualável, os tempos são outros – a História, como cantou o poeta, atropela indiferente todo aquele que a nega, e também produziu transformações no marxismo, nos
marxistas, nas concepções sobre o fazer histórico e nos historiadores.

Tomando o texto como um tributo, o Capítulo 23, que aborda acontecimentos contemporâneos à vida do autor da História da riqueza do homem, foi escrito com base em análises desenvolvidas pelo autor em outras obras e, em particular, nos seus artigos publicados na Monthly Review, periódico socialista fundado e dirigido por Huberman e Paul Sweezy, desde 1949 até a morte de nosso Huby, como era carinhosamente chamado pelos amigos, em novembro de 1968.

Quando aceitei dar continuidade ao texto de Huberman, devo confessar que o fiz movida pela paixão – podia sentir ainda a emoção que me acompanhou quando, na adolescência, o li pela primeira vez. Recordava os diversos subtítulos, os argumentos e a indignação que se tornava mais forte à medida que, capítulo após capítulo, os véus que ocultavam o segredo interno do capitalismo – a exploração do homem pelo homem – iam sendo retirados.

Cada linha dos dois capítulos que escrevi contém a mesma emoção, acrescida da preocupação em respeitar a inteligência e a sensibilidade do leitor, que foram, na minha opinião, o traço maior deste excepcional educador revolucionário – no sentido mais agudo que esses dois conceitos possam ter – que foi Leo Huberman. Cada uma é, também, uma homenagem ao homem que, como poucos na história contemporânea, foi capaz de convencer a tantos de que vale a pena manter a utopia.

Marcia Guerra
Historiadora
Professora da PUC-Rio
Professora do IFRJ — Instituto Federal de Tecnologia,
Ciência e Educação do Rio de Janeiro

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Leo Huberman | História da Riqueza do Homem

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