7 de janeiro de 2020

#Techsaúde: a medicina do futuro é individual, robotizada e baseada em dados

por Sandra R. Turchi

Quem me acompanha já conhece meu entusiasmo pelas novas possibilidades surgidas a cada dia devido à Revolução Tecnológica. Minha área profissional, focada no e-commerce e marketing digital, tem me permitido acompanhar as rápidas transformações que ocorrem na sociedade a todo tempo. E uma das áreas mais promissoras quando se fala nos benefícios para o indivíduo que a revolução 4.0 pode trazer é a saúde.

Órgãos inteiros produzidos em impressoras 3D, acessórios e roupas inteligentes capazes de monitorar a saúde do usuário em tempo real, mapeamento do gene com predição de doenças que antigamente eram diagnosticadas tardiamente, cirurgias realizadas por robôs ou manuseadas à distância, chips que substituem cirurgias invasivas, entre outros. As possibilidades são inúmeras – mas nenhuma delas se trata de ficção científica, algumas já estão sendo adotadas cotidianamente, enquanto outras estão em vias de implementação.

Selecionei algumas das possibilidades que a utilização da tecnologia aplicada à área da saúde que mais faz meus olhos brilhar – e vou apostar aqui que os seus também.

Na esquina

 

Quando se trata da saúde individual, a tecnologia já faz parte do cotidiano de boa parcela da população. Utilizar o whatsapp, por exemplo, para marcar consultas, tirar dúvidas ou até mesmo orçar medicamentos já é uma realidade para muitos – tanto que a startup paulistana Manipulaê, que faz a intermediação entre farmácias e consumidores, está crescendo num ritmo de 30% ao mês em novos clientes, em pedidos e em receitas, desde o início do ano.

Já a busca de informações de saúde pela internet já está tão consolidada que ganhou até um termo próprio, o Drº Google. Nesse quesito a tecnologia aplicada à saúde já é consagrada: uma pesquisa da Kaiser Family Foundation indicou que, nos EUA, o índice de usuários que admitem ter buscado informação na internet sobre algum sintoma chega a 70%. Os aplicativos e gadgets também estão se popularizando: mais da metade (51%) utiliza essas tecnologias para acompanhar sono, desempenho físico ou dietas. Contudo, quando se vai mais a fundo, a utilização da tecnologia para a saúde ainda não vai além da superfície – apenas 44% dos indivíduos acessaram seus dados médicos online e menos de 25% usam o digital para gerenciar questões de saúde.

A utilização de gadgets e aplicativos já é um ingrediente que promete revolucionar a medicina no futuro. A quantidade enorme de dados geradas pelos hábitos de vida e a manifestação dos sintomas de um paciente será fundamental para uma medicina personalizada, com diagnósticos mais precoces e valores mais precisos para a indústria privada da saúde. Essa é a aposta do relatório Pulse of the Industry 2019, produzido pela gigante empresa de consultoria EY. De acordo com o documento, a indústria de medtech está longe da crise: tecnologias voltadas para dados continuam a ganhar validação de reguladores e investidores e no último ano sua receita aumentou em 7%, para US$ 407,2 bilhões, no terceiro ano consecutivo de crescimento. Desde o início de 2018, a FDA americana, responsável pela regulação do setor, já aprovou 33 algoritmos distintos de inteligência artificial para processar dados individuais de saúde e indicar caminhos de tratamentos. Mas a liderança da área é chinesa: 37% do investimento mundial em digitalização do setor ocorreu lá.

<Acesse o relatório na íntegra>

E quem acha que a revolução prometida pelo setor está longe de acontecer deve conhecer este caso: em fevereiro, Toralv Østvang, um norueguês de 67 anos levou um tombo, bateu com a cabeça e desmaiou. Ele usava um Apple Watch, que registrou o movimento brusco da queda e disparou um alerta para a polícia local, ao identificar que após um minuto ele não se mexia. Østvang teve uma hemorragia interna no crânio e só não faleceu por conta do relógio, que assegurou socorro a tempo. Nos EUA, as estimativas indicam que uma pessoa morre por conta de um acidente evitável a cada três minutos. Prova de que essa tecnologia tem ainda muito espaço para crescer e fazer diferença real na vida das pessoas.

Weareables como Apple Watch fazem parte de um conjunto de tecnologias “vestíveis” que está sendo denominada de smart bodies, o “corpo inteligente”. São aparelhos com sensores conectados à internet que prometem ter mais impacto em nossas vidas até do que as casas inteligentes. Os equipamentos do gênero mais populares são mesmo os relógios: além do monitoramento para quedas, a maioria já conta com monitoramento de frequência cardíaca, e alguns já são capazes de fazer eletrocardiogramas e detectar problemas como fibrilação atrial.

Nos Estados Unidos, até o mercado de planos de saúde é um dos mais interessados na tecnologia. É o caso da Devoted Health, uma startup norte-americana voltada para o mercado de seguro de saúde com foco em idosos, que oferece desconto de até US$ 150, para os clientes que comprarem, e usarem, o Apple Watch. O subsídio, que representa um pouco mais de um terço do valor, é dividido com Apple. A expectativa é a de que o relógio ajude no alerta para problemas de saúde antes que eles se tornem mais complexos e caros para resolver.

O mercado de wearables tem um crescimento anual estimado de 16,7% e projeções estimam que possa chegar a US$ 34 bilhões em 2020. No Brasil a tendência se confirma, mas ainda há muito espaço para crescimento: um estudo do Grupo Technos detectou que o consumo anual de relógios inteligentes do brasileiro ainda é quatro vezes menor do que a média mundial.

Revolução na área da saúde

 

Mas se tratando de tecnologias voltadas para a saúde, a medicina individual é só uma pequena amostra da revolução que está acontecendo no setor. No futuro, por exemplo, órgãos inteiros poderão ser impressos. É o que podemos esperar no caso dastartup Cyprio, liderado pela médica iraniana Noushin Dianat. Radicada na França, a startup produziu um modelo 3D de células de fígados humanos e ganhou há poucos meses um investimento para desenvolver o protótipo. A ideia é ousada: a partir do desenvolvimento de tecido hepático, é possível até produzir um fígado, que serviria de paliativo para os pacientes na fila de transplante. Mas só as células já têm em si grande utilidade: funcionam para saber a toxicidade de novos medicamentos em teste. Para demonstrar o que o futuro nos reserva, a Siemens publicou um caso imaginário de uma paciente com câncer de cólon em 2038. Vamos a ele.

A paciente descobre que possivelmente está com metástase de um tumor retirado anos antes e engole uma pílula munida de uma câmera. A partir das imagens coletadas e dados genéticos e sanguíneos, uma equipe consulta em um grande banco de dados com informações de outros pacientes com quadros similares e a probabilidade de surgimento de metástase. Se o resultado for positivo, a paciente vai para um exame de imagens que gera um modelo 3D do fígado, onde estão as novas células cancerosas. Em casos de tumores pequenos, a cirurgia é não invasiva: são inseridas uma série de agulhas carregadas de nanorobôs que navegam e queimam as células ruins. Se o tumor estiver maior e precisar retirar de um pedaço grande do órgão, a equipe cultiva células hepáticas da pessoa que são injetadas após a retirada das partes do órgão afetado para ajudar na recomposição. Um mês depois, a paciente já está em casa, com o fígado renascendo.

Mas não vou precisar esperar tanto para ver acontecer a mágica da utilização de tecnologia para evitar cirurgias invasivas. O físico brasileiro Sérgio Mascarenhas, já criou um truque ao se deparar com suspeita de possuir Hidrocefalia de Pressão Normal. Embora a doença seja facilmente curável, só para confirmar o diagnóstico era preciso realizar uma cirurgia que perfurasse o crânio e medisse a pressão interna. Para evitar o procedimento, Mascarenhas, que também é engenheiro, se dedicou a buscar uma solução e descobriu que um chip normalmente usado para medir abalos em estruturas de obras é capaz de perceber a alteração da pressão interna do crânio, sem cirurgia invasiva. O físico hoje tem 91 anos e é fundador da startup brain4care. O seu marcador virtual, que não invade o crânio, pode ser instalado em seis horas.

Com tanta inovação acontecendo por aí, inclusive em terras canarinhas, fica difícil duvidar do meu entusiasmo pelo potencial que a Revolução 4.0 tem na saúde, não é mesmo?

Fonte: Sandra Turchi

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  • Sandra R. Turchi
    Sandra R. Turchi

    É sócia-fundadora da Digitalents, empresa de Consultoria, Treinamentos e Talentos (hunting, coaching e outsourcing) focada no universo digital. Administradora de empresas formada pela FEA-USP, pós-graduada pela FGV-EAESP e MBA pela Business School SP e Toronto University. Também cursou empreendedorismo na Babson College. Foi executiva de marketing por mais de 20 anos nos setores de Varejo, Financeiro, Educacional e de Serviços em empresas como Lojas Arapuã, Grupo Zogbi, Finasa-Bradesco, FGV, Associação Comercial de SP e Boa Vista Serviços. Eleita um dos professores de marketing mais influentes nas mídias sociais no mundo pela revista SM Magazine. Leciona nos MBAs em Marketing Digital da FGV, FIA, Saint Paul, entre outras instituições. Coordenadora dos cursos de extensão em Marketing Digital e Mídias Sociais na ESPM-SP desde 2008. Articulista de diversos veículos, como revistas e portais, no Brasil e na Europa.